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Há um argentino a querer mandar onde nunca houve um não britânico a mandar

Agustín Pichot era o capitão da Argentina que, em 2007, acabou o Mundial em terceiro lugar. Desde 2015 que é vice-presidente da World Rugby e, à última hora, anunciou a candidatura à presidência da entidade que jamais teve alguém fora das Seis Nações do râguebi a ser quem mais ordena. Antigo médio de formação, o argentino pretende tornar a modalidade mais inclusiva: "É tempo de mudar e focar a atenção, o amor e a dedicação em todas as federação de maneira igual". As eleições são a 26 de abril e o resultado será conhecido a 12 de maio

Diogo Pombo

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As barbas do râguebi crescem-lhe desde lá muito atrás, estavam os humanos no século XIX, ainda às turras sobre as regras do futebol porque cada um jogava com as suas, quando Webb Ellis um dia se lembrou de agarrar a bola e, porque não, correr com ela. Dizem que esta forma oval de ver as coisas apareceu em 1886, digamos que é muito anciã, mas, até 1994, as pessoas que a praticavam tinha que se dizer amadoras, pois só aí se fundou a International Rugby Board, que profissionalizou o râguebi.

Para presidente escolheu-se Vernon Pugh, depois veio Syd Miller, sucedeu-lhe Bernard Lapasset e o último a entrar foi Bill Beaumont, que é quem hoje lidera a World Rugby (em 1998, a entidade mudou de nome). Entre um galês, um norte-irlandês que jogou pela Irlanda, um francês e um inglês existe um padrão bem mais arredondado do que a modalidade na qual mandaram - todos nasceram numa das Seis Nações europeias que competem no torneio mais antigo que há.

No mínimo, dir-se-ia que o poder no râguebi tem uma vida um pouco centralizada. No máximo, que essa centralização é uma crónica forma de vida na organização da qual fazem parte 102 países e, por exemplo, a Itália - que também integra o Seis Nações - tem quase tantos votos (três) quanto a Ásia (quatro) no conselho da World Rugby, que elege um presidente a cada quatro anos.

Há muito que parecia inevitável ver Bill Beaumont ganhar outro mandato a 12 de maio, dia em que serão conhecidos os resultados da votação de 26 de abril. O inglês escolheu o francês Bernard Laporte, atual líder da federação de râguebi do seu país, para vice-presidente. Nem sequer tinham oposição. Mas, no domingo, o homem que ainda ocupa a vice-liderança da entidade veio dar um safanão na previsibilidade.

Agustín Pichot anunciou que é candidato à presidência da World Rugby e só o facto de o ser, e o porquê de o ser, já agitam o que é o râguebi.

Ele é argentino, tem 45 anos, jogou como um brilhante médio de formação em três Mundiais, incluindo o de 2007, quando foi capitão da seleção que acabou no terceiro lugar e puxou, definitivamente, a Argentina para a convivência com os países do Tier 1 do râguebi.

No domingo, anunciou a candidatura distribuindo pensamentos e frases que resumem o que um homem como Pichot pode representar. "O sistema não confia na World Rugby, essa é a realidade", disse. "É momento de trabalhar num calendário global que demonstre a nossa intenção estratégica de atrair um investimento global", revelou. "É tempo de mudar e focar a atenção, o amor e a dedicação em todas as federação de maneira igual", garantiu. "Temos que nos converter numa organização de assegure o crescimento do jogo, principalmente para os jogadores amadores, que são a maior parte da nossa população ativa", explicou.

Matt Roberts - World Rugby

São frases que constam no manifesto de Agustín Pichot, muito virado para a inclusão no râguebi, a descentralização do poder e a aposta no desenvolvimento das nações mais pobres, como é o caso de Portugal. "Devemos apoiar as nossa nações emergentes, que estão a lutar para sobreviver", defende, mas não é de agora que o argentino olha para os mais desfavorecidos da vida oval e critica regras que beneficiam os mais fortes.

Foi o principal defensor da Nations League, que seria jogada, anualmente, com duas divisões com 12 países cada, para substituir os jogos internacionais de julho e novembro, meses em que é costume agendar encontros entre seleções do hemisfério norte e sul. A competição teria promoções e despromoções, a ideia era arrancar em 2020, mas foi colocada na gaveta, lá está, pela influência das Seis Nações.

O ano passado, Pichot criticou os critérios do ranking mundial quando Gales subiu ao primeiro lugar. A dias de arrancar o último Mundial, fê-lo também contra as regras de elegibilidade que permitem às seleções convocarem jogadores nascidos noutros países, publicando um tweet com a percentagem de jogadores naturalizados em várias nações que iam jogar o Campeonato do Mundo.

Em suma, bastava terem pais ou avós com essa nacionalidade, ou terem vivido durante três anos consecutivos na nação em causa - e Pichot foi o principal impulsionador em aumentar esse período para cinco anos.

O argentino já tinha a reputação de ser um vice-presidente crítico com os regulamentos e os hábitos instituídos da organização que lhe paga o salário. Admitiu que a pandemia de covid-19 o obrigou a acelerar a campanha e precipitar um pouco as coisas, porque as eleições são já a 26 de abril, embora os resultados apenas sejam divulgados a 12 de maio.

Há 50 votos em jogo e só as Seis Nações reúnem 18, número que sobe para 20 com a Roménia e a Geórgia, os outros países europeus com voto na matéria, mas cuja fome ainda pertence ao Tier 2, a segunda categoria de seleções à qual Agustín Pichot mais falará ao coração.

As outras serão as matulonas do hemisfério sul e os 18 votos da Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Argentina, que há muito reclamam por mais dispersão de poder. "Todos os países deviam ter igualmente de votos num processo democrático, é assim que se cria um jogo igualitário", disse, em entrevista à "Reuters".

Haver alguém a mandar na World Rugby como nunca houve poderá ser a forma de o conseguirem e de Pichot ter os votos para dar luta a Bill Beaumont e companhia. Esticando a corda, a eleição do argentino beneficiaria, em teoria, nações como Portugal, que compete no Rugby Europe Championship (segunda divisão do torneio das Seis Nações) com a Geórgia, Rússia, Roménia, Bélgica e Espanha.

Puxando-a ainda mais, Agustín Pichot será quase o candidato-esperança dos coitadinhos do râguebi, cujas probabilidades terão melhorado um pouco assim que Sir Clive Woodward, treinador que ganhou o Campeonato do Mundo de 2003 com a Inglaterra, pulou a cerca e declarou o apoio ao argentino que concorre contra o seu conterrâneo - "Boa sorte, Gus. Penso que o mundo do râguebi tem de usar este extraordinário momento para mudar, tornar-se economicamente viável e, verdadeiramente, um jogo global".