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Aurélio Pereira: “Os pais dos jogadores querem ser o Jorge Mendes”

50 anos de Sporting. 10 campeões europeus. Figo e Ronaldo. Aurélio Pereira pode não ser um nome mediático, mas os seus pupilos tendem a sê-lo, mais cedo ou mais tarde

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Tiago Miranda

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O conselheiro do Sporting para a formação deu uma longa entrevista ao jornal “A Bola”, em que confessa as suas preocupações com a formação de jogadores.

Em relação à declaração de Frederico Varandas acerca da aposta na formação, Aurélio Pereira não tem dúvidas: “A aposta tem de ser no jogador. O jogador é o elo mais forte da cadeia futebolística. (…) Temos de olhar para o jogador como o maior contributo para a formação”.

O conselheiro leonino elogia Leonel Pontes, que “vem para ensinar” e não para aprender, o que “seria mau”, na sua opinião. “Foi o primeiro tutor do Ronaldo.”

Quanto às declarações do presidente sobre preferir investir em obras para melhor a academia do que gastar milhões a contratar jogadores, Aurélio Pereira aplaude e acrescenta: “Essa é a solução. (…) O acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. (…) Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que dos nossos. E o Sporting, nessa vertente, tem feito um trabalho extraordinário”.

Recordando com orgulho os campeões europeus formados em Alcochete, Aurélio Pereira lembra que “vieram para o Sporting aos 11/12 anos”. O trabalho de recrutamento foi iniciado em 1988. “Fartámo-nos de trabalhar. (…) Um (veio) do Algarve, o outro de Arcos de Valdevez… Foi preciso trabalhar muito e termos pessoas. Para subires na vida, tens de rodear-te de pessoas melhores do que tu.

Sobre a venda de Thierry Correia, por 12 milhões de euros, o conselheiro do clube de Alvalade diz que não comenta decisões desse âmbito. Mas admite que o Sporting tem “alguma dificuldade financeira” e garante que o clube continua a acompanhar o jogador, mesmo depois de vendido. “As pessoas de vez em quando falam com jogadores que estão fora. Antigamente mandava um cartão de aniversário aos jogadores que tinham sido dispensados. Ainda hoje (…) dizem ‘mister, você mandava-me um cartão e eu ficava todo contente’”.

Inevitavelmente, fala-se do seu pupilo mais famoso, Cristiano Ronaldo. “Já não é talento; é supertalento. É um jogador que nunca está satisfeito.”

Um tema que o toca particularmente é o da gestão das expetativas dos pais e dos empresários. “É muito difícil. No polo EUL trabalhamos miúdos dos 6 aos 13 anos. São 190. É ali que tudo começa e apercebemo-nos de que os prodígios do futebol são todos miúdos africanos. É o futebol de rua que está a regressar. (…) Mas aos 13, já há empresários a ver. Começam cedo a ser pressionados e os pais depois vão atrás. (…) Temos de ter cuidado com o que dizemos aos miúdos. Os pais querem ser o Jorge Mendes e os filhos o Cristiano Ronaldo. Autoestima e disciplina são fundamentais.”

O homem da formação do Sporting justifica uma certa estagnação no sucesso da academia de Alcochete com a instabilidade diretiva e a falta de condições financeiras. “Não era possível com tão pouco fazer muito. Temos uma concorrência feroz. Já não é só Sporting Benfica e FC Porto a trabalhar na formação. Há Sporting de Braga, Vitória de Guimarães…”

No fim, Aurélio Pereira realça o respeito por João Félix: “Vamos lá ver se numa liga tão dura é possível ele superar-se. Superação tem o Ronaldo. Nesta altura tudo é talento. (…) Eu substituí a palavra ‘talento’ por ‘supertalento’. Talento já foi de vela.”