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Este Mundial já tem uma surpresa: o Uruguai

O Uruguai é a quarta seleção com pior ranking no Mundial de râguebi, na qual nem todos os jogadores são profissionais, mas ganharam às ilhas Fiji, que falharam um pontapé aos postes no último segundo e confirmaram o primeiro resultado surpreendente na prova

Diogo Pombo

Ken Ishii7Getty

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Ben Volavola chuta a bola e, de imediato, curva-se, vai com um braço à relva para apanhar o cone, tão em baixo quanto a altura a que se estica. Deve tê-lo sentido, mal bateu com o pé no que está a ir em direção aos postes, que o pontapé não contava com boa pontaria, que o efeito, aos poucos, curvaria a trajetória contra um dos postes.

Quando, pumba, bate, já ele está a caminhar para trás, o fijiano cujo apelido cortado ao meio é uma conjugação possível do verbo voar no idioma de quem, a correr e a saltar e a pulular campo dentro, festeja o seu pontapé torto. Os uruguaios, loucos, voam por todo o lado em celebração do 30-27 que Volavola não desfez, no último segundo do jogo.

É a terceira vitória do Uruguai em cinco Mundiais, dezasseis anos passados desde a última, o resultado mais davidesco e goliesco que se poderá ver no Japão.

Dos 31 uruguaios convocados, 22 são profissionais, poucos para um desporto que se profissionalizou em 1995, muitos se tivermos presente que há quatro anos eram apenas quatro. Mario Sagario deixou de ser um pilar e Joaquín Praga um centro, ambos titulares da seleção, por incompatível ser essa vida com a de um economista, a estudar e a trabalhar, e a de um médico a cumprir o ano de especialidade.

Eles perderam dois jogadores fulcrais, pronto, para a vida que ainda custa viver só às custas do râguebi, ainda pouco retribuidor no Uruguai, que assim chegou ao primeiro jogo do Mundial com 25 anos e nove meses de idade média na equipa, a mais jovem entre todos os 15 iniciais já feitos.

Mesmo assim, ganharam aos brutos, bestiais e assombrosos fijianos, que há dias tinham discutido o jogo (39-21) com a Austrália e não foram capazes de fazer passar mais do que 27 pontos pela defesa multiplicadora dos uruguaios. Cansaram-se, esfolaram-se contra uma seleção fisicamente mais demolidora, cinco lugares superior no ranking, mas sujeita aos típicos erros caóticos com e sem bola.

Os sul-americanos falharam 48 placagens, percorreram quase metade dos metros com bola, mas, voando aquela bola contra um poste, ganharam.

Fizeram o que os levou a barricarem-se, semanas consecutivas, no Centro de Alto Rendimento de Montevidéu, construído em 2016 e onde se alavancou a preparação para este e o próximo jogo, contra a Geórgia, únicos que podiam contestar num grupo onde a presença de Austrália e Gales fazem a esperança de conseguir surpresas ir só até certo ponto.

O bom desta surpresa possível foi ter acontecido em Kamaishi, bem no norte do Japão, cidade achatada e varrida pelo tsunami, em 2011, que se reconstruiu e ergueu um estádio, propositadamente, para receber dois jogos do Mundial de râguebi. O único feito de raiz para a competição.

Morreram mil das 35 mil pessoas que viviam na cidade industrial, conhecida pela produção de aço, pelo cinzento da paisagem manufaturada, pelos canos das fábricas. No único sítio, no Japão, onde uma equipa de râguebi já não é controlada por uma empresa, o Uruguai bateu as Fiji e, agora, terá apenas os mesmos quatro dias que os grandalhões do Pacífico tiveram para descansarem até ao jogo seguinte.

Que torçam para que o tempo não passe a voar.

  • O lado negro da lua oval

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    Os sul-africanos começaram intensos, duros e pressionantes sem bola, com muitos pontapés territoriais a empurrarem os neozelandeses para trás. Mas, ao primeiro erro alheio, os All Blacks farejaram hesitação, marcaram 17 pontos em cinco minutos (na primeira parte) e arrancaram para uma daquelas vitórias (23-13) que lhes surge, mesmo quando não jogam em modo-deus