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Despertaram a fúria e foram enterrados no cemitério: a Nova Zelândia voltou a vingar-se da Austrália

Em Eden Park, Auckland, onde a Nova Zelândia tantos ensaios e pontos já marcou depois de perder o jogo anterior com os maiores rivais, os all blacks voltaram a fazer do relvado um cemitério para a Austrália. Venceram por 27-7 e garantiram o prolongamento de uma estatística: os australianos não ganham neste estádio desde 1986. E viram nascer aí alguma euforia por um novo ponta neozelandês

Diogo Pombo

Caleb Clark, de 21 anos, 107 quilos e 1,84m, parece ser a nova sensação de ponta dos all blacks

Anthony Au-Yeung/Getty

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Se escavássemos um buraco em Portugal e arrepiássemos caminho em linha reta, sem parar, esqueçam as camadas e as temperaturas do núcleo da Terra, acabaríamos por emergir nos antípodas, algures perto da Austrália e Nova Zelândia, as ilhas lá do outro lado do mundo.

Estando tão isolados de tudo o resto, mas tão perto uma da outras, as duas nações, não sei se por isto, cresceram ovalmente para serem das melhores do planeta no râguebi. E, porque a geografia assim o dita, são dos países que mais se enfrentam um ao outro.

É todos os anos, várias vezes, estando o planeta azul pandémico ou não, e na passada semana houve o primeiro confronto de 2020 a contar para a Bledisloe Cup, taça privada que disputam apenas entre si, onde houve coisas raras: empataram a 16 pontos em Wellington e a Nova Zelândia, que equipa sempre toda de preto, não ganhou um jogo.

Os australianos regozijaram, felizes por um resultado que, no final, até esteve mais perto de cair para o seu lado, talvez um sinal de que, ao primeiro teste com o novo selecionador (Dave Rennie), poderia haver obra e jeito para fazer renascer a seleção dos cangurus de uma falência lenta e progressiva que parece estar a afetar o râguebi no país. Não era uma vitória, mas uma não-derrota contra os all blacks é motivo para sorrir entre os postes.

Mas, em matéria da Bledisloe Cup - que se costuma disputar no Rugby Championship, o torneio das quatro nações (também com a África do Sul e a Argentina) cuja realização, este ano, ainda é incerta -, não perder contra a Nova Zelândia é um bom sinal para os australianos e, ao mesmo tempo, um mau augúrio sempre que o jogo seguinte estava marcado para o Eden Park, em Auckland.

Porque é factual: em 2012, houve um 39-10; em 2014, um 51-20; no ano seguinte, registou-se um 41-13; e em 2019 viu-se um atropelamento e fuga, 36-0. Todos estes resultados no mesmo estádio foram precedidos, na semana anterior, por uma derrota da Nova Zelândia frente à Austrália, uma espécie de despertar inconveniente da fúria latente que faz os all blacks engatarem o râguebi vertiginoso, dinâmico, a ganhar metros em placagens e a trocar a bola com jogo de mãos veloz.

Na madrugada deste domingo, voltaram a fazê-lo.

A língua inglesa tem uma expressão, bounce back, que se aplica de cada vez que Eden Park acolhe um jogo pós-desilusão para os all blacks. Este, com mais de 46 mil pessoas no estádio, teve-os, de novo, implacáveis a atacarem os canais de espaço junto aos rucks, com Richie Mo'unga a ser o abertura que filtrava passes tensos e ao largo (e impedia um ensaio dentro da área), para embalarem junto às linhas depois de concentrarem as atenções defensivas da Austrália no evitar de um descalabro nas disputas de bola na relva.

A Nova Zelândia marcou quatro ensaios, a Austrália um; os erros técnicos no jogo à mão sucederam-se de um lado, do outro houve várias corridas que ganharam dezenas de metros e vários de Caleb Clark, que com este encontro se colocou a jeito da euforia neozelandesa por pontas velocistas apesar de herculeamente corpulentos (107 quilos para 1,84 metros de altura), apesar de nem ter feito pontos, diretamente.

A tendência, criada e mantida pelo fenómeno de Jonah Lomu na década de 90, alastra-se a este ponta de 21 anos como já se focara em tipos como Joe Rokocoko, Sitiveni Sivivatu ou Julian Savea, todos donos de carreiras com dezenas de ensaios pela seleção mais dominadora da história do râguebi. Clark já se estreara no teste anterior, mas este foi o primeiro jogo a titular com o 11 nas costas da camisola.

Com várias corridas demolidoras, a bater em corpos sem tombar, com os quilos alheios a caírem e a bola presa no gancho de uma mão, o jovem ponta ajudou a que a Nova Zelândia estenda, por mais um ano, uma estatística das que pululam na cabeça dos adversários: não perde em Eden Park desde 1994.

Na relação privada com os australianos, a última derrota aconteceu em 1986. Há estádios que são cemitérios e neste parece ir havendo sempre espaço para mais uma sepultura.