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"Queres ser adepto? Então aguenta os erros, os dias maus e os dias bons com os jogadores. Simples"

Rieko Ioane é um all black que, no sábado, com todo o tempo e espaço para garantir um toque de meta sem espinhas, saltou com apenas uma mão a agarrar a bola e pareceu largá-la quando a tentou tocar na relva. Marcou um ensaio que foi anulado. E criticado foi, também, porque a Nova Zelândia acabaria por empatar (16-16), em Wellington, contra a Austrália, mas foi defendido por Julian Savea, um ex-companheiro que resumiu o que acha ser o cerne de um adepto e deu uma lição

Diogo Pombo

Kai Schwoerer/Getty

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É mais uma rompante investida dos que sempre vestem de negro, cada um atacou o canal de espaço à frente, cada qual teve mãos de pluma para soltar a bola no momento certo, com a rapidez adequada, cada jogador a contribuir para a jogada em cadeia e Rieko Ioane está a apanhar um passe à entrada dos 22 metros, cada um deles um pedaço de autoestrada ele correr a abrir, mas tranquilo, até nem um sprint teria que dar ao corpo para alcançar a área de ensaio importunado.

Quiçá essa noção, esse relaxamento súbito, lhe tenha injetado um quê de desleixo nas veias onde nem é sangue que costuma correr, é sim uma assombrosa superioridade de técnica, força e perícia oval que bombeia os tipos que jogam râguebi pela Nova Zelândia, porque não é normal que seja o que se viu. À beira da área de ensaio, Rieko Ioane saltou, tinha a bola agarrada com uma mão, a meio do voo quis pressionar o devido toque de meta contra a relva, mas, algures a meio, a bola escorregou-lhe e, ao tocar na pastagem, pareceu fugir-lhe ao controlo.

No estádio, em Wellington, cheio de público porque a Nova Zelândia capaz foi, pela segunda vez, de decretar a erradicação a pandemia do coronavírus, ouviu-se uma estirpe diferente de aplauso: eram palmas e festejos misturados com "ós" e "ús", sons de preocupação. E o árbitro pôs o videoárbitro (Television Match Official) ao barulho.

Repetir e rebobinar em câmara lenta, o árbitro considerou-o um toque para a frente, anulou o ensaio e os cinco pontos que jeito teriam dado à Nova Zelândia no primeiro jogo da Bledisloe Cup, troféu anualmente disputada com a Austrália que, neste ano excecional, será decidido à melhor de quatro encontros (e não de três e a meio do Quatro Nações/Rugby Championship, como é costume).

Os all blacks empataram com os wallabies a 16 pontos e até se safaram de boa - já nos descontos, Reece Hodge chutou uma penalidade a 54 metros dos postes que bateu num dos ferros.

A gargantuesca pressão e exigência para uma seleção ganhar sempre tem das suas coisas e, num país onde até políticos opinam e debatem o estado geral do râguebi neozelandês, muitas críticas caíram em Rieko Ioane, culpando-o pelo resultado e escalpelizando-lhe o erro que, pelas regras, até suscita dúvidas se foi, ou não, mesmo um erro.

Porque as regras da World Rugby estipulam que, para fazer um toque de meta, basta um jogador "tocar a bola contra o chão" ou "pressioná-la contra o chão com alguma parte do corpo, da cintura para cima". Nada escreve sobre ter a bola sob controlo.

Depois, emergido da onda de crítica contra Ioane, apareceu Julian Savea, ponta que representou a Nova Zelândia entre 2012 e 2017, conquistou o Mundial de 2015, acumulou 54 internacionalizações e entretanto regressou ao país (Hurricanes), após dois anos a jogar em França, pelo Toulon, sendo portanto inelegível pois os all blacks apenas convocam jogadores que competem no país.

Savea saiu em defesa de Ioane, escrevendo no Twitter o que deveria ser a máxima no desporto e não só no râguebi, ou outra modalidade à escolha. "O que mais me frustra no râguebi na Nova Zelândia é a forma como os media alimentam os comentários doentes e idiotas de 'adeptos' com o seu clickbait. Elogiam-te quando jogas bem e os beneficias, mas quando um erro é cometido nunca ouvimos demais... E as pessoas perguntam-se porque falamos tanto em saúde mental", argumentou.

O antigo internacional acrescentou, ainda, uma mensagem para os adeptos: "Queres ser um adepto? Então aguenta os erros, os dias maus e os dias bons com os jogadores. Simples". No final do dia, seja qual for o jogador e a modalidade, há uma pessoa que chegará a casa e terá de lidar com tudo o que se passa à volta de uma prestação, ação ou segundo de ação que teve em campo.