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Sonny Bill Williams: o râguebi perdeu um bom gigante, o boxe ganhou um brutamontes de 1,91 metros e mais de 100 quilos

Anunciou a sua retirada do râguebi para, aos 35 anos, trocar as chuteiras pelas luvas e se dedicar ao boxe, modalidade em que já foi campeão neozelandês, mas na qual não combate há seis anos. Para trás fica uma carreira com dois Mundiais conquistados com os all blacks

Diogo Pombo

Mark Metcalfe/Getty

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Estás em campo, descontraído e a caminhar alegremente numa volta olímpica ao estádio dada a passo lento quando, do nada, uma criança se atravessa no teu caminho. Mal há tempo para reparares no seu pequeno corpo estranho porque um outro, muito maior por ser de um steward adulto, de imediato se projeta contra ele, placando-o.

Tu és o maior dos corpos nas imediações, a camisola de negro integral com que acabaste de ganhar uma final e conquistar o Campeonato do Mundo de râguebi é justa nos músculos e aprontas-te a socorrer o rapaz. Ele abraça-te, falas com ele, o steward afasta-se, perguntas ao jovem onde estão os pais dele e vais devolver a prole a quem de direito.

Chegas lá e, enquanto te despedes do rapaz, tiras a medalha que tens ao pescoço para a pendurares no corpo dele. Acabaste de entregar a um miúdo que não conheces de lado algum a medalha que te confirmava como vencedor do segundo Mundial da tua carreira com a Nova Zelândia.

Seria este o discurso direto a ter sobre a última final disputada com os all blacks se fôssemos Sonny Bill Williams, agora que, aos 35 anos, o neozelandês confirmou a retirada do râguebi.

O gesto que deixou em 2015, no estádio de Twickenham, após participar na vitória contra a África do Sul, não foi o último com a Nova Zelândia, pois ainda participaria no Mundial seguinte, em 2019 e no Japão, onde a seleção foi batida pela Inglaterra nas meias-finais. Aí sim, jogou o derradeiro dos 58 encontros que fez com os all blacks.

Aquele momento em Londres, quatro anos antes, porém, celebrou o bom gigante aos olhos do público e fê-lo cair nas graças de adeptos e apreciadores da oval que, até então, talvez ainda o guardassem como uma personagem algo extravagante da modalidade. O percurso de Sonny Bill explica-o.

Os seus 1,91 metros e 100 e muitos quilos começaram a carreira em 2004, na Rugby League, uma variante diferente de râguebi - cada equipa tem 13 jogadores em campo em vez dos tradicionais 15 do Rugby Union, além de não serem permitidos rucks e haver um número limite de placagens por cada posse de bola, por exemplo.

Quatro anos volvidos, trocaria para o código mais praticado da oval, mas fê-lo em França, com o Toulon, a chamamento do já treinador Tana Umaga (um ex-all black). Só depois jogaria râguebi na Nova Zelândia, estreando-se em 2010 na seleção e vencendo o Mundial em 2011, em casa, mesmo ano em que um terramoto atingiu Christchurch, onde representava os Crusaders, e causou a morte de 185 pessoas.

Sonny Bill Williams também experimentou a variante de sevens e a sua costela de globetrotter foi reforçada ao ser convocado para os Jogos Olímpicos de 2016. Pelo meio, em 2013/14, fez uma época de novo em Rugby League, na Austrália, a que seguiu outra com os Toronto Wolfpack, equipa do Canadá que competia na liga inglesa e que não sobreviveu às consequências da pandemia de covid-19.

Nos últimos meses, já com os vários problemas físicos recorrentes a miná-lo, o neozelandês tinha assinado contrato com os Sydney Rebels da liga australiana de Rugby League, mas, na madrugada desta segunda-feira, confirmou a um canal de televisão australiano que foi "humilde o suficiente para reconhecer que o velho joelho não era capaz de acompanhar as exigências", apesar de "a cabeça querer continuar".

Hannah Peters/Getty

Sonny Bill decidiu parar e o râguebi, seja qual for a variante, perdeu a locomotiva humana com bola, mestre da arte de distribuir um offload - passe feito com uma mão, por trás das costas do placador ou quando se foi placado e já se está em queda - que lhe acrescentava tons de imparável quando estava em dia sim.

Em coisa de nem três semanas, é o segundo duplo vencedor de Mundiais que a Nova Zelândia vê dizer adeus à modalidade preferida da nação. Primeiro Daniel Carter, agora Sonny Bill Williams, com a diferença de que o brutamontes não irá levar a musculatura para longe do desporto.

Porque vai retornar aos combates de luvas postas e dentro de um ringue que, ocasionalmente, também misturava com todas as espécies de râguebi a que se ia dedicando. Estreou-se no boxe em 2009 e conquistou o título de campeão neozelandês de pesos-pesados, em 2012, ao qual juntou, no ano seguinte, o mundial da World Boxing Association (WBA), uma das três entidades com títulos internacionais da modalidade.

Sonny Bill Williams perderia ambos os cinturões fora do ringue, por não os defender lá dentro no tempo útil exigível pelas respetivas associações.

Ao todo, ganhou os sete combates que teve, mas ninguém o vê de luvas postas desde 2016. "Disse ao meu treinador: 'Bro, acho que tenho vontade de estar no ringue durante um par de anos'. Falei com a minha mulher primeiro, que ficou pasmada, mas, como de costume, apoiou-me", contou, casualmente, quem há tempos chegou a estar associado a rumores de ter proposto um combate a Mike Tyson.

A força bruta de Sonny Bill Williams já não será disfarçada pela leve destreza com filtrava passes a uma mão. Passará a ter nas mãos uma luvaria e com elas virão socos, ganchos e tudo mais que o encantou a virar pugilista, aos 35 anos.

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    Râguebi

    Sonny Bill Williams é um dos melhores centros do mundo - e um dos mais conhecidos jogadores de râguebi. Acontece que, em 2008, converteu-se ao Islão para lutar contra um passado de alcoolismo e, agora, recusou-se a vestir equipamentos que tenham patrocínios a bancos. Mas só agora, porque já os usou, muitas vezes, em outras ocasiões: "Sei que não sou perfeito. Todos os dias trabalho arduamente para me tornar melhor pessoa"