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As voltas que o râguebi deu até esta final

Inglaterra e África do Sul jogam a final do Mundial de râguebi no sábado (9h, Sport TV1) e não há pessoa mais ligada a tudo o que está em causa do que Eddie Jones, o selecionador inglês

Diogo Pombo

John Giles - PA Images

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O fato de treino assenta-lhe largo. Sobra tecido nas pernas, nos braços e nos ombros, ele boia lá dentro. Tem, ao pescoço, uma fita de identificação, como se obrigatório fosse explicar, a toda a hora, quem é e o que está ali a fazer. Parece um mero ajudante, irrelevante membro da equipa técnica em que os restantes treinadores vestem, todos, a camisa, a gravata e o protocolar casaco verde e amarelo dos springboks.

Eddie Jones nunca se adorna com o fato, típico da seleção da África do Sul, durante o Mundial de 2007. Nem quando o ganham. Fala-se em politiques dentro da federação de râguebi, em supostas cláusulas no contrato, justifica-se com a vontade do próprio australiano em não se ornamentar com a vestimenta que honra quem é escolhido para trabalhar na seleção — mas “se ele queria, ou não, não é a questão, ele merecia-o”.

Fourie du Preez era o médio de formação dessa África do Sul, vice-capitão da equipa vitoriosa, na final, contra a Inglaterra, em que não fizeram questão em ter mais posse que os adversários, nem foram quem teve mais corridas e metros percorridos com bola em mão. Baseavam-se no rochedo que era a sua defesa, na intensidade posta no contacto e nos pontapés territoriais apontados para dentro de campo.

Se a descrição soa a familiar e se se pode aplicar a um dos finalistas deste Mundial, a decidir no sábado (9h, Sport TV1), é muito por culpa do então incógnito na indumentária, mas mestre nos bastidores, Eddie Jones. A três meses do arranque do torneio de 2007, o australiano foi contratado como conselheiro técnico da África do Sul. “Se não fosse ele, não teríamos ganhado o Campeonato do Mundo”, disse Du Preez, ao “Telegraph”.

É quem, olhando bem para o cenário, deveria ser o alvo de todas as perguntas caso a ideia fosse dissertar sobre as voltas que a vida (e o râguebi) dá.

Porque, há 12 anos, Eddie Jones, que em 2003 treinava a Austrália e perdeu na final do Mundial, foi substituir Rassie Erasmus, hoje selecionador da África do Sul, que defrontará a estrondosa Inglaterra de Jones, imediatamente caída no caldeirão do favoritismo assim que, na meia-final, vergou a Nova Zelândia a um controlo continuado que os neozelandeses costumam impor às outras equipas.

David Jones - PA Images

Eddie Jones, tudo ele, o metódico que acorda às 5h, submete jogadores a sessões intensas, mas curtas, para estarem nos limites aeróbicos do corpo; quem já os obrigava a treinar com bolas ensaboadas, anos antes de toda a gente o fazer nos estágios pré-Mundial, para acautelar a humidade do Japão.

O treinador que priva, ao detalhe, com cada inglês desde 2015 sobre um objetivo: conquistar o Mundial, que apenas venceram em 2003. Pela frente terá a seleção mais equiparável à Inglaterra na potência no jogo físico, injetada no marrar de avançados contra a linha da vantagem e na agressividade defensiva a avançar contra o portador da bola.

A África do Sul não entusiasma com variações nas jogadas à mão, é previsível no que pretende fazer com as fases de ataque em campo aberto e limita, muitas vezes, Handré Pollard, talvez o abertura mais constante do torneio, a abrir a bola para a linha de corrida mais próxima e a pontapear, aqui e ali e muito, para afastar a pressão.

Ele e Faf de Klerk, o formação loiro até aos ombros, prendem o jogo do springboks nos pontapés, ultrapassaram Gales dessa forma e assim tentarão suster o habitual entrar-com-tudo dos ingleses. Serão liderados por Siya Kolisi, o primeiro capitão negro da África do Sul, cujo simbolismo explodirá caso ponha as mãos no troféu e dê o terceiro (1995 e 2007) título ao país onde a oval ainda é mais tocada por brancos.

Nos últimos 12 meses, só sofreram quatro ensaios nos primeiros 20 minutos de um jogo. O jogo ao pé é insistente, o estilo pode ser aborrecido, mas são os sul-africanos, vestidos com o seu fato, que têm a oportunidade de barrar a Inglaterra de Eddie Jones.

* Texto originalmente publicado na edição de 1 de novembro do Expresso.

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