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Râguebi

Olivia joga râguebi pelo Canadá e não tem cabelo, nem pelo no corpo, desde os 8 anos: “É uma perda de tempo teres vergonha de ti própria”

A alopecia fez a jogadora, hoje com 22 anos, perder o cabelo quando estava no terceiro ano de escolaridade. Esteve nos Jogos Olímpicos do Japão e, no último fim de semana, competiu com a seleção de sevens do Canadá na paragem, em Vancouver, do circuito mundial. Olivia Apps diz que o mais importante na vida é ter amor-próprio e foi no râguebi que aprendeu a ser "confiante, destemida e vulnerável"

Diogo Pombo

Jason McCawley/Getty

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Um campo com 107 metros de comprimento e 69 de largura ser populado por apenas 14 pessoas deitaria sempre um holofote sobre qualquer uma. Ter um hectare de relva com tão pouca gente a pisá-la devido a uma variante do râguebi que parece fazer de propósito para quem o pratica cuspir os pulmões, de tanto esforço, faria necessariamente focalizar maiores fatias de atenção em cada jogadora, pela factualidade dos números. Fora o ser das poucas em campo, a jogar pelo Canadá e a respetiva seleção de sevens, Olivia Apps foi quem mais deu nas vistas no último fim de semana, em Vancouver.

No sete contra sete esticado sobre um relvado inteiro, a presença da canadiana reluzia. Olivia tinha a cabeça sem um fio de cabelo, a cara desprovida de qualquer pelo e o seu tom de pele, a dar para o esquálido, atraía olhares nas três vezes em que a seleção do Canadá jogou no BC Place, estádio de Vancouver. A cabeça de Olivia era como um farol em movimento, abrilhantado pelos deveres da posição.

A canadiana é médio de formação e mesmo em sevens, onde há menos rucks — disputas de bola no chão, quando alguém é placado —, faz parte das suas diligências manter a bola jogável, passá-la de mãos em mãos e ordenar uma variante de râguebi que vive do repentismo, de acelerações e de constantes piques de velocidade. Olivia Apps só começou a jogar râguebi com 15 anos, quando pensou “ok, vou correr contra pessoas e marcar ensaios”.

Matt Roberts/Getty

Até essa idade, apenas experimentara o futebol e o voleibol por entre os pingos do dilúvio que não dava descanso à sua autoestima. “A transição para o liceu fez-me ser mais insegura em relação ao que era ser uma jovem rapariga sem cabelo, a tentar perceber como haveria de ganhar confiança”, contou, à “CBC”. Desde os 8 anos que não tem qualquer cabelo ou pelo no corpo, devido a alopecia. Quando chegou “a meio da terceira classe”, Olivia Apps “já era careca”.

Toda a sua pele ser pontuada pelo nada capilar fê-la sentir-se “menos bonita na cara” e pensar que, de alguma forma, teria de “compensar isso com o corpo”. Quando a irmã mais velha lhe sugeriu que experimentasse o râguebi, aceitou com uma condição mental a que se impôs: “Sabia que se fosse capaz de enfrentar qualquer coisa no campo, conseguiria fazê-lo também na vida”. E lá foi desafiar-se, atrás de uma bola oval e no que o râguebi tem de mais desgastante para o corpo humano.

O jeito para o sete contra sete entre duas linhas de ensaio com postes lá erguidos ensinou-lhe a sentir-se “confiante na própria pele”. Com o tempo, isso passou para fora do campo. “Arranjei uma forma de me amar a mim própria e isso é importante, sem amor-próprio não vais conseguir fazer alguma coisa, nem ter uma relação com outras pessoas”, explicou, ao mesmo canal de televisão canadiano quem, este verão, teve a honra de uma vida desportiva. Olivia Apps foi convocada e jogou no torneio olímpico de sevens, no Japão, onde a seleção do Canadá acabou no 9.º lugar.

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Com o descanso concedido a várias das jogadores com mais idade da seleção, Olivia, de 22 anos, era das mais velhas em campo no Vancouver Sevens que decorreu no último fim de semana, na cidade do este canadiano onde vive. Marcou dois ensaios, distribuiu dezenas de passes e foi a constante presença que também joga para dar o exemplo: “As raparigas estão a ver mulheres como eu a serem bem sucedidas e a verem que o râguebi não é só para homens. As atletas femininas estão a redefinir o que significa ser feminina. Podes ser uma mulher dura e ser feminina”.

Exemplo que deu, também, sem correr com uma oval nas mãos. Em janeiro, 37 jogadoras canadianas que apresentaram uma queixa de assédio e o bullying contra John Tait, então selecionador nacional de sevens (com quem a equipa conquistou o bronze nos Jogos do Rio de Janeiro, na estreia como modalidade olímpica, em 2016), que se demitiria quando a federação do país encomendou um estudo, feito por um painel independente, às alegações. Olivia Apps era uma das signatárias da queixa.

A médio de formação careca, de olhar gentil e sorriso rasgado facilmente arranjou “uma forma de [se] amar a [ela] própria”, alcançou o que agora aconselha — “descobre algo que adores em ti e tudo o resto se vai encaixar”. O râguebi oxigenou-lhe a autoestima e insuflou-a com a confiança que lhe faltava para pensar, assegurar e dizer o que é certo nesta vida, mas que as lutas interiores de cada cabeça tantas vezes embaciam: “Não te podes preocupar com o que as pessoas pensam de ti, nem teres vergonha de ti própria, porque isso é uma perda de tempo. Tens de ser destemida e vulnerável, isso vai levar-te a bons sítios”.