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Râguebi

Calma, são só “15 gajos” a dançarem

Vamos em nove edições do Mundial e os bravos galeses podem tornar-se, apenas, na sexta seleção a jogar uma final, roubando um pouco de marasmo ao torneio se vencerem a África do Sul. Na outra meia-final, as ingleses que, provavelmente, têm a defesa mais fiável da competição, jogam contra a Nova Zelândia, que não derrotam há sete anos e cujo jogo começa no reputado haka, que pode intimidar muita gente, mas não Eddie Jones, o selecionador inglês: "Nessa altura do jogo, podiam estar a tocar as Spice Girls que eu não reparava"

Diogo Pombo

World Rugby - Handout

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São muitos tipos musculados, bestas humanas de força, a esbugalharem os olhos, a esticarem a língua para fora, a fazerem caretas assustadoras; dão chapadas no próprio corpo, batem com os pés na relva, sincronizam a brusquidão dos seus gestos e berros de um idioma incompreensível; compondo este cenário e cobrindo-se todos com vestimenta integralmente negra, é verdade que podem assustar.

Tendo-os a coisa de 10 metros, vociferando gritos guerreiros, minutos antes de um jogo onde o contacto físico não faz cerimónia e senta-se logo à mesa, James Haskell via “15 gajos a dançarem” que lhe davam vontade de “ir para o campo e lutar contra eles”.

Soa a aligeiramento forçado do haka, dança do povo maori, nativo da Nova Zelândia, que os All Blacks fazem, religiosamente, antes de cada encontro. Mas, pensando mesmo como escreve, ou forçando o seu eufemista interior, James Haskell, um pedregulho de flanqueador que somou 77 jogos pela Inglaterra, é da opinião que “a não ser que tenhas o coração do tamanho de uma ervilha”, o enfrentar o haka “devia motivar-te”.

O ritual maori vence ninguém, as vitórias não começam na dança, nem os All Blacks ganharam 80,4% dos jogos contra os ingleses por culpa de um ritual. “Muitas pessoas pensam que é sobre o que estás a fazer aos adversários”, já explicou, mais de uma vez, Kieran Read, capitão da Nova Zelândia, “mas, na verdade, tem a ver com as sensações que retiras de quem tens à tua frente, atrás de ti ou ao teu lado”.

Os neozelandeses incendeiam-se com os gritos, as caretas e os gestos, que despertam reações, no fundo, crentes que um paradoxo pode ser eficaz: o haka não dá pontos ou ensaios, mas podem-se inventar estratégias para o contrariar.

Os franceses já avançaram contra eles, formados em ‘v’, antes da final do Mundial, em 2011, quatro anos depois de os enfrentarem, na cara, entrando-lhes na cabeça e eliminando-os. Os galeses mantiveram-se imóveis, nem uma pestana mexida, mais de um minuto contado depois do ritual terminar, em 2008, obrigando o árbitro a intervir. Em 1997, o inglês Richard Cockerill deixou-se inflamar, colou a cara a Norm Hewitt, inventou uma provocação à qual ceder e ouviu um companheiro de seleção a tremer a voz: “O que foste tu fazer?”.

BEHROUZ MEHRI/Getty

As probabilidades dirão que os ingleses presentes no estádio de Yokohama, no sábado (9h, Sport TV2), gastem cordas vocais no “Swing Low, Sweet Chariot”, gritando para abafarem o haka com a canção que elevaram quase a hino do râguebi inglês, unindo-se num uníssono parecido ao de 2012, em Twickenham, como da última vez que ganharam à Nova Zelândia.

O tanque humano que move em Manu Tuilagi estava lá, a marcar dois ensaios, a ser fonte primordial de corridas embaladas com bola a quebrarem a linha da vantagem, como a Inglaterra ainda o tem e espera ter, outra vez. O samoano naturalizado inglês vê o haka como a maioria dos jogadores, “uma honra e um desafio para ser aceite”, vendo os neozelandeses batíveis pela força construída, em quatro anos, pelos ingleses.

O exigente Eddie Jones que lhes pegou, na ressaca do Mundial anterior, entregou o que as expetativas lhe auguraram. A Inglaterra tem a defesa mais sólida do torneio, constante na cobertura de rucks, muralhada contra bolas jogadas à mão, o centro (Tuilagi) mais perigoso em corrida e, com George Ford confirmado a 10 e Owen Farrell desviado para 12, voltará a ter dois aberturas na sua linha de médios.

Em Ford terá o par de mãos mais criativo e improvisador dos ingleses, em Farrell mantém as placagens duras do capitão em campo, neles está a ideia de ter dois organizadores de jogo na equipa, ideia replicada pela Nova Zelândia com Richie Mo’unga a 10 e os sprints explosivos de Beauden Barrett a 15, com mais espaço para embalarem.

