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Râguebi

Carl Hayman, ex-all black, sofre de demência aos 41 anos. E quer processar as autoridades do râguebi por falta de proteção contra concussões

O ex-internacional pela Nova Zelândia passou "vários anos a achar que estava louco" e juntou-se a um grupo de antigos jogadores que iniciou ações legais contra a World Rugby por "não ter fornecido proteção quando o risco de concussão era conhecido e previsível". O inglês Steve Thompson, também diagnosticado com demência precoce e parte do processou, assegurou "não se lembrar de vencer o Mundial" de râguebi em 2003, lançando mais argumentos para um dos temas do momento no desporto

Pedro Barata

Eddy LEMAISTRE/Getty

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Habituámo-nos a ver aqueles corpos que parecem montanhas a chocarem uns contra os outros, como se de um confronto de titãs se tratasse, mas um confronto com um sentido, um propósito, umas normas. Afinal, a beleza e popularidade do râguebi foram-se forjando muito através da mistura da brutalidade de certas ações com uma determinada ideia de nobreza, respeito e espírito de grupo.

No entanto, para alguns dos seus melhores praticantes, a fatura a pagar por viverem uma vida entre titãs é demasiado elevada.É o caso de Carl Hayman.

O antigo jogador da Nova Zelândia, que também representou os Newcastle Falcons, de Inglaterra, e o Toulon, de França — e que chegou a marcar um ensaio a Portugal, em 2007, no 108-13 com que os all blacks bateram a seleção nacional no Mundial em que participou —, foi diagnosticado, aos 41 anos, com demência precoce e provável encefalopatia traumática crónica.

Hayman procurou diagnóstico médico após sofrer perdas de memória, confusão e pensamentos suicidas. "Passei vários anos a achar que estava louco", disse, ao "The Bounce".

Ora, após o diagnóstico que lhe foi feito, o neozelandês juntou-se a outros antigos jogadores, como o inglês Steve Thompson ou o galês Alix Popham, numa ação legal contra as autoridades que dirigem o râguebi, incluindo o World Rugby, o organismo máximo da modalidade.

Sandra Mu/Getty

Segundo os antigos atletas, as instituições são culpadas de "não terem fornecido proteção quando o risco de concussão era conhecido e previsível". Hayman argumentou que uma das razões para que se tenha juntado à causa é a tentativa de forçar mudanças no râguebi, de modo a que se minimizem os riscos deste tipo de lesões.

"Espero que os jogadores do futuro não caiam na mesma armadilha que me apanhou, que não sejam tratados como objetos e que cuidem deles. Os jogadores jovens têm de saber aquilo em que estão a entrar, tem de haver mais apoio e melhor monitorização em torno das lesões cerebrais", explicou o ex-internacional pelos all blacks.

Enquanto a New Zealand Rugby disse que os seus "pensamentos" estão com Hayman, frisando estar a desenvolver políticas e investigações sobre concussões para proteger os jogadores, e a World Rugby garantiu não ter sido contactada pelo jogador, este caso é mais um numa série de acusações em torno das lesões cerebrais na modalidade.

Mike Hewitt/Getty

Outro dos atletas que faz parte desta causa legal é Steve Thompson. O inglês, campeão do mundo em 2003, foi diagnosticado com demência aos 42 anos e hoje, com 43, deu autorização para que o seu cérebro fosse estudado, no sentido de entender melhor este tipo de lesões.

"Dou o meu cérebro para que as crianças das pessoas que amo não tenham de passar pelo mesmo que eu passei", explicou Thompson, em setembro. O antigo jogador confessou, em 2020, ao "The Guardian", que "não se lembrava de ter ganhado o Mundial", nem "de ter estado lá".

Thompson revelou ter um problema de memória — chegando mesmo a esquecer-se do nome da mulher — e ataques de pânico, bem como momentos em que se tornava agressivo sem razão aparente, como se "estivesse fora do seu corpo". E tudo "por causa do râguebi", diz.

O inglês relembrou ter feito parte da primeira geração de jogadores profissionais (o râguebi começou a profissionalizar-se apenas em 1995), quando passou a haver treinos diários. "Foi algo como: 'o que fazemos agora?'. E pareceu que os treinadores pensaram 'vamos simplesmente chocar uns com os outros'", recordou Thompson, que acusou os estágios da seleção inglesa da altura de serem "brutais".

O antigo jogador dizia sentir-se, por vezes, "um bocado como carne", apontando o dedo aos "muitos especialistas" que estavam com as equipas nas quais militou: "sabiam o que estava a acontecer" e "não diziam nada", apesar de "as pessoas estarem a levar pancadas na cabeça". Steve Thompson contou, ainda, que quando "tinha de sair de um treino" a "conversa era sempre 'é só um golpe na cabeça, ele ficará bem'".

Thompson durante um treino com Inglaterra em 2003

Thompson durante um treino com Inglaterra em 2003

GREG WOOD/Getty

Thompson recordou que era "quase motivo de riso" quando "um jogador recebia uma pancada forte na cabeça". E revelou que "em quase todos os treinos" sofria concussões, só que simplesmente não sabia. "Ele está a dormir um bocadinho, estará de pé daqui um minuto", era a reação normal, segundo Steve.

O antigo avançado afirmou-se "zangado" com os clubes e a associação de jogadores, pois o importante não é "matar" o râguebi, mas sim que este seja "regulado". E sugeriu fazer um exame cerebral a todos os jogadores no início de cada temporada: "Parece horrível, porque jogadores terão de se retirar com 22 ou 23 anos. Mas, confiem em mim, é melhor acabar nessa altura do que como eu estou agora", garantiu.

Os irmão Jack e Bobby Charlton

Os irmão Jack e Bobby Charlton

PA Images

O râguebi tem sido uma modalidade onde a discussão em torno das concussões e os seus efeitos se tem revelado especialmente intensa, mas não é a única. Também no futebol o debate tem vindo a crescer, sobretudo à medida que se vão conhecendo casos de jogadores que viveram ou morreram com demência.

Jack Charlton faleceu em 2020 tendo demência, uma condição que também afeta o irmão, Sir Bobby Charlton. Nobby Stiles, outro campeão do mundo em 1966 com a Inglaterra falecido o ano passado, sofria igualmente de demência. Martin Peters, membro da mesma seleção inglesa, morreu em 2019 sofrendo de Alzheimer.

O primeiro caso conhecido no Reino Unido deu-se com Jeff Astle. Antigo avançado da seleção e do West Bromwich, morreu em janeiro de 2002 e padecia de demência, tendo-se concluido que a sua morte foi o resultado de uma "doença industrial" — assim chamada quando é provocada por condições inapropriadas de trabalho — causada por repetidos "cabeceamentos na bola".