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Râguebi

Estão sorteados os grupos do próximo Mundial oval. E algo de surpreendente voltou a não acontecer

O sorteio para a fase de grupos do Mundial de 2023, em França, assentou nas mesmas regras das três edições anteriores. Logo, 12 seleções já estavam qualificadas através das posições em que terminaram no Campeonato do Mundo anterior, as oito que faltam apurar virão do que, verdadeiramente, se pode chamar de fase de apuramento e tudo isto fez com que vários países se voltem a encontrar, outra vez

Diogo Pombo

FRANCK FIFE/Getty

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O desporto tem muitas e variadas modalidades que à vista descoberta nada parecem querer, ou ter a ver, com uma outra ou várias outras, olhe-se para o râguebi, todo o choque físico, agressividade regrada no respeito e legislação sobre contacto entre corpos parece não se relacionar em nada com outras modalidades de alcance global. Até que, atenção, o vida oval tem um Mundial que pretende juntar os melhores países do mundo a vivê-la a cada quatro anos e aqui se encontra o uníssono.

Em 2023 haverá mais um Campeonato do Mundo, será apenas o décimo e portanto o primeiro foi em 1987, ainda o râguebi era amador como em 1991 e só deixaria de ser em 1995, nos meandros da edição desse ano da competição que, como as anteriores e as posteriores, continuaria a padecer do facto de não existirem assim tantas nações a basear a sua cultura desportiva nesta modalidade. Por serem tão poucos, esses poucos foram-se desenvolvendo e evoluindo quase par a par e, nos degraus abaixo, as seleções perseguidoras iam fazendo os possíveis.

Por isso há o Tier 1, o Tier 2 e o Tier 3, categorias em que se dividem os países e entre as quais existem fossos ainda demasiados fundos para serem tapados, ou pelo menos enchidos com mais terra. Esta segunda-feira, todas as 11 nações do Tier 1 ficaram a saber o seu grupo no Mundial de 2023 porque já estavam qualificadas desde o Mundial anterior. Na explicação para isto suceder está a condição intrínseca ao râguebi: o elevador oval raramente funcionar.

A Argentina, a África do Sul, a Austrália, a Escócia, a Inglaterra, a Irlanda, a Itália, o Japão, o País de Gales, a Nova Zelândia e a França (anfitriã da prova) foram sorteadas por, coincidentemente, terem acabado nas três primeiras posições na fase de grupos do Campeonato do Mundo anterior. A elas se juntaram as Ilhas Fiji, um país do Tier 2 que garantiu este privilégio. Outra forma de o escrever é que desde a edição de 2011 que as seleções que disputam os quartos-de-final - mais o terceiro classificado de cada grupo - garantem o apuramento para o Mundial seguinte.

Por ser assim, e por mais seleções não conseguirem atingir o nível onde estão as mais tradicionais nações do râguebi, há coisas que são cronicamente repetíveis, como a Nova Zelândia e a Itália calharem no mesmo grupo pela sétima vez; a Escócia e a Irlanda se defrontarem nessa fase pelo segundo Mundial seguido; ou os all blacks terem vencido os 31 jogos que já tiveram na fase de grupos de todos os Mundiais.

Tendo as três primeiras posições de cada um dos quatro grupos (de cinco seleções) o direito de apuramento para a edição seguinte, as seleções mais fortes estão destinadas a terem as probabilidades do seu lado e a ficar com essas vagas. Se assim não fosse e houvesse, por exemplo, lugares de qualificação atribuídos no torneio das Seis Nações, tal implicaria que algumas das seleções mais fortes da Europa ficassem de fora do Mundial - que representa "90% dos lucros da World Rugby", admitiu Bernard Laporte, vice-presidente da entidade, durante o sorteio.

Ficar sem algum dos país mais fortes, com maior tradição e, por conseguinte, maior aglomerado de adeptos e interessados em râguebi, implicaria menor interesse - e procura de bilhetes, e audiências - na prova que é o ganha-pão da World Rugby.

Baptiste Fernandez/Getty

As novidades do sorteio realizado quase a quase 33 meses da competição nunca estariam nos países do Tier 1, para esses é quase um chá das 17h como tantos outros e vamos lá ver quem joga com quem desta vez. O sorteio serve também e muito para as duas seleções vindas das Américas, a seleção de África, a seleção da Oceânia, a seleção da Ásia/Pacífico e as duas da Europa (mais a que sobra de um derradeiro qualifier) saberem onde vão terminar caso logrem sobreviver à caminhada do apuramento.

Para Portugal, onde o râguebi é amador como o era em 2007, quando se tornou na primeira seleção não-profissional a disputar um Mundial, tudo implica mais ou menos o mesmo de há 13 anos. Estando no Rugby Europe Championship, uma espécie de Seis Nações B, a seleção nacional terá de acabar nos dois primeiros lugares para se qualificar diretamente para o Mundial.

O que é uma carga de trabalhos, já que a prova inclui a Geórgia, uma seleção do Tier 2 que há muito é tida como merecedora de outros desafios, e a Rússia, que participou no último Campeonato do Mundo. Ficando atrás de ambas e superando as restantes (Espanha e Alemanha incluídas), como nos gloriosos tempos dessa geração dourada dos Lobos, seguir via terceira posição para um mini-torneio a quatro equipas, a ocorrer em novembro de 2022.

Os pequenos e os esperançosos ainda mais apequenados ficaram a saber o que os poderá aguardar. A surpresa de um sorteio a realizar-se para impactar a vida bem futura do próximo grande evento de râguebi pode resumir-se a isso. Ao que ainda é capaz de surpreender.