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O râguebi da Nova Zelândia precisa de dinheiro e uma empresa americana quer investir. Mas os jogadores temem "apropriação cultural" do haka

Com perdas causadas pela pandemia a rondarem os €40 milhões, a Federação de Râguebi da Nova Zelândia está a negociar com a Silver Lake uma proposta que deixaria a gigante tecnológica dos EUA com 15% dos seus direitos comerciais. Os jogadores têm-se oposto porque temem, entre outras coisas, que a empresa se aproveite do haka, da sua imagem e de "bens geradores de lucro que assentam em práticas culturais que não estão à venda"

Diogo Pombo

Cameron Spencer/Getty

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O facto de ser das equipas, em todo o desporto, com melhor percentagem de vitória, de ter três Mundiais (1987, 2011 e 2015) conquistados ou de ser a reconhecida reverência oval há tantos anos é, com uma constância infalível, apenas tido em conta depois de acontecer uma certa coreografia de gestos bruscos, olhos esbugalhados e caretas metamorfósicas que 20 e tal tipos executam, antes de cada jogo.

Haka é o nome do ritual da cultura maori que serve, não raras vezes, como porta de entrada a curiosos do râguebi ou se calhar nem isso para espreitarem a modalidade, a reboque do fascínio por verem a sincronia de atletas brutamontes a executarem a dança cerimonial que serve para apresentar o desafio ao adversário.

O haka mais comum ("Ka Mate") dos all blacks, principal seleção da Nova Zelândia, foi escrito na primeira metade do século XIX por um chefe maori; o segundo, criado na última década, é usado com mais parcimónia ("Kapa o Pango"). Ambos convergem no provável símbolo mais reconhecível do râguebi neozelandês que a Silver Lake poderia explorar, à sua vontade, caso um badalado negócio venha a ser assinado com a Federação de Râguebi da Nova Zelândia (NZR, na sigla inglesa).

A pandemia afetou a entidade com a infeção temida - queda das receitas significou um corte a rondar os €40 milhões nas reservas da federação - e, em fevereiro, o "New Zealand Herald" noticiou que a empresa norte-americana da área da tecnologia apresentou uma proposta de €278 milhões para adquirir 15% dos direitos comerciais da NZR.

Aceitando-a, a Silver Lake ficaria intitulada a explorar a imagem do râguebi neozelandês, na qual se inclui o haka de qualquer seleção do país. A oposição a essa hipótese foi crescendo até este mês, em que será realizada a reunião anual da federação com os líderes dos quatro níveis competitivos da modalidade e das sete províncias raguebísticas da Nova Zelândia, além da associação de jogadores - de onde têm surgido várias vozes críticas.

Farah Palmer, membro da direção da NZR e presidente da federação maori (uma das entidades no topo do râguebi do país), defendeu ao jornal "Stuff" que "o haka não está à venda", explicando que o negócio "não pode parecer que se está a vender tudo sem a preocupação sobre como a isso será usado".

A ela se tem juntado a Associação Nacional de Jogadores de Râguebi (NZRPA), que escreveu uma carta de oito páginas à federação na qual se recusou a aceitar a venda de uma fatia tão grande dos direitos comerciais e que seja concedido direito de veto à empresa norte-americana nas decisões da federação.

Na carta, assinada por vários atuais jogadores dos all blacks, incluindo o capitão Sam Cane e Sam Whitelock, Aaron Smith ou Dane Coles, lê-se a justificação para esta oposição: "Sabemos que muitos jogadores estão, e acreditamos que os [cidadãos] neozelandeses também estejam, desconfortáveis com a ideia de a NZR vender bens geradores de lucros que assentam em práticas culturais que não estão à venda, sejam quais forem as circunstâncias. Há um risco real de apropriação cultural, dado que a Silver Lake é uma empresa anglo-americana de capital privado".

A recusa, para já, é fulcral, pois qualquer venda de participação dos direitos comerciais tem de ser aprovada por todos os membros da federação e a NZRPA, uma espécie de sindicato que representa os jogadores, é um deles. Na Nova Zelândia, além de ter contrato com o clube (existem cinco que competem no Super Rugby, a maior prova de equipas do hemisfério sul), quem joga pela seleção assina também um vínculo com a NZR.

Além da "apropriação cultural", os jogadores também se estarão a opor à redução da percentagem de receita a que teriam direito caso a proposta fosse aceite: a fatia atual de 36,5% passaria a situar-se "entre os 30 ou 32%", sendo que a Silver Lake estima que as receitas aumentem, gradualmente, de ano para ano.