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Râguebi

O primeiro capitão negro da seleção da África do Sul contou a sua história: “Às vezes, cruzo-me com homens que bateram na minha mãe”

Siya Kolisi é, desde 2018, o primeiro negro a capitanear a seleção de râguebi da África do Sul, que seria campeã mundial no ano seguinte. Em entrevista ao "The Guardian", o jogador revelou os vícios em álcool e pornografia, que cresceu a ver a mãe ser espancada por homens e que lhe custa cruzar-se na rua com alguns deles: "Dói saber que nunca lhes aconteceu nada"

Diogo Pombo

PATRICK HAMILTON/Getty

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Siya Kolisi é negro, nasceu no país plantado no sul do continente negro e onde quem lá nasce é maioritariamente negro, mas, durante décadas, essa terra foi regida por um regime racista e opressor de uma minoria branca. O apartheid fê-lo, como incontáveis outros nascidos com a mesma cor de pele, viver com parcos recursos numa township. Na África do Sul, tal equivalia a um bairro segregado (Zwide) nos subúrbios de uma grande cidade (Porth Elizabeth), onde a população negra era concentrada na exclusão promovida por um regime racista: “Quanto mais tentava ignorar a dor, pior ficava”.

O regime perdurou entre 1948 e as eleições de 1994, as primeiras democráticas e livres, que elegeram Nelson Mandela como presidente da África do Sul. A legislação começou a ser abolida em 1991, ano em que Siya Kolisi nasceu, filho de uma mãe então com 18 anos e imaculada no corpo. “Era bonita e, sobretudo, sem cicatrizes. Nunca a vi assim porque a sua cara mudou muito devido aos vários homens que lhe bateram. Quando morreu, tinha a cara cheia de cicatrizes”, revelou, em entrevista ao The Guardian”, quem hoje lidera a seleção de râguebi da África do Sul.

Só em 2018 os springboks tiveram o primeiro negro a ser escolhido como capitão e a equipa, entretanto, conquistou o Mundial do ano seguinte, saciando a fome que durava desde 2007 com o mesmo estilo de jogo brutamontes e físico, assente na defesa e sem enormes laivos de criatividade com bola, no jogo à mão. Siya levantou o troféu Webb Ellis e agora pouco lhe falta para ver a África do Sul, de novo, na liderança do ranking da World Rugby — no sábado, após três derrotas seguidas no torneio das Quatro Nações, ganhou (29-31) à toda-poderosa Nova Zelândia, com um pontapé aos postes nos últimos segundos.

Antes dessa vitória, Siya Kolisi ligou-se ao computador para dar a tal entrevista ao jornal inglês e falar um pouco sobre a sua vida.

Alexander Koerner/Getty

O avançado recorda-se, aos 5 anos, de estar a brincar na rua, olhar para o chão e apanhar uns dentes. Eram da mãe. Por vezes, quando regressa a casa por uns dias (joga nos Stormers, clube da Cidade do Cabo que compete no Super Rugby), vê “alguns dos homens que lhe batiam”. Um dia, cruzou-se com um que se recorda de ver a agredir a mãe: “Fico tão furioso, mas tenho de me controlar. Dói [saber] que nunca lhes aconteceu nada”.

Aos 10 anos, a avó morreu-lhe nos braços. Com essa idade começou a beber álcool e cheirar depósitos de gasolina. Aos 12, viu uma pessoa a ser apedrejada até à morte perto de casa. Ainda em criança, conheceu um treinador do clube de râguebi de Zwide, que fez por lhe conseguir uma bolsa de estudo num colégio privado em Porth Elizabeth. Foi o escape para Siya Kolisi. Sofria de malnutrição, pouco sabia falar inglês e apercebeu-se de como “o mundo é injusto” com essa mudança de vida. “Era uma viagem de 15 minutos de carro e foi isso que bastou para eu começar a sonhar. Havia muitos jogadores melhores do que eu, e é injusto, porque todos estavam esfomeados por esta oportunidade”, admitiu, ao “The Guardian”.

Siya relata que o râguebi o salvou, aos poucos, da pobreza, mas não lhe varreu coisa alguma das memórias. O flanqueador (número seis) bebia com frequência — “estivesse feliz ou triste, era a única maneira de lidar com coisas” —, via pornografia, ia a clubes de strip e tinha dificuldades em falar, em exprimir o que sentia. As artimanhas do passado esburacavam-lhe a vivência do presente. Até que a mulher fê-lo ver que, aproveitando a posição em que está e os ouvidos que se abrem por hoje ser quem é, poderia falar: “‘Não conseguiste ajudar a tua mãe, mas podes ajudar outras mulheres’. E tinha razão. A violência de género magoa-me, mesmo eu sendo um homem. Tenho uma mulher, uma filha e uma irmã”.

Siya Kolisi escreveu um livro, começou a ser mais franco em entrevista e confessa-se sobre o que foi, e o que ainda o atormenta. “Quero encorajar as pessoas que é ok procurar ajuda. Quero encorajar os homens a falarem, porque não falam entre eles, não se abrem nem choram”, indicou. E, sendo o primeiro jogador negro a capitanear a África do Sul, também quer mostrar o que nunca lhe explicaram em criança: “Se eu for o modelo para algum miúdo, ele pensará: ‘Quero ser como tu um dia’. Mas não sabe as lutas que cada um enfrenta. Ninguém lhe diz que haverá tentações — álcool, drogas e todas essas coisas que estão disponíveis. Gostava de ter tido um mentor que me tivesse dito que ia enfrentar estes desafios”.