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Jesus aproximou-se dos jogadores e disse: "Se tivesse um treinador que me ensinasse o que ensino a vocês, tinha sido dez vezes mais jogador"

O treinador português deu uma entrevista à "TV Globo" e falou sobre um pouco de tudo: As folgas que os jogadores pedem e os brasileiros não, Neymar e Ronaldo, os preconceitos do futebol brasileiro, as partidas que o português prega do outro lado do Atlântico e os seus tempos de jogador, em que "corria, corria e corria, mas bola, nada"

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Amanda Perobelli

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Jorge Jesus está em alta no Brasil. Acaba de se isolar no comando do campeonato e o seu estilo é apreciado pela imprensa nacional, que não se cansa de o citar. À TV Globo, Jesus falou sobre tudo e mais alguma coisa. Eis alguns destaques.

As diferenças entre jogadores brasileiros e europeus

"É mais difícil trabalhar na Europa. Este plantel do Flamengo surpreendeu-me muito no capítulo do profissionalismo e na paixão. Eles têm prazer de trabalhar. Na Europa é mais complicado: eles querem ter direitos e querem sobrepor-se à liderança do treinador. Aqui no Brasil têm mais respeito e isso torna tudo mais fácil. Na Europa existe a ideia de que o jogador brasileiro não gosta de trabalhar. Vou partilhar um ditado português: se tens na tua equipa mais de quatro jogadores brasileiros, tens uma escola de samba. Contudo, a minha observação é totalmente ao contrário. São totalmente profissionais e têm consciência do que fazem."

Exigência de Jesus

"Não tenho dúvida que o plantel do Flamengo é o melhor com que trabalhei. Não se negam a nada. Eu não dou muitas folgas, poderiam vir dizer: 'Mister, dá uma folguinha'. Na Europa, em todos os jogos querem 'folguinhas', mas estes estão sempre interessados em trabalhar. A exigência que coloco no treino, eles absorvem com muita facilidade. Estou muito satisfeito com eles. Futebol é isto: paixão. Se não tiverem prazer no que fazem, vão ter um grande problema, o da pressão. E eles estão num clube onde há pressão todos os dias. Se não tiverem paixão, a pressão vai bloquear a qualidade do jogo deles."

A(s) língua(s) portuguesa(s)

"Há vários termos que são diferentes. Não dizemos torcida, dizemos adeptos. Nós dizemos equipa, vocês, time. Nós falamos malta, e vocês dizem galera. Mas é fácil de identificar. Os jogadores pedem para eu falar 'malta'. Aí digo: 'malta, vamos lá'. Eles gostam. Estão sempre na brincadeira comigo sobre algumas coisas que eu digo, mas não posso dizer agora (risos)."

O melhor do mundo

"Para mim Cristiano Ronaldo é o melhor, não tenho a menor dúvida. É o símbolo do que é o futebol, do que é o golo. Ele não faz 10 ou 20, faz 30, 40, 50 golos. Messi é diferente, mais artista. E o Ronaldo não precisa de tanta nota artística como Messi para fazer o que o Messi faz. Neste momento são os dois maiores. Penso que o Ronaldo devia ser um exemplo para todos os jogadores. Todos tinham que olhar para o Ronaldo, não pela qualidade, mas por aquilo que ele é como profissional, como ele chegou lá. Isso deve ser uma lição para todas as crianças que querem ser jogadores."

Os melhores de sempre

"Eu nunca vi jogar Pelé, Puskás, Garrincha. Vi jogar Maradona, os últimos anos, Messi e Ronaldo, que são os dois extraterrestres do mundo. Com estilos diferentes, mas fora do que é o normal. Está para chegar o fim deles, como é óbvio, todos chegam ao fim. O melhor de sempre? Não sei. Maradona foi super. O meu ídolo foi o Cruyff. Messi é super. Ronaldinho Gaúcho também, como o Neymar, podiam chegar a esse patamar se tivessem a formação e a cabeça do Ronaldo."

Os tempos livres

"Não desligo (do futebol) e a minha família já sabe disso. Estou sozinho, porque a minha família está em Portugal, mas quando estou lá é igual. Esta é minha vida, a minha profissão e a minha paixão. Tenho que procurar estar atento, e mesmo estando atento há muitas coisas que não consigo ver. Não há outra maneira de olhar para a minha profissão que não seja assim. Há dias que entro às 8h e saio às 20h e isso já aconteceu várias vezes aqui. Quando o prazer está acima de qualquer coisa és um apaixonado pelo que fazes."

Carreira como jogador

"Em Portugal já disse a alguns jogadores que trabalharam comigo: 'Quando joguei, se eu tivesse um treinador que me ensinasse o que eu ensino a vocês, tinha sido dez vezes mais jogador'. Quando jogava não me ensinaram nada do que eu ensino agora. Eu não era um jogador muito forte psicologicamente e isso é uma caraterística que, agora como treinador, percebo que é muito importante. Antigamente também não sabiam o que era importante nos momentos do jogo. Era mais importante uma boa condição física. Eu corria, corria, corria, mas bola nada. Quando cheguei a treinador fiz tudo ao contrário e comecei a criar coisas que hoje toda a gente no futebol faz."

Inspirações

"Johan Cruyff. Não só como jogador, mas apaixonei-me pelo futebol holandês na época de (Stefan) Kovács e Rinus Michels no Ajax e, depois, na seleção da Holanda. Eles devoravam todas as equipes com um futebol que surpreendeu a Europa. Depois o Cruyff vira treinador, vai para o Barcelona e inclui, até hoje, as ideias dele em toda o clube. Sempre me identifiquei com a forma como desenvolvem o jogador. Quis perceber um pouco como é que se fazia e fiquei um mês e tal com ele lá em um estágio. Tenho algumas fotografias com ele. Quando eu estava no Benfica ele foi visitar-me."