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A escuridão, por Gary Neville: “Não queria a bola, não sabia quando voltaria a fazer um bom jogo ou um bom passe. Perdi tudo”

Em entrevista à “SkySports” na terça-feira, Gary Neville, jogador histórico do Manchester United, confessou que no pico da sua carreira como futebolista, após o Europeu de 2000, sofreu uma depressão

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Robbie Jay Barratt - AMA

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A depressão trinca e abana todos aqueles que apanha. Infeta mesmo aqueles que ninguém espera que possam ser infectados: dos reis aos mais bem sucedidos do mundo. É uma doença difícil de pôr por palavras: o escritor William Styron chamou-lhe “escuridão visível”, Churchill descreveu a depressão como um “cão negro” que o perseguia. Gary Neville, jogador histórico do Manchester United, confessou esta semana, em entrevista à “SkySports”, que no pico da sua carreira como futebolista, também foi assombrado pela doença. Tudo aconteceu num período de seis meses, que culminou com um mau desempenho da Inglaterra no Europeu de 2000.

“Passei por um mau bocado. Tinha acabado uma relação de 7 anos e fui responsável pelos dois golos que sofremos no Mundial de Clubes, onde acabámos por ser eliminados. Isto aconteceu antes do Euro 2000, as pessoas provavelmente não se lembram, mas eu fui ao fundo. Entrava em campo desconcentrado, a pensar em outras coisas”, revelou o antigo jogador dos red devils.

A doença comeu-lhe a confiança. “Não queria a bola, não sabia quando voltaria a fazer um bom jogo ou um bom passe. Perdi tudo num período de 6 meses, precisava urgentemente das férias do verão”, confessou.

Apesar do abalo da depressão, Neville teve o discernimento acertado de procurar ajuda. Encontrou um psicólogo para o acompanhar. “Durante aqueles 6 meses tive o acompanhamento de um psicólogo, que me ajudava a simplificar as coisas. Ele dizia-me 'abranda a tua mente, pensa em coisas simples'”, contou.

Durante as férias de verão daquele ano, Neville havia caído num vazio de letargia. “Lembro-me de ter tido uma espécie de bloqueio durante quatro semanas, em que não fiz nada, simplesmente 'desliguei' a minha cabeça. Depois, mentalizei-me que tinha de trabalhar como nunca tinha feito na vida. No primeiro dia da pré-época comecei a fazer sessões triplas de treino, mais massagens, mais alongamentos, mas pesos... O primeiro jogo da época correu bem, não cometi erros, e a partir daí as coisas melhoraram”, disse.

Em declarações à “SkySports”, Gary Neville fez questão de lembrar o estigma que existe associado à depressão. Na época, o defesa do United não teve coragem de contar a nenhum colega de equipa pelo que estava a passar. “Hoje em dias as coisas são diferentes, mas há 20 anos, se alguém falasse de saúde mental ou em depressão num balneário, toda a gente se ria. Não contei a ninguém, se o tivesse feito teria sido encarado como sinal de fraqueza, não apenas na vida, mas também no futebol”, disse.