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Estiveram um ano sem jogar, treinaram em salas de hotel, não veem a família há meses, a utopia concretizou-se: ganharam à Nova Zelândia

Os argentinos não jogavam desde o último Mundial, tiveram apenas três semanas de treino juntos e até tiveram sessões em salas de conferência de hotel. Tinha tudo para correr mal, mas o encontro contra a Nova Zelândia correu-lhes melhor que nunca. Pela primeira vez em 30 tentativas, a Argentina ganhou (15-25) aos bichos papões do râguebi e, este sábado, dominou-os na estreia no torneio das Três Nações. No final, choraram com a proeza por se lembrarem de onde vêm: do país onde vigora a mais longa quarentena do mundo devido à pandemia

Diogo Pombo

Cameron Spencer

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Nem quatro minutos havia e avista-se uma escaramuça, parecia um ruck banal com uma picardia inofensiva, mas Shannon Frizell dá uma chapada na cara de um argentino: são dois brutamontes a colidirem levemente e um outro, vendo o desplante, reage brutalmente. Pablo Matera fica bravo, atira-se ao neozelandês e agarra-o para o empurrar, sente-se a revolta nos gestos até a noção os frenar e o árbitro acabar com a cena.

O senhor da ordem no jogo chama-o, diz-lhe “Pablo, és o capitão, precisamos de ver liderança da tua parte” e ouvimos porque há o microfone da transparência e assim é suposto. O árbitro leciona, é didático - “o que não precisamos é que empurres jogadores depois do apito” - e Matera responde-lhe com uma lição sua, ao tocar com um dedo no musculado peitoral, onde o coração está protegido e o escudo do país estampado na camisola.

“Não posso ver um tipo a ir à cara de um dos meus jogadores, isso não é respeito”, diz, fitando o árbitro nos olhos e com o rosto fechado. “Eu estou a jogar pelo meu país, isso não é respeito” e volta a tocar no peito, o dedo indicador a carregar todo o orgulho do matulão de bigode, o cabelo rapado nas têmporas e a camisola que mal lhe aguenta a armadura com que trata a Nova Zelândia com outro tipo de respeito.

Pablo Matera foi a força andante que personificou a alma que cada argentino descarregou contra os adversários, quase nunca uma carga neozelandesa passou por eles, cada tentativa de os furar com a bola era recebida com uma placagem que não cedia um metro.

Cada ruck um tormento para os all blacks, os tipos listados a branco e azul celeste eram rápidos a reclamar as disputas de bola no chão e deles foram os turnovers, as faltas e o ímpeto de todo um jogo.

Ainda esse jogo não acabara e Mario Ledesma chorava, o selecionador lá em cima na tribuna a deixar cair lágrimas de alegria sobre os bravos lá de baixo. A Argentina ganhou 15-25 em Sydney, casa emprestada dos homens de negro, o pranto alastrou-se para muitos jogadores, para quase cada um deles, porque cada um sabia bem o quão sofreram para dominarem o primeiro jogo do torneio das Três Nações contra a Nova Zelândia.

Cameron Spencer/Getty

Tiveram que ficar em casa, entre paredes, enclausurados pelo bicho enquanto as seleções desses países - salvo os sul-africanos, que se recusaram a participar no Três Nações - se aprontavam em conjunto para competirem.

Os ajuntamentos dos argentinos foram outros, porque estavam no país onde vigora a quarentena mais longa no mundo e, desde março, se registaram mais de um milhão de infetados e 35 mil mortes devido à covid-19.

Nicolás Sánchez, o médio de abertura que marcou todos os 25 pontos da epopeia, correu quilómetros entre os corredores de casa; o talonador Santiago Socino pediu ao pai para subir ao telhado e agarrar os seus lançamentos, para praticar o alinhamento; e o formação Tomás Cubelli treinou o rodopio dos passes contra as paredes da garagem, ele filho de pai que, em 1985, raspara o toque, ao de leve, na proeza do filho, quando a Argentina empatou (15-15) com a Nova Zelândia em Buenos Aires.

Essa foi a única de 29 tentativas em que não perderam contra quem vive de aplicar derrotas a quem seja, espera-se que os all blacks ganhem sempre, não há maior redondeza na modalidade oval e, para os argentinos, era o obstáculo utópico contra o qual lutavam, na verdade o único que lhes sobrava, depois de já terem quebrado as barreiras psicológicas contra os restantes matulões (ingleses, franceses, australianos, sul-africanos, etc.) do râguebi.

Mas, para desfazerem esta utopia, as probabilidades estavam contra eles. Mais do que nunca.

Antes de viajarem para o outro lado do mundo fizeram um estágio no Uruguai, onde estiveram duas semanas em quarentena, mesmo período que o protocolo os obrigou a cumprir à chegada à Austrália. Aprisionados em hotéis, comiam as refeições sempre isolados nos quartos e treinavam em salas de conferência. Vários jogadores não vêem a família desde agosto e a seleção estará a competir no Três Nações até dezembro.

Enquanto a Nova Zelândia e a Austrália tiveram quatro jogos oficiais em praticamente um mês, cheios de tipos a competirem já há meses nos seus clubes, os argentinos tiveram três semanas para se livrarem da ferrugem acumulada. “É uma loucura. Isto valida o trabalho que fizemos separados, durante meses. Os rapazes levaram à letra o que tínhamos preparado, falámos muito sobre sermos disciplinados, de como queríamos jogar, onde e a que ritmo”, resumiu, no final, o selecionador Mario Ledesma.

A prática mostrou uma defesa de betão, um poderio nos rucks e uma rapidez a reciclar a bola que encravaram a Nova Zelândia um pouco por todo o lado. Forçaram-nos a erros incomuns e o 15-25 até enganoso é porque os all blacks só forçaram um último ensaio já para lá dos 80 minutos, na derradeira jogada.

Depois, os argentinos choraram da alma.

O arrière Juan Imoff foi o mais copioso, inundou o campo de lágrimas. "Há rapazes que são melhores que eles e só faltava que o demonstrassem. Isso notou-se quando um miúdo de 20 anos e foi melhor que um all black", soltou com a voz embargada, falando do centro Santiago Chocobares, o único estreante, e dele próprio, que há cinco anos não jogava pela seleção - "não há nada mais lindo do que representar o país". E a sua emoção pessoal juntou-se à de um povo que o capitão, o bom gigante Pablo Materna, não olvidou de ecoar.

Disse ele, no final, que “tudo é duro na Argentina” e mostraram às suas gentes que “há que lutar” e jogaram por eles, “para encher o peito de orgulho às pessoas que estão a passar por tempos muito difíceis”. A repetição aqui não é redundante, a pandemia abateu já mais de um milhão de infetados e 35 mil mortes sobre o país e o capitão quis frisar que “jogaram por todos”, também “pelos montes de crianças que há oito meses não podem jogar râguebi com os amigos”.

Que todos “saibam que entrámos em campo para lhes mostrar que é possível”. Que “quem jogou antes com esta camisola e lutou tanto [como eles] para conseguir isto saiba que também o conseguiram”. E que sim, as utopias também caem e os argentinos acabaram de fazer desabar a maior de todas.