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Chamem-lhe a rosa selvagem: a Inglaterra ganhou à Nova Zelândia e abanou o Mundial

A Inglaterra derrotou a Nova Zelândia que não perdia há 12 anos e 20 dias em campeonatos do mundo. Como? Jogando como se fossem eles os All Blacks, com um jogo rápido, à mão, intenso, frenético e implacável nas placagens

Pedro Candeias, com Diogo Pombo

Adam Davy - PA Images

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O que a Inglaterra acaba de fazer não tem ressonância noutros desportos coletivos, pois não há memória de alguém dominar um jogo durante tanto tempo como os All Blacks fizeram no râguebi: contas feitas, a Nova Zelândia não perdia há 12 anos e 20 dias em Mundiais. A Inglaterra, a seleção da Rosa, varreu esse recorde com uma exibição que seria perfeita não fosse aquele erro infantil num alinhamento que permitiu o único ensaio à equipa do hemisfério sul.

Ficou 19-7, quando na realidade o resultado poderia ter sido mais desnivelado, porque a supremacia inglesa nunca foi posta em causa durante os 80 minutos do encontro: foram sempre mais rápidos, mais intensos, mais eficazes nas placagens (grande exibição de Sam Underhill) e nos alinhamentos (mérito do gigante Itoje) e nos roubos de bola, com um par de turnovers que julgaríamos impensáveis. Basicamente, a Inglaterra jogou como os All Blacks, sem medo e implacável. E tudo começou assim, no desafio ao mítico haka neozelandês.

O jogo arrancou com um ensaio inglês, depois de uma cavalgada de Courtney Lawes e um mergulho definitivo de Manu Tuilagi, jogador recuperado por Eddie Jones que viu nele ainda o talento e a centelha aparentemente desaparecida em incidentes extra-curriculares: em 2011, mergulhou de um ferry no Mundial, em Auckland; em 2015, não foi chamado à equipa por andar à bulha.

A seguir, veio a conversão e antes dos 5 minutos já estava a ganhar com o ensaio mais rápido alguma vez marcado à Nova Zelândia em Mundiais.

Se alguém acredita em sinais, este era um deles.

Até porque quando se esperava, naturalmente, a reação dos All Blacks, esta foi tardando e tardando, acontecendo bem dentro da meia-hora de jogo. O gigante Maro Itoje, de 1,95m e 115 kg, que viria a ser eleito o melhor em campo, foi ganhando ovais e impondo a sua intensidade, impulsão e tempo de salto nos alinhamentos que foi roubando aos adversários.

[Itoje acabou o desafio com três turnovers e sete alinhamentos ganhos. Notável.]

O jogo chegou ao intervalo com 10-0, depois de uma conversão certeira de Ford. Obviamente, apesar de tudo ninguém dava a Nova Zelândia por perdida, pois faltava responder à questão de todas as questões: durante quanto tempo iria a Inglaterra aguentar a jogar como a Nova Zelândia, quando não há ninguém como a Nova Zelândia a jogar como a Nova Zelândia?

A resposta: até ao fim.

Na segunda-parte, a Rosa manteve o ritmo alto, chegou ao 13-0 noutra penalidade de Ford, mas, ainda assim, havia quem recordasse que, há um ano, os ingleses chegaram a estar a vencer os neozelandeses por 15-0 - e acabaram por perder.

É normal duvidar de acontecimentos paranormais, estamos sempre à espera que a normalidade se imponha: quando a Nova Zelândia reduziu (13-5) num ensaio possibilitado por uma infantilidade inglesa no alinhamento, já com Sonny Bill Williams e os seus offloads a fugir às placagens, chegou a pensar-se que os ingleses iriam, enfim, descer à terra.

Sucede que aquilo foi um mero fogacho de um bicampeão do mundo que continuou a ser dominado como nunca por um rival que jamais cedeu à ansiedade de poder estar a reescrever a história deste Mundial.

Se é verdade que, à partida, só a Inglaterra seria capaz de bater a Nova Zelândia, era difícil apostar que a teoria se concretizasse nas meias-finais. E desta forma absolutamente inesperada.