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Mulheres que arriscam a vida todos os dias para jogar futebol

Kelly Lindsey é a selecionadora feminina do Afeganistão. Não hesita em afirmar que as suas jogadoras põe a vida em risco para jogar e relata os abusos sexuais sistemáticos

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Lindsey nasceu em Omaha, no Nebraska, em 1979. Muito longe do Afeganistão, percorreu os EUA como jogadora profissional. De acordo com o artigo publicado pelo jornal espanhol “El País”, foram os estudos de antropologia na Universidade de Notre Dame que lhe despertaram a curiosidade e a vontade de explorar. Tinha acabado de tirar a licença de treinadora quando uma sucessão de acontecimentos a colocou à frente da seleção feminina do Afeganistão. Na altura, não lhe passava pela cabeça que iria estar mais ligada à defesa dos direitos humanos do que ao futebol.

“As minhas primeiras perguntas à equipa foram: ‘Porque estamos aqui? O que significa para vocês representar o vosso país?’ A primeira resposta foi que jogavam por todas as mulheres afegãs que não tinham voz. Naquela altura, não percebi exatamente o que significava. Tinha uma ideia, sim, mas não conhecia a realidade. Demorei anos a entender”, conta a americana.

No fim de 2018, tanto Lindsey como a sua equipa técnica tinham compreendido. Em dezembro desse ano, com o grupo de jogadoras criadas fora do Afeganistão, conseguiram fazer com que a FIFA desse atenção às denúncias que desde 2016 se perdiam nos labirintos burocráticos da federação asiática. No seio da federação afegã existia aquilo que Lindsey define como “uma cultura” da chantagem, da intimidação e da perseguição sexual das atletas pelos dirigentes. À cabeça destes, o próprio presidente Keramuudin Karim.

Acusado de cometer violentos abusos sexuais a pelo menos cinco jogadoras por uma denúnica publicada pelo jornal inglês “The Guardian”, Karim foi suspenso. No próximo dia 24 de setembro, o World Football Summit, evento anual que decorre em Madrid, irá premiar as jogadoras da seleção afegã pelo contributo para a luta pelos direitos humanos no Afeganistão e noutros países, onde a vida das mulheres continua a ser um inferno.

Lindsey e as suas jogadoras explicam que, apesar de ter sido criada uma seleção feminina oficial e reconhecida, a equipa, financiada por fundos da FIFA e o apoio da Hummel e de algumas ONGs, nunca disputou um jogo em solo afegão. “Por motivos de segurança”, esclarece a selecionadora.

Os torneios de clubes femininos são praticamente inexistentes no Afeganistão. É por isso que Lindsey se vê obrigada a formar a base da equipa com jogadoras nascidas no exílio, às quais se juntam atletas selecionadas no Afeganistão por técnicos com os quais se coordena através da internet. “Com sorte, uma vez por ano, juntam-se quatro ou cinco equipas de raparigas em Kabul para disputar um torneio. Isso não aconteceu mais de quatro vezes em toda a história, pelo que me dizem as minhas jogadoras. E não acontece desde 2014”, lamenta.

O governo afegão apoia a prática do futebol, tanto masculino como feminino. Se o jogo for entre homens, a lei afegã permite a presença de mulheres desde que estejam num canto específico do recinto. Na prática, a pressão social conservadora é mais dissuasora para quem assiste ao jogo do que as autoridades.

Lindsey vive em Hong Kong, longe dos fundamentalistas, embora não o suficiente. “Sem dúvida, sinto-me em perigo”, confessa. Ser americana e selecionadora de um país com um poderoso núcleo extremista que se opõe a que as mulheres pratiquem desporto tirou-lhe a vontade de pisar solo afegão. A seleção concentra-se e joga em países como a Índia, a Jordânia ou a China.

“Gostaria de ir ao Afeganistão”, lamenta a treinadora. “Precisamos de trabalhar no terreno para ajudar os clubes a desenvolver o projeto. É lá que podes marcar a diferença. Estou convencida de que, ao viajar para lá, arrisco a vida, mas tento não pensar muito nisso porque não tenho o direito, uma vez que as jogadoras correm mais riscos do que eu. A nossa relação não é justa. Elas arriscam a vida todos os dias apenas para jogar futebol.”

“Estas são as mulheres mais fortes que conheci”, observa. “Não o diria quando as vi pela primeira vez. Pareciam frágeis, amáveis e carinhosas. Mas quando ouves a luta quotidiana a que se submetem… Só a ida de casa ao treino é como atravessar um campo de batalha. Estão dispostas a arriscar a vida para estar num campo de futebol.”

“Não acreito que as pessoas que não conhecem o Afeganistão calculem a batalha diária destas raparigas. Fazemos testes a raparigas que vem treinar connosco à federação e as famílias não sabem. Têm tanta vontade de jogar futebol que, ainda que os familiares não aprovem, elas arriscam. Elas acreditam que o futebol pode mudar a cultura no seu país. Para elas, o futebol é a vida”, afirma.

O papel da FIFA

Através da luta pelas suas jogaras, Lindsey tornou-se uma ativista contra a burocracia da FIFA. “O sistema de gestão do futebol nestes momentos defende, antes de mais, o próprio sistema”, afirma a selecionadora, desiludida com o comportamento da federação asiática e da FIFA quando se sucediam as denúncias por abusos. “Creio que o sistema foi tão longe na sua própria defesa que não fomos suficientemente lestos na defesa do ser humano.”

“Frequentemente acreditamos que o dinheiro é algo tão positivo que basta investir para resolver qualquer problema. Não podemos deixar que o sistema nos meta a todos numa caixa e nos diga: ‘Limitem-se a jogar futebol’. O futebol é poderoso e dá voz a muita gente. É importante que as pessoas que participam neste jogo compreendam que podem usá-lo para praticar o bem,” remata Kelly Lindsey.