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Râguebi

Engana-me que eu gosto, histórica África do Sul

A seleção que jogava o râguebi mais físico, com mais pontapés territoriais e maior aposta no jogo no chão e nas formações, fez bluff, mudou o estilo na final e ganhou (32-12). A África do Sul conquistou o terceiro Mundial da história, o primeiro com um capitão negro, Siya Kolisi, contra uma Inglaterra que pareceu ter a sua final há uma semana

Diogo Pombo

David Rogers/Getty

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Como assim, o jogo oval mais fulcral em quatro anos arrancar tão estranho, de tão incomum, cheio de atividade quase paranormal.

Courtney Lawes escorre ao tentar placar, um ruck passa-lhe por cima, fica a tapar a saída da bola e, aos 49 segundos, provoca uma falta contra a imaculada Inglaterra, cuja imunidade a este tipo de erros a ajudara, uma semana antes, a devastar a terra negra e mais dominadora do râguebi.

O pontapé afim de ser convertido, pois não era longe e desenquadrado com os postes, é falhado por Handré Pollard, o provável médio de abertura de pé mais certeiro para acertar no que falha. É surpreendente, dois erros seguidos de tipos fiáveis que nem peças mecânicas, mas, com o tempo, entende-se que são apenas grãos no meio de um quadro muito maior de anormalidade da final do Mundial.

Porque, como é possível, a África do Sul estratega e fiel aos estratagemas dos muitos pontapés territoriais, das linhas de corridas apontadas aos canais perto dos rucks e de confiarem mais no pé do que no jogo à mão, ignora tudo isso. O estilo físico, de choque para depois pontapear a bola e procurar de novo o contacto, valioso porque lhe valeu a chegada à final e o próprio treinador dissera ser para manter, fugiu para parte incerta.

O bluff de Rassie Erasmus e dos sul-africanos varreu os ingleses com a surpresa de lidarem com muitas fases de bola nos três quartos, Pollard e Willie le Roux a organizarem uma linha para a qual Faf de Klerk, a viver no limiar de irritabilidade de tanto chutar nas partidas até aqui, já passava a bola até na própria área de 22 metros - nos primeiros 10 minutos, foi apenas uma vez com o pé esquerdo à bola.

E os jogadores ingleses, nervosismo a escorregar-lhes nas mãos, eram comandados por cabeças a depararem-se com um estilo de jogo que, provavelmente, não esperavam. Precipitavam-se nos passes, encravavam jogadas, cometiam faltas e davam quatro penalidades para o imperturbável Pollard converter.

Foram 40 minutos com, tão só, duas chegadas da Inglaterra aos 22 metros contrários, das quais extraíram duas faltas para Owen Farrell resgatar seis pontos contra os nove sul-africanos.

Um mal diminuído, rajadas de areia para os olhos de quem via os equipados de branco a não ligarem mais de quatro passes por fase, bloqueados pela intensa pressão que sofriam sobre o primeiro ou segundo recetores de bola, quando a abriam a partir de rucks. A África do Sul avançava na pressão e roubava tempo para os ingleses embalaram Manu Tuilagi.

Hannah Peters/Getty

A Inglaterra tornou-se mais agressiva com a bola no chão, obrigou-se a acordar do 6-12 ao intervalo. Mais força e disputa injetou nas mêlées e já tentava contestar os alinhamentos, momentos parados do jogo em que África do Sul dominaria, à partida, com os oito avançados mais especializados do torneio.

Arrancou faltas no primeiro quarto de hora do regresso, Farrell acertou dois de três pontapés, as fases à mão tinha mais campo aberto e pareceu, de facto, que mais jogadas iriam chegar às pontas de Johnny May e Anthony Watson sem mãos escorregadias pelo caminho.

Perante esta reação e os ligeiros sinais de alarme, os espertos sul-africanos retornaram ao que, no fundo, se esperava deles. Lembraram a bola dos pés De Klerk e Pollard, chutaram bem lá no alto, carregaram na pressão contra quem captava a oval, forçaram faltas e, com os minutos, desmembraram a organização da Inglaterra.

E, em jogadas rápidas, a bola chegou aos seus pontas, Makazole Mapimbi e Cheslin Kolbe, cada um com ensaio marcado já depois de os ingleses largarem a oval na única jogada em que chegaram perto da área de ensaio. A pressão, combinada com a aposta no estilo habitual a partir dos 60 minutos, deu o Mundial à África do Sul perante uma Inglaterra sem tino, atropelada pela intensidade que não foi capaz de igualar.

Comparando um pouco à força, caiu com o mal que causara, há uma semana, à Nova Zelândia que, portanto, serve de termómetro para nada - o Campeonato do Mundo foi para a seleção que perdeu com os All Blacks logo à primeira jornada, não para a equipa que os anulou na meia-final.

KAZUHIRO NOGI/Getty

Os resultados, como as aparências, são enganadoras.

O Mundial é da nação que, em 2016, perdeu oito jogos (incluindo com a Itália) e, em 2017, perdeu 57-0 com os neozelandeses. Que durante tantos anos se iludiu com o racismo, uma das piores e horrendas invenções da humanidade que, um dia, a minoria branca do país transformou no regime de segregação chamado apartheid.

Esse mal colapsou um pouco mais com Siya Kolisi, primeiro capitão negro da África do Sul que, quando tudo assentou e antes de tocar no troféu, pensou no país - “Desde que estou vivo que não o vejo assim. Agradeço a todos. Não jogámos por nós, jogámos por toda a gente que lá está”.