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O fim do carisma e humor com apito: após o 100.º jogo internacional, Nigel Owens anuncia a retirada

Esteve em finais de Mundiais, da Heineken Cup (o equivalente à Liga dos Campeões) e em jogos dos principais campeonatos europeus, diga uma prova e Nigel Owens esteve lá, a apitar e a transbordar para o râguebi todo o seu carisma e frontalidade com os jogadores. Aos 49, o provável árbitro mais carismático e influente do râguebi revelou, esta sexta-feira, que não apitará mais jogos internacionais, sendo que o primeiro a ter essa honra foi um Portugal-Geórgia, em 2003. Quatro anos mais tarde, assumiria publicamente a sua homossexualidade

Diogo Pombo

ADRIAN DENNIS/Getty

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De calções e t-shirt a "apreciar o calor", se bem que objetivamente era fevereiro, mas ele, subjetivo na geografia, recorda o clima quente porque viera do País de Gales para apitar um jogo de râguebi em Lisboa. Tinha muita pele à mostra quando se sentou algures, com os dois assistentes, a desfrutar de "um copo de cerveja". Pela descrição e os floreados que lhe dedica, Nigel Owens apreciou bastante o "maravilhoso" Portugal-Geórgia a 16 de fevereiro de 2003.

O jogo acabou 34-30, o galês também lhe recorda a "alta pontuação" no texto que escreveu, nem há mês, para se alongar sobre a meta a que chegou depois de começar a embalar-se nesse tal dia, no Estádio de Honra da Cidade Universitária de Lisboa: aos 100 encontros internacionais (test matches) de seleções, à centena de aparições que nenhum árbitro alguma vez alcançara.

De lá para cá, o que mudou na vida do galês de sorriso fácil e bochechas salientes, agora nos seus 49 anos e sempre pronto a dialogar sem filtros com os jogadores em campo? "Bom, estou mais feliz na minha pele do que estava nessa altura, mas gosto de pensar que sou exatamente a mesma pessoa no quer toca à moral e ao valores. Independentemente do que alcances, nunca esqueças de onde vens", escreveu, no "Wales Online", a dias de apitar o França-Itália no torneio das Seis Nações.

Nigel Owens é de Pontyberem, lugarejo galês onde ainda reside, tem uma quinta e estão as vacas com as quais confessou estar mais preocupado antes desse centésimo jogo, era semana de serem submetidas ao teste de tuberculose bovina e isso, por admissão, estava a deixá-lo nervoso. Era a vivência nessa aldeia onde todos os habitantes receberam uma subscrição televisiva para poderem assistir ao seu 100.º jogo que o inquietava.

Imensuravelmente menos, por certo, do que "quando estava nos [seus] 20" a batalhar contra ele próprio, não por inquietude mas devido a problemas de depressão, bulimia e dúvidas do tamanho de Gargântua que lhe aterrorizaram a saúde mental devido à sua homossexualidade. "Afetou a minha vida e colocou-me num lugar obscuro, mas tive uma segunda oportunidade e permiti-me a ser quem eu sou", confessou, este ano, já muito depois de admitir que chegou a tentar suicidar-se.

Não o conseguiu, encontraram-no inconsciente e tombado sobre ele próprio, com uma caçadeira ao lado do corpo vergado no caso de a sobredosagem do medicamento que tomara não resultar, como aconteceu. A overdose de Nigel Owens livrou-o de tentar o que mais fosse. Tinha 26 anos, já perguntara a um médico se o poderia "castrar quimicamente" e as respostas remoeram-no até escrever uma carta aos pais: "A única solução é tirar a minha própria vida".

Anthony Au-Yeung/Getty

Nigel Owens acordou numa cama de hospital para viver e seguir vivendo a vida que o ensinou a aceitar-se e, em 2011, a assumir perante o mundo a sua homossexualidade. Já era um grande árbitro, sempre respeitador e clínico decisor, presença assídua em jogos do Torneio das Seis Nações, da Heineken Cup (espécie de Liga dos Campeões do râguebi), do Top 14 (campeonato francês, no qual tem mais de 150 encontros feitos) e de vários Campeonatos do Mundo.

