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Râguebi

Não é só placar. Há regras e têm sido impostas, mas não para agrado de todos

Já houve quatro jogadores alvo de revisões do painel disciplinar do Mundial por causa de placagens altas, dirigidas à cabeça, ou feitas apenas com o ombro. Três foram suspensos por três jogos, o outro não porque Will Hooley, americano que sofreu a placagem, não a considerou perigosa. Mas há quem se queixe de os árbitros estarem a ser demasiado castigadores contra cargas demasiado elevadas ou, como disse Michael Hooper, capitão da Austrália, de estarem a punir quem leva com "uma técnica de placagem horrível"

Diogo Pombo

Ashley Western/MB Media

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Para quem pouco o vê, apenas arranha a superfície das regras ou não sabe, ao certo, como se joga, o râguebi pode parecer um sinónimo de tudo ser permitido. São 15 brutamontes a colidir uns contra os outros, que têm anos em cima a muscular o corpo e dar a força e a proteção possíveis contra um jogo em que o contacto, mais do que inevitável, é quase obrigatório.

A única maneira de parar quem tem a bola é placá-lo.

Usar o peso, o tamanho, a força e o aglomerado de músculos que tenho para me agarrar ao outro, certamente não tímido em tamanho, derrubá-lo para a relva e pará-lo na marcha. Mas, claro, com regras, que não são poucas e contrariam a ideia de que o râguebi parece ser só bater de frente e pronto.

Se assim fosse, a carga agressiva de Piers Francis contra Will Hooley, aos sete segundos do Inglaterra-EUA, logo após o pontapé de ressalto, teria sido uma mera e casual pancada. Apenas uma bruta placagem em que o centro inglês apagou o defesa americano e, por acaso, lhe tirou os sentidos e o fez acordar já na maca, a ser levado para fora de campo.

Ashley Western/MB Media

O jogo seguiu, a memória de Hooley sofreu uns buracos, recorda-se de acordar na maca, de pensar “que bom” por o drop de arranque ir na sua direção - “Entro cedo no jogo”. Voltou ao campo, “não [guardou] rancores” contra Francis, que quis “começar o Mundial em estrondo e foi exatamente isso que fez”. O defesa americano, que na verdade é inglês e naturalizou-se via descendência da avó, “contrariamente à crença popular”, não considera ter levado uma pancada na cabeça.

- “Acreditem em mim, nós sabemos quando isso acontece. Se foi alguma coisa, o contacto pareceu ter sido contra o meu ombro”.

Hooley recusou prestar um depoimento ao Painel de Disciplina do Mundial e concordou com a decisão de não aplicar uma suspensão a Francis. “Fiquei contente”, garantiu, sabendo nós da sua felicidade porque, em plena competição, escreve artigos para o “The Guardian” e atesta à fabulosa liberdade que ainda resiste no râguebi e gera aversão em muita gente de outras modalidades.

O americano é uma raridade por tempo e disposição ter para escrever em pleno Campeonato do Mundo, por ter sido varrido brutalmente, continuado a jogar e, depois, por ter levado outra violenta pancada, aos 78 minutos, essa na cabeça, de Mark Wilson, que fez o que a primeira não causou. Obrigou-o a ir para o hospital e levou-o a apontar uma crítica: “É difícil ignorar a inconsistência de algumas decisões [de arbitragem]”.

Em ambas as pancadas que levou, o árbitro não reviu a jogada, nem perguntou a opinião do vídeoárbitro (TMO - Television Match Oficial), ao contrário do que fez mais tarde, quando John Quill projetou o ombro contra a cara de Owen Farrell e o deixou “sem bocados do nariz”. O jogo parou, a arbitragem viu as repetições e o americano foi expulso.

(ver o vídeo em baixo a partir do 1:32)

Antes de Will Hooley ser um alvo para placagens demolidoras e de Owen Farrell ser abalroado por um ombro de apontado à cara, existem as tais regras.

Não se pode placar um jogador que esteja no ar; não é permitido placar alguém acima do nível dos ombros; um placador deve envolver sempre os braços no adversário e cair com ele; jamais pode ir contra quem tem a bola com os braços para trás, sem intenção de o ‘abraçar’.

Depois, vêm os vários fatores de mitigação, como a World Rugby lhes chama, que podem atenuar as consequências quando há acima do ombro e a equipa que os comete apenas é castigada com uma penalidade ou cartão amarelo, em vez de uma expulsão direta para o jogador infrator.

Na terça-feira, finda a primeira jornada da fase de grupos e antes do Inglaterra-EUA, os árbitros presentes no Mundial fizeram uma mea culpa, em comunicado: “Os árbitros reconhecem que as prestações não foram consistentes com os standards definidos por eles e pela World Rugby”.

Em parte, porque Reece Hodge, o ponta australiano, escapara a um cartão vermelho quando o julgamento popular o considerou merecedor de um, contra as Fiji, quando foi apenas amarelado e disse “não ter conhecido das regras novas”. Como Rey Lee-Lo e Motu Matu'u, ambos da Samoa, que foram suspensos por três jogos pelo painel de disciplina do Mundial após, também, não terem visto cartões vermelhos por placagens altas.

Ashley Western/MB Media

O rigor dos árbitros tem-se aplicado, igualmente, às cargas de quem corre bom bola. No domingo, Samu Kerevi esticou o braço contra o pescoço de Rhys Patchell, que o abordou de frente, sem grande flecção de joelhos e com os apoios sem amparo.

O centro australiano embateu de frente no abertura galês e, ao empurrá-lo, acertou meio com o cotovelo no adversário, que não se queixou da carga.

O árbitro apitou uma penalidade contra a Austrália o capitão, Michael Hooper, deu-lhe a opinião. "Portanto, já não podemos correr contra placagens? Foi apenas uma técnica de placagem horrível", disse, com a queixa a ser audível pelo estádio e transmissão televisiva fora. Sam Warburton, o já retirado galês, que capitaneou a seleção no último Mundial, tão pouco viu qualquer falta, defendendo que a carga de Kerevi se deveu "apenas à forma como ele carrega a bola".

Questionado sobre a carga, um desolado Kerevi disse que, "vendo a direção" que o râguebi está a tomar, "mais vale" juntar-se "à NRL no próximo ano", aludindo, com maior ou menos pitada sarcástica, ao campeonato australiano de Rugby League, outra variante de râguebi, em que não há rucks, apenas seis placagens são permitidas por cada posse de bola e o contacto físico entre brutamontes a sprintarem é limitado para (suposto) bem do espetáculo.

Ver matulões a colidirem, caírem, erguerem-se e repetirem o processo, uma e a outra vez, tem cada vez mais limites à mistura. E, com mais regras, está a aparecer mais polémica.