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Israel Folau, o jogador homofóbico que agora alega discriminação religiosa

Poderia, e deveria, ter estado no último Mundial e sido um dos melhores jogadores da Austrália, mas Israel Folau, um devoto cristão, estava suspenso, desde maio, por dizer que os homossexuais estavam destinados a ir para o inferno. Agora, quer uma indemnização de 8,6 milhões de euros da Federação Australiana de Râguebi, alegando ser alvo de discriminação religiosa e defendendo, também, que a seleção teria chegado "a uma prestação superior" no Campeonato do Mundo se tivesse sido convocado

Diogo Pombo

Chris Hyde/Getty

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Em condições normais, teríamos visto Israel Folau no Japão, qual monstro embalado a correr de bola oval em mão contra adversários, provocando o rasto de destruição que, por hábito, deixa para trás. Folau era, há muito, um dos mais demolidores arrières do mundo, ocasionalmente usado à ponta, e uma das principais fontes de ameaça da Austrália que já não produz assim tantos jogadores formidáveis quanto isso.

Não o vimos no Mundial, a cair com a Austrália nos quartos-de-final, porque Israel é um cristão devoto. Em abril, pegou no telemóvel, entrou no Instagram e publicou uma imagem com uma mensagem - “Bêbados, homossexuais, adúlteros, mentirosos, fornicadores, ateus, idólatras, o inferno espera por vocês” - que levou a federação de râguebi do país a cancelar-lhe o contrato.

Nas grandes nações do râguebi no hemisfério sul, os jogadores, salvo algumas exceções, não são convocáveis, apenas, por terem nacionalidade: têm de assinar vínculos com a federação do país para, só assim, poderem ser chamados. No início de maio, a Rugby Australia rescindiu o contrato com Folau devido a “uma violação de alto nível do código de conduta para jogadores profissionais nas redes sociais".

Israel Folau poderia acatar, sair da Austrália, deixar o tempo correr por ele, fazer figas para que o vento levasse a polémica e, jogando noutro país, esperar pelo dia em que o voltassem a convocar para a seleção, porque seria possível: tem 73 internacionalizações, mais do que as 60 exigíveis, como mínimo, para chamar alguém que jogue no estrangeiro.

Cameron Spencer/Getty

Folau preferiu, antes, contestar a decisão.

Apelou em tribunal, o processo rolou e o jogador exigiu à Rugby Australia uma indemnização por alegada discriminação religiosa e danos causados, que Folau calculou, estimou e tudo somou para chegar aos cerca de 8,6 milhões de euros.

Entre o que lhe restava no contrato (era dos atletas mais bem pagos na Austrália, escreve o “The Guardian”), os prémios de jogo em test matches (encontros internacionais de seleções) e lucros com contratos publicitários (várias marcas cessaram os vínculos com o jogador, após a polémica), Folau clama que teria “benefícios pós-carreira” se tivesse chegado a capitão da Austrália, que teria, também, uma “performance superior” caso o tivesse na equipa durante o Mundial.

Folau, um devoto cristão, nascido e criado como um mórmon, pertence hoje à Assembleia de Deus. Lê a Bíblia todos os dias, diz que dela extrai “a sensação de paz” que não encontra “em qualquer outra área da vida”. Já em abril do ano passado, perguntaram-lhe qual era o “plano" do criador "para os homossexuais”, também nas redes sociais, ao que respondeu: “O inferno, a não ser que se arrependam e se entreguem a Deus”.

Em novembro, já com o Mundial a decorrer, Israel tomou a palavra num seminário, em Sydney, onde sugeriu, pela leitura de excerto da Bíblia, que os incêndios e períodos de seca que afetavam (e ainda afetam) a Austrália, eram “um castigo de Deus” pela legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. "Os eventos que aconteceram, no último par de anos - a palavra de Deus diz que o homem e a mulher deve estar juntos... e eles vieram e mudaram esta lei (...) o aborto, agora é ok matar bebés e crianças não nascidas", disse, na altura.

Arrependido, ou não, das suas intervenções, ou focado em retomar a carreira oval, Folau contactou a federação para emitir um pedido de desculpas público, revelou a entidade, tendo até sugerido que todas as suas publicações nas redes sociais, daí em diante, se submetessem ao aval da Rugby Australia. Tal aconteceu, contudo, antes de o caso seguir para a fase de julgamento em tribunal.

Israel Folau tem 30 anos e há seis meses que não joga râguebi, seja pela Austrália, ou pelos Waratahs, equipa de Sydney que compete no Super Rugby. Para o voltar a fazer sem um contrato com a federação, terá de emigrar para outros campeonatos.

Os últimos rumores davam conta de que o monstruoso defesa, reputado por se fartar de quebrar linhas da vantagem, ultrapassar adversários e galgar metros com a bola na mão, poderia alinhar pela seleção do Tonga - país de nascimento dos seus pais - em rugby league, variante em que cada equipa tem 13 jogadores (não 15) e, por exemplo, a posse de bola muda a cada seis placagens sofridas.

Seja onde for que acabe, Folau acredita "que a verdade está na Bíblia e, às vezes, a verdade pode ser difícil de ouvir".