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Olha, os franceses parecem marchar outra vez

A França, que muito tem trocado de seleccionadores, jogadores e tentativas de atinar o rumo, ganhou (24-17) à Inglaterra na primeira jornada do torneio das Seis Nações. Os ingleses só pontuaram quase à hora de jogo e os franceses, entre a turbulência quase crónica que os atormenta há mais de uma década, mostraram que algo poderá estar a mudar

Diogo Pombo

Dave Winter/Getty

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Não é de agora, mas da última década, que o râguebi francês é titubeante que nem uma bola oval que é chutada para o ar, bate na relva e sabe-se lá para onde vai ressaltar. Só na última década foram cinco os treinadores a pegarem na seleção, cada um mais opaco que o anterior, todos a desiludirem na tentativa de imitar, mesmo que só um pouco, o esplendor de jogo à mão que a França mostrara ao mundo nos anos 80 e 90.

Marc Lièvremont, Phillippe Saint-André, Guy Novès e Jack Brunel falharam, à vez, desde 2011, uns escolhendo jogadores fora de posições, outros sucumbindo à balda interna do râguebi francês, onde os donos endinheirados de muitos clubes fizeram do Top14, aos poucos, o campeonato com os salários chorudos do râguebi, viciado em atrair as estrelas do hemisfério sul.

Seduzindo nomes pomposos da Nova Zelândia, África do Sul, Austrália ou das ilhas do Pacífico, vários clubes da liga francesa guardaram lugares cativos para esses jogadores, tapando caminhos aos jovens do país, desinvestindo na formação e criando um problema para o futuro próximo. Antes um poço sem fundo de talento, a França começou a ter de usar uma lupa.

A toda uma patologia de pensar, primeiro, em contratar jogadores como Daniel Carter, Matt Giteau, Ma’a Nonu ou Bryan Habana, canalizando milhões para ter o retorno em atenção, bilhetes ou direitos televisivos, juntaram-se as pessoas que mandam na federação e que, por exemplo, tiveram a ideia de Fabien Galthié, que se tornou selecionador após o Mundial, acompanhar a equipa na prova enquanto Jacques Brunel ainda era o treinador principal.

E quando, há dias, se viram 19 jogadores sem internacionalizações, 24 anos de média de idade e 51 jogos no currículo tipo mais experiente na convocatória de Galthié para defrontar a Inglaterra, na primeira jornada do torneio das Seis Nações, tudo pareceu ser a repetição cíclica da França a ser França - os três selecionadores anteriores também revolucionaram na primeira lista feita no cargo.

Mas, no domingo, os franceses marcaram 24 pontos antes que os ingleses fossem, sequer, capazes de tirar o zero do seu lado do resultado. Bloquearam todas as tentativas de furar a linha, nos primeiros canais juntos aos rucks, ou no jogo exterior nos três quartos, até quase à hora de jogo. Basearam-se na relação entre Bernard Le Roux e Romain Ntamack, o formação e o abertura de 23 e 20 anos, geniais a gerir as posses de bola.

Foi, apenas, a terceira vitória dos últimos 10 anos que a França conseguiu no Stade de France, em Paris, contra a Inglaterra. É simbólico não por sempre se ser possível despistar simbolismo em todas as coisas, mas por acontecer quase um ano após os gauleses, em Londres, serem derrotados por 36 pontos, a segunda maior margem da história. “Queríamos ganhar de volta o coração dos adeptos. Por agora, o que conta é os pontos fortes do jogo contra a Inglaterra”, disse, finda esta vitória, Raphaël Ibanez, o adjunto de Galthié.

Ele estará ciente de o nome do meio desta França, nos últimos anos, ser 'instabilidade'. Ganhar sem espinhas à finalista do Mundial e melhor seleção europeia foi bom e vistoso, embora nada garanta que a seleção tenha revertido, de vez, a sina recente: desde 2010 que não conquista o Seis Nações e, em 2013, até acabou com a colher de pau nas mãos, figurativo troféu que se dá à equipa que acaba na última posição.

Há um ano, na partida inaugural do torneio, a França ganhava a Gales ao intervalo, por 16-0, tendo tremido e acabado por perder. No domingo, mesmo levando com dois ensaios em oito minutos de Johnny May - um par de raides solitários que desmontaram uma defesa -, os franceses não se descontrolaram. Não aparentaram nervosismo. Não cederam a decisões precipitadas.

Uma vitória apenas, por mais impressionante que seja, também desaconselha precipitação. A França ainda está demasiado próxima do que tem sido e longínqua do que pode vir a ser, mas, ao menos, já se notam boas decisões: ter contratado Shaun Edwards para treinador da defesa, tirando-o de Gales, é uma delas, que surtiu bons efeitos logo e apenas com duas semanas de treino.

Podem ter sino sinais isolados, astros que se alinharam por acaso, a um domingo. Parece ser mais do que isso. Os franceses parecem estar prontos a tentar marchar como antigamente.