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Ainda não foi desta que o râguebi mudou

Agustín Pichot era a solução aparecida à última hora, o maverick das ideias um quê radicais e o candidato das nações com menos voz no centralizado poder de decisão do râguebi. Mas o argentino perdeu as eleições para a presidência da World Rugby para Bill Beaumont, o inglês que foi reeleito e prometeu o que o adversário andou a pregar antes da votação: "Vou trabalhar para implementar uma mudança progressiva, significativa e sustentável"

Diogo Pombo

CHARLY TRIBALLEAU/Getty

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O futebol é coisa de cavalheiros jogada por selvagens e o râguebi é invenção de selvajaria praticada por cavalheiros. Sabe-se lá de onde veio esta dualidade descritiva que é citada, há muito, quando da vida oval se quer comparar à redonda. É uma tradição, como tradicional é a forma de o râguebi se governar, enquanto modalidade, a começar pelo maior peso que as nações, lá está, ditas tradicionais têm na distribuição de votos e no poder de decisão.

Foi essa repartição de pesos que, na sexta-feira, reelegeu Bill Beaumont para a presidência da World Rugby, numa votação onde há 51 votos vindos de 33 votantes, mas no qual 18 vêm de seis delegados, que por sinal são as seis nações (Inglaterra, Irlanda, Gales, Escócia, França e Itália) que competem no torneio mais antigo do râguebi.

O candidato inglês, de 68 anos, terá reunido o apoio dessa meia dúzia de países, avançou o "The Guardian". Apenas será confirmado quem votou em quem a 12 de maio, quando a World Rugby revelar os números oficiais da votação da qual apenas desvendou o resultado final: 28-23.

O perdedor, por pouco, foi Agustín Pichot, argentino que foi o vice-presidente de Beaumont e da World Rugby nos últimos quatro anos e anunciou a sua candidatura relâmpago a menos de um mês da votação. Antigo médio de formação, condutor da Argentina que acabou em terceiro lugar no Mundial de 2007, defendeu, sobretudo, a criação de uma nova prova anual, para acabar com os dois períodos de jogos entre seleções que partem o calendário competitivo e dar mais voz aos países fora do Tier 1 (a primeira divisão do râguebi internacional).

Aos 45 anos, Pichot vendeu-se e era visto como a hipótese de a World Rugby se reinventar, rejuvenescendo em simultâneo o poder de decisão. O argentino contava com o apoio dos gigantes do hemisfério sul (Nova Zelândia, África do Sul, Austrália e Argentina), os maiores opositores dos hábitos enraizados que valorizam as vontades das Seis Nações, mas será, de novo, Bill Beaumont a liderar o râguebi para a recuperação no pós-pandemia.

O inglês sentiu-se "honrado", agradeceu a confiança aos votantes, cumprimentou o "amigo Gus" a quem ganhou e garantiu que vai "ouvir os jogadores, os adeptos, as competições, as associações e as regiões" para tomar decisões "que sejam do melhor interesse de todos".

Beaumont assegurou que vai trabalhar "para implementar uma mudança progressiva, significativa e sustentável". Este sábado, o "Sunday Times" já noticiou que a implementação de uma nova prova, disputada pelos 12 melhores países do ranking mundial, vai ser discutida em breve pelos responsáveis da World Rugby, após ter sido descartada há meses - quando Agustín Pichot, então vice-presidente da entidade, era o maior impulsionador da novidade.

  • Há um argentino a querer mandar onde nunca houve um não britânico a mandar

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    Agustín Pichot era o capitão da Argentina que, em 2007, acabou o Mundial em terceiro lugar. Desde 2015 que é vice-presidente da World Rugby e, à última hora, anunciou a candidatura à presidência da entidade que jamais teve alguém fora das Seis Nações do râguebi a ser quem mais ordena. Antigo médio de formação, o argentino pretende tornar a modalidade mais inclusiva: "É tempo de mudar e focar a atenção, o amor e a dedicação em todas as federação de maneira igual". As eleições são a 26 de abril e o resultado será conhecido a 12 de maio