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Hagibis: o tufão que elimina seleções e deixa gigantes em lágrimas

Hagibis é o nome do tufão que obrigou a organização do Mundial de râguebi a cancelar dois jogos de sábado e a ponderar se autoriza, ou não, que se realizam os quatro que há agendados para domingo. Caso o temporal não o permita, é bem provável que o Japão sobreviva à fase de grupos e a Escócia morra nesta fase sem entrar em campo para o impedir. A culpa é do ciclone tropical e das regras da competição

Diogo Pombo

Chris Hyde - World Rugby

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Chamaram-lhe Faxai, varreu furiosamente o território de Honshu, a maior ilha do Japão e, em Tóquio, os ventos, a chuva e a queda de estruturas causaram a morte a três pessoas, deixaram cerca de um milhão sem eletricidade em casa e deu prejuízos de quase 390 milhões de euros. No início de setembro, um tufão típico da época dos tufões bem no Este da Ásia atingiu o território japonês e calhou ser no dia em que a seleção inglesa de râguebi aterrou no país.

Há muito, muito e muito tempo que a ciência meteorológica sabe que setembro e outubro são meses prediletos para as temperaturas quentes da superfície do mar, a elevada humidade, a força Coriolis da Terra, os centros de baixa pressão e outros elementos climáticos conspirarem em torno do Japão. Não era, de todo, inesperado.

A World Rugby, porém, não adiou o arranque do Mundial, deixou-o a 20 de setembro, mesmo que preocupada com assuntos ciclónicos ao ponto de ditar, nas regras da competição, que qualquer jogo cancelado no Japão por motivos climatéricos daria um empate (0-0) e dois pontos a cada equipa.

O tufão Faxai passou e pouco mais de um mês volvido, eis que apareceu Hogibis, nome do ciclone de categoria 5 (a mais elevada) que aparenta ter um potencial destrutivo incomparável ao antecessor. Estima-se que o 19.º tufão neste período atinja o Japão no sábado com ventos a rondar os 240 km/h, que seja um provável causador de desabamento de terras e que eleve as ondas no mar a alturas destrutivas.

Robert Speta, um meteorologista, perito em tufões, que trabalha para a Marinha dos EUA, explicou o que está em causa ao “Japan Times” com uma analogia: “Passou de tempestade tropical para um violento tufão numa questão de horas. Isto só acontece quando todos os ingredientes certos se juntam. Imaginem que tinham um fogo e, além de lhe atirar gasolina para o aumentar, agarravam num pouco de óleo e um par de latas de aerossol para garantir que funcionava”.

Deixando as metáforas, o tufão Hogibis vai fechar aeroportos, cortar linhas de comboio, manter populações entre portas e colocar um país em alerta.

E já cancelou dois jogos do Mundial.

Chris Hyde - World Rugby

Na madrugada desta quinta-feira, Alan Gilpin, diretor do torneio, sentou-se à frente de jornalistas para explicar a decisão de cancelar o Inglaterra-França, marcado para Yokohama, e o Nova Zelândia-Itália, em Toyota. “Não foi tomada de ânimo leve e foi a pensar na segurança de jogadores, adeptos e voluntários”, disse.

Ingleses e franceses, já apurados para os quartos-de-final, iam tirar as teimas do primeiro e segundo lugares do Grupo C. Os neozelandeses, já apurados, apenas precisavam do ponto que obtiveram do cancelamento para garantir a liderança do Grupo B.

A matemática ainda dava esperanças aos italianos, mesmo que improváveis pela dependência de uma vitória contra os All Blacks, contra quem, em 15 jogos, sempre perderam por uma média de 46 pontos. Um tufão e uma decisão de escritório tirou-os do Mundial e roubou a Sergio Parisse e Leonardo Ghiraldini o último jogo das suas carreiras internacionais.

O primeiro, um majestoso careca e número 8, de 36 anos, há muito capitão da Itália, com ida a cinco Mundiais, é o segundo jogador mais internacional (134 jogos) da história do râguebi. O segundo é o talonador, de 34 anos, que moveu mundos para recuperar de uma lesão ao joelho (sofrida em março, no torneio das Seis Nações) e poder reformar-se na prova em que não chegou a jogar, pois o plano era dar-lhe 20 minutos de campo contra a Nova Zelândia, uma despedida condizente.

Quando soube do cancelamento, a 48 horas do hipotético adeus, Ghiraldini desmanchou-se em lágrimas.

Outros choros copiosos poderão seguir-se, no domingo de manhã, quando a World Rugby analisar, no próprio dia, se “todos os esforços” não forem suficientes para se jogar o Namíbia-Canadá, o EUA-Tonga, o Gales-Uruguai e o Escócia-Japão, que vai estar no olho de todos os furacões.

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT

Os escoceses entraram no Mundial apáticos e lentos, derrotados pela Irlanda, e acordaram para a vida, que os despertou para marcarem 95 pontos seguidos, sem algum sofrido. De anfitriões, os japoneses passaram, de novo, a surpresa, galgando para lá do que fizeram há quatro anos, ganhando aos irlandeses que lideram o ranking da World Rugby e somando três vitórias seguidas.

A colisão destes percursos fez o jogo ser o mais ansiado da fase de grupos: os britânicos têm de vencer para chegarem aos quartos-de-final, igualando eventuais pontos de bónus que os nipónicos façam (marcar quatro ensaios ou perder por menos de 5 pontos).

Mas, mantendo-se o tufão, é provável que o cancelamento do jogo e os dois pontos dados a cada equipa acabem com a Escócia eliminada, porque ficaria dependente da Samoa ganhar à Irlanda, façanha bastante improvável de aparecer no meio das diferenças entre as duas seleções, que só por uma vez, em 1996, favoreceram o conjunto de ilhas do Pacífico.

Deslocar o jogo de Yokohama para Oita, na ilha sul do Japão, à distância medida em 6 horas de comboio, ou Kobe, a pouco mais de três, era uma hipótese que a organização descartou, a bem da segurança dos adeptos e evitando mover milhares de pessoas no meio de um tufão.

A Federação Escocesa de Râguebi reagiu, de imediato, escrevendo que está “em contacto permanente” com a World Rugby, de quem espera “planos de contingência” para que o jogo, de facto, se resolva em campo e não no papel onde estão as regras. “A segurança pública é a prioridade”, defendem, mas a Escócia “deve lutar por um lugar nos quartos-de-final dentro de campo”.

A decisão não está nas entrelinhas dos regulamentos. Estará no feitio de Hagibis, o tufão que dirá quem avança, ou não, no Mundial.