Para todos os campos levou o humor e a boa disposição, afinal em miúdo tentara a sua sorte a fazer rir os presentes em comédia stand up, mas bares e clubes não são estádios rodeados por dezenas de milhares de adeptos, mais incontáveis outros pela televisão, onde tanto para uns como para outros o râguebi se chegou à frente há muito para os deixar ouvir o que árbitros e jogadores dizem.

E a candidez que sempre houve na fala de Nigel Owens.

Às finais, aos jogos emblemáticos e aos marcos na carreira, o galês foi juntando tiradas que celebrizaram, mas não tanto quanto o fizeram ser acarinhado. "Acho que nunca nos conhecemos, mas eu sou o árbitro. E isto não é futebol", atirou para um jogador sul-africano, acabado de chegar à Europa em 2012, a meio de um Munster-Treviso para a Heineken Cup.

Muitas mais vezes houve em que avisou convivas de campo para se deixarem de coisas associadas à modalidade onde há fingimentos, simulações e fitas forçadas e quem quisesse ouvir podia escutá-lo, porque os árbitros têm microfone nas grandes competições e o som que capta é ouvido no estádio (e na transmissão televisiva).

"Gosto muito dos teus atacadores", disse, o ano passado, a um jogador francês que atou as chuteiras com as cores do arco-íris. "Como está a tua mulher e os filhos?", perguntou, há uns anos, a um galês. Em 2014, o talonador Dave Ward, dos Harlequins, atirou a bola tão torta para um alinhamento, onde é suposto entrar em linha reta, entre os jogadores, que Nigel apitou e não evitou acrescentar uma piada. “I’m straighter than that one”, comentou Nigel Owens, balançando o sarcasmo entre o significado (direito) e o sinónimo (heterossexual) de straight.

Há compilações no YouTube que o provam e guardarão as tiradas do árbitro galês até quando durar a internet, em número proporcionalmente inverso aos vídeos de erros ou más decisões. Nigel Owens não é só extroversão e à-vontade em campo - também há no galês um homem do apito exemplar a conduzir jogos e a aplicar as regras do râguebi.

Mas "ninguém tem o direito divino de continuar para sempre".

Nigel Owens apenas o sentiu e disse agora, com 49 anos, com os 100 test matches feitos e conquistado o respeito de um desporto que, na sua forma de ver as coisas, nunca se poderia ter comportado de outra maneira. "Para mim, um dos valores e etos mais importantes do râguebi é o respeito, algo que acho que hoje há em falta na sociedade. Acredito que o râguebi eleva o valor do respeito mais do que qualquer outra modalidade no mundo", explicou, ao confirmar a saída de cena internacional e a redução da sua presença a jogos de clubes.

A prova maior da grandeza de Nigel Owens são esta e outras notícias a alongarem-se sobre um árbitro, a tal figura que em si própria é um lugar-comum, pois sempre se diz que quando mais despercebido existir, melhor. Este árbitro galês vive a profissão sendo o contrário e dando às vistas de toda a gente exemplos do que como o trato, a assertividade sem ser espampanante, a retidão e o carisma são possíveis na arbitragem, com leviandade à mistura.

O galês foi-o no râguebi que "não se pode considerar superior em tudo", mas, numa coisa, "de facto, lidera: na inclusão, diversidade e igualdade para todos". E Nigel Owens sente-se "muito orgulhoso por fazer parte do râguebi."

  • Acho que nunca nos conhecemos, mas eu sou Nigel Owens, o árbitro, e isto não é futebol

    Râguebi

    O melhor árbitro do mundo é galês, tem 47 anos, apitou a final do Mundial de há quatro anos, o jogo inaugural deste e foi o primeiro homem a assumir, publicamente, a sua homossexualidade no râguebi. Depois de tudo isto, Nigel Owens ainda é quem mais e melhores tiradas diz durante os encontros, e todos o podemos ouvir porque quem apita tem microfones que espalham o som pelo estádio. Esta é a última de cinco histórias que a Tribuna Expresso publica sobre o Mundial de Râguebi do Japão, que arrancou esta sexta-feira