É a presença deste neozelandês atleta atrás da linha dos três quartos que aconselha cautela no jogo ao pé dos ingleses. Pontapear muito a bola para fora da área de 22 metros, logo na primeira ou segunda fases, quando pressionados, será depositar-lhe oportunidades para correr contra uma equipa desalinhada.

O truque, se é que os há frente à seleção com tiques de omnipotência e sem pontos fracos evidentes, será tentar atrasá-la na reciclagem da bola. Puxar pelos manos Vunipola e os restantes seis avançados para, nos rucks, impedirem perdas de bola e tentarem emperrar os dois ou três segundos que Aaron Smith, o médio de formação com os braços mais velozes a passar a bola, costuma demorar a esvaziar a bola do chão.

Os avançados que passam a bola como médios, a vertigem como que saem de rucks, o faro com que atacam a mínima desorganização no adversário, a constância com que jogam a abrir, fazem dos All Blacks temíveis máquinas compressoras de râguebi, até para a Inglaterra, mais robótica e menos espetacular do que o primeiro par de anos com Eddie Jones, mas, com George Ford, Owen Farrell, Manu Tuilagi, Billy Vunipola ou Johnny May, sustenta a seleção que maior dano lhes parece poder causar.

Dave Winter/Getty

Danificados, traumaticamente, ficaram os galeses, há quatro anos, quando sofreram um ensaio com muitos quês de desconcentração infantil, a cinco minutos do fim, nos quartos-de-final do último Mundial.

O número oito Duane Vermeulen ficar com a bola de uma mêlée, fixar o único galês que cobria o lado fechado, passá-la com uma mão, pelas costas, e Fourie Du Preez correr 10 metros para o ensaio parece ser o tipo de erro evitável que o País de Gales aprendeu a evitar.

Há quem lhe chame experiência, outros falarão em maturidade, pode-se ir pelo simples lado da concentração, certo é que, na última competição em que é treinada por Warren Gatland, a seleção galesa é a outsider para conquistar o Mundial. Algures lá em cima, para onde tantas bolas são batidas por Dan Biggar ou Gareth Davies, a gravidade ou os deuses dos azares fizeram descer infortúnios para lhes dificultar um pouquinho mais a vida.

O segunda linha Josh Navidi lesionou-se e não jogará mais. Um tornozelo torcido, durante um treino, roubou-lhes Liam Williams, o arrière das pernas arqueadas, maior motivo que faria os sul-africanos matutarem em dúvida, por segundos, antes de chutarem uma bola à procura de território.

No seu caso, há o luxo Leigh Halfpenny para ser erguido do banco, mas, caso Jonathan Davies, um dos centros titulares, não recuperar da lesão, mais costuras terão que ser cozidas na seleção galesa que já chegou remendada (sem Taulupe Fauletau e Gareth Ascombe) ao Mundial.

Dave Winter/Getty

Lá vão os galeses, desafiadores habituais da má fortuna - em 2015, chegaram a ter oito lesionados -, para a meia-final com a África do Sul, nação do hemisfério sul mais dependente no poderio dos seus avançados, com quem se espera um jogo onde a bola seja pontapeada amiúde, muitos tu-cá-tu-lás em busca de território a serem trocados.

Não é, por definição, um jogo atraente ao olho, mas é provável que, acordar cedo no domingo (9h, Sport TV1), assistirá a muitos pontapés vindos dos médios galeses, reforçados agora pelo pé de Halfpenny, a aliviarem-se de pressão na área de 22 metros. E que tenham a resposta de Faf de Klerk, o formação sul-africano, em tempos elogiado pelas corridas espontâneas com que fugia de trás dos rucks, agora algo criticado tantos chutos dados na bola.

A apetência da África do Sul para afastar os adversários do seu campo, à primeira ou segunda fases de jogadas, com pontapés para fora, ou chutos nas costas das linhas atrasadas, não é causal.

A estratégia fê-los sofrer apenas nove ensaios nos 10 jogos que leva em 2019 (incluindo dois contra a Nova Zelândia) e De Klerk é um fiel apologista: “É verdade que chutamos muito, mas tentamos ler o jogo e encontrar um balanço favorável. É positivo porque ganhamos território. Nem sempre temos um plano de pontapés definido. Lemos o jogo e ouço o que o Handré [Pollard] me diz”.

O abertura dir-lhe-á que continue a chutar à vontade, respeitando o modo de viver da África do Sul, que pode voltar a jogar uma final e prolongar o entediante costume de vermos sempre as mesmas nações a decidirem um Mundial.

É a regra tácita do hábito, pois menor será o espanto quanto mais repetições houver de determinada coisa. Pensamento não escrito, mas dito, o ano passado, por Eddie Jones, que encolheu os ombros e aplicou o raciocínio ao haka: “Na altura do jogo em que acontece, podiam estar a tocar as Spice Girls que eu não reparava”. Enganador ou não, é, pelo menos, um bom disfarce.