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George North: a cabeça do mais novo de sempre a virar centurião no râguebi

Aos 28 anos e 320 dias de vida, o ponta galês chegou à centena de jogos pela seleção, superando a marca de Michael Hooper, capitão da Austrália. Mas, por várias vezes, reincidência de pancadas sofridas na cabeça chegaram a colocar em causa a carreira de George North

Diogo Pombo

Stu Forster/Getty

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Nessas idades o tamanho importa, é quase tudo. Nos sub-13, ele não dispunha da bisarma de figura que hoje tem, mas Keith Withers, o treinador de râguebi da escola Ysgol Uwchradd Bodedern, em Holyhead, região galesa onde o futebol recebe mais pontapés que a bola oval, escolheu-o como capitão no primeiro jogo porque George North "destacava-se no seu conhecimento de râguebi".

Coube então ao rapaz falar à equipa antes de entrarem em campo, o tipo de tarefa e de contexto em que se pretende um discurso para puxar pela motivação. "Ao fim de dois minutos tive que o parar pois ele não se calava", contou o técnico à "BBC", indo ao baú para "basicamente, resumir o que ele é".

Anos e anos depois, ainda a dias de alcançar o marco que justifica este texto, o "Wales Online" foi a casa de George North, onde há nove meses entrou o motivo que retornou o galês ao tema do falatório e de sinais de stop: "Agora que tenho o Jac, nada me devastaria mais do que ele me perguntar: 'Pai, porque não o fizeste? Porque paraste?".

No sábado, George North chegou aos 100 jogos pelo País de Gales na vitória (40-24) contra a Inglaterra, a contar para o torneio das Seis Nações. Conseguiu-o aos 28 anos e 320 dias de vida, o menor tempo que alguém alguma vez demorou a alcançar a marca que, no râguebi, significa ficar com o título de centurião. O mais novo a alcançar o feito tinha sido Michael Hooper, o capitão da seleção australiana.

Chegar tão cedo à centena de jogos internacionais seria sempre, para quem fosse, um marco histórico, uma apoteose na carreira, e mais ainda o é para George North, cuja carreira tantas vezes foi parada pelo tipo de pancadas e lesões que o râguebi, nos últimos anos, tem feito para evitar - concussões cerebrais.

A carreira de George North enquanto profissional arrancou em 2010, com estrondo do bom: na estreia pelos Scarlets, com 18 anos, marcou dois ensaios ao Benetton Treviso, na Taça dos Campeões Europeus; meses depois, fez outro par de ensaios no primeiro jogo por Gales e logo contra a África do Sul, então campeão mundial.

Shaun Botterill/Getty

Um prodígio de ponta, capaz tanto de chocar contra corpos e tombá-los, como de fintá-los com destreza chocante para alguém com mais de 100 quilos, embalava para um percurso prometedor.

Mas, em 2013, sofreu a primeira de várias pancadas na cabeça que lhe causaram concussões cerebrais, quase todas ocorridas em jogos de grande exposição. Em 2015, a sucessão de casos até o fez interromper a carreira durante cinco meses, a conselho dos médicos que o acompanhavam.

No ano seguinte, mais polémica houve quando, já com o Norhampton e num jogo da liga inglesa, foi autorizado a regressar ao campo após levar um embate na cabeça que até levou a World Rugby a pronunciar-se sobre o incidente: "É desapontante que o aparente não respeito pelo protocolo de lesão tenha levado o George a permanecer em campo quando devia ter sido imediata e permanentemente removido". O caso mais recente surgiria em 2020, durante um jogo do Seis Nações.

Começou a formar-se uma perceção de que George North era um íman para as situações que o râguebi tenta, há muito, amenizar, com várias mudanças na regra da placagem e a adoção de castigos mais severos para os jogadores que provoquem pancadas na cabeça nos momentos de contacto.

Aos poucos, com as repetidas paragens e interrupções na carreira, o nível de George North foi oscilando. Nos últimos dois ou três anos, o ponta galês já não teve o impacto e a constância de forma que lhe deram um trampolim no râguebi, como duas presenças em meias-finais de Mundiais (2015 e 2019), um par de Grand Slams (só vitórias, em 2012 e 2019) no Seis Nações e uma digressão feita (à Austrália, em 2013) com os British and Irish Lions.

Apesar das dúvidas, do barulho à volta dele e da onda opinativa que se formou em torno da sua carreira, das lesões e do que cada pessoa achava ser o melhor para o galês, George North foi-se abaixo, mas recuperou. O seu impacto em jogos tem crescido - até ao jogar fora de posição, a centro, pela seleção - e chegou à 100.ª internacionalização em tempo recorde. Com um corpo quase recordista em infelizes pancadas que mais do que a carreira, lhe podem ameaçar a vida.

A vida em que George North agora tem um filho, de quem virá uma pergunta. E quando essa questão vier para saber o porquê de o pai ter parado, o galês responderá: "Será porque fui arrastado [do campo] ou estava demasiado partido para continuar, não porque cedi a pressões externas ou a coisas que estavam fora do meu controlo".