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Daniel Carter: o melhor 10 de sempre deixou de jogar râguebi

O melhor 10 de sempre anunciou, este sábado, o fim da carreira. Aos 38 anos, Daniel Carter abandona a carreira de jogador depois de uma última tentativa para continuar, nos Auckland Blues, em que se apercebeu que já não tinha a motivação necessária. Vencedor de dois Mundiais e três prémios de melhor jogador do mundo, o neozelandês ainda o jogador com mais pontos marcados no râguebi internacional

Diogo Pombo

Richard Heathcote - World Rugby

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Antes de ele ser propriamente uma história já a gentes ovais historiavam sobre o lugar peculiar que o germinou. Em Southbridge, vila pacata a coisa de uma hora de Christchurch, cidade grande da ilha sul da Nova Zelândia, o pai montara dois postes no quintal de casa e desce cedo o motivara a dar força às canetas para tentar fazer a bola passar entre eles.

Aos poucos, a vizinhança via-a a entrar pelo estreito alvo, uma e outra vez, havia ali um miúdo a quem o método e a prática pé esquerdo afinavam o pé esquerdo para pontuar uma carreira quando dali saiu para o mundo.

Foram 1.598 os pontos marcados em jogos internacionais por Daniel Carter. Não todos, mas uma grandíssima parte vindos desse pé, uma mira com cinco dedos e sem falhas que começou a pasmar muita gente num particular dia de 2005, dois anos após se estrear com o manto negro dos All Blacks.

Em Wellington, quando os British and Irish Lions tiveram o segundo jogo da digressão contra a Nova Zelândia, um miúdo sem barba ou rugas atropelou-os e rebocou toda uma seleção já de si temível. Nesse dia, Daniel Carter marcou dois ensaios, quatro conversões e cinco penalidades, acabando com 33 dos 48 pontos que esmagaram os britânicos.

Foi a demonstração ambulante de força, criatividade, rapidez de ações e técnica brutal em todas as ações que, logo em 2005, lhe deram o primeiro de três prémios de melhor jogador do mundo (os outros viriam em 2012 e 2015).

Em Carter estava um médio de abertura genial em tudo o que se lhe exigia, com jogo ao pé e à mão para levar equipas às costas, um talento que tanto arruinava adversários com pontapés, como se esgueirava por entre eles ao mínimo espaço. No auge, era injogável para os outros - mas o seu auge cedo foi sendo esculpido.

As lesões, aos poucos, delapidaram-lhe o corpo e pareciam guardar a crueldade para momentos-chave da carreira: em 2009, no arranque da meia época que iria passar no Perpignan, em França, rasgou um tendão de Aquiles; em 2011, durante um treino em pleno Mundial, o mesmo lhe aconteceu a um tendão na virilha e as fotos de Carter tombado na relva, em agonia, marcariam a competição que a Nova Zelândia acabaria por conquistar.

Nos quatro anos seguintes, com os Crusaders, outras mazelas atrasaram-lhe o ressurgimento, fizeram-no passar por momentos depressivos e colocaram um país a duvidar se deveria ser convocado para o Campeonato do Mundo de 2015.

Shaun Botterill/Getty

Foi, e por fim tocou na glória adiada. Com 32 anos, orquestrou todo o jogo ofensivo da Nova Zelândia até à final, onde fechou a carreira internacional da forma mais apropriada - com os pés. O esquerdo converteu quatro penalidades, um ensaio e bateu um drop, mas seria o direito a dar o derradeiro pontapé com os All Blacks, na última conversão da carreira internacional.

Já se sabia que depois desse Mundial iria para o Racing 92, clube de Paris onde ficou durante três épocas e tocou no titulado sucesso que lhe escapara na primeira aventura na Europa. Em 2018 mudou-se para o râguebi menos intenso do Japão, até trocar os Kobelco Steelers pelos Blues, em 2020. Não chegou a jogar pela equipa de Auckland.

Este sábado, 20 de fevereiro, nem a três semanas de chegar celebrar os 39 anos, Daniel Carter disse estar "triste por abandonar o carreira, mas é o timing certo".

Kai Schwoerer/Getty

Anunciou-o pelo Instagram, com palavras parcas, cumprindo a tradição de quem sempre se apresentava algo tenso, desconfortável e por isso conciso nas interações com os media - algo que o deixava nervoso, como admitiria na autobiografia.

Daniel Carter não jogará mais râguebi porque, cada treino e jogo, sempre "quis ser o melhor no campo", estatuto que sentiu já não ser capaz de sintonizar na cabeça, mesmo que "conseguisse espremer mais uns anos do meu corpo", como confessou ao "New Zealand Herald". Já não acrescentará nada aos mais de 1.700 pontos que deixa na Nova Zelândia, todos pelos Crusaders.

Ali a uma hora de onde o clube joga, na vila da pacatez de vivendas e jardins semelhantes, provavelmente continuarão a aparecer turistas à porta da casa dos pais Carter, à caça de uma fotografia dos postes que ainda se erguem sobre o telhando. O melhor médio de abertura da história começou nesse quintal.