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Ginastas americanas contam em livro como sobreviveram aos abusos do médico: “Ele tornou-se o nosso melhor amigo”

A campeã olímpica Tasha Schwikert e a sua irmã, Jordan, também ginasta da equipa americana, relataram à jornalista Abigail Pesta como conseguiram sobreviver à exploração sistemática por parte de Larry Nassar

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Scott Olson

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Larry Nassar era um médico famoso por boas razões, prestigiado pelo seu serviço nas Olimpíadas. Era conhecido por ouvir, por se preocupar. Entre a famosa dureza dos treinos na ginástica competitiva, Larry era o amigo em quem confiavam. “Tivemos dificuldade em acreditar”, admitem as duas irmãs, mesmo que tivessem elas próprias sido vítimas daquele monstro dissimulado.

A propósito do lançamento do livro que conta toda a história, “The Girls”, o jornal inglês “The Guardian” publicou alguns excertos do corajoso depoimento das duas atletas.

“É uma sensação estranha quando te apercebes, em adulta, que sofreste abusos na infância. Especialmente quando o abusador é o teu médico, a pessoa que supostamente zela pelos teus interesses. Foi difícil admitir que isto nos tinha acontecido. Enquanto ginastas, tínhamos sido ensinadas a ser duras.”

“Não estávamos sozinhas na nossa descrença inicial. Muitas mulheres passaram um mau bocado quando se aperceberam do facto de que ele tinha abusado delas em crianças. Era um médico prestigiado. Disse-nos que estava a fazer um tratamento médico. E nós confiámos nele.”

“Crescemos as duas a entregar a nossa confiança a treinadores e médicos. Eles eram o nosso mundo. Começámos a praticar ginástica muito pequenas, indo a aulas com a nossa mãe. (…) Ela encorajou-nos a tentar diferentes desportos (…) mas nós adorávamos ginástica. Temos idades próximas, por isso progredimos juntas.”

“No início da adolescência, tínhamos atingido o nível de elite do desporto. Quando chegámos à seleção americana, o treino tornou-se tóxico. Passávamos muito tempo no centro de treinos para a equipa nacional ou olímpica, no Texas. Detestávamos lá ir. O treino era todo ele negativo. Verbal e emocionalmente abusivo. Não te deixavam estar cansada, ser humana. Se te magoasses, os treinadores faziam-te sentir inútil, por isso todos escondiam as lesões com medicamentos para mascarar a dor. Ninguém tinha voz.”

“Os nossos pais não estavam autorizados a entrar no recinto. Mas o Larry Nassar estava lá. Ele estava sempre disponível para os campos de treinos. E tornou-se o nosso melhor amigo. Podíamos ir ter com ele e ser humanas. O gabinete dele era o nosso refúgio. A porta fechava-se e nós desabafávamos. Foi assim que ele nos atraiu.”

“Para mim – sou a Tasha – os abusos começaram quando eu tinha 15 anos, após um incidente no centro de estágio. O treinador Bela Karolyi empurrou-me com demasiada força, mas eu contive as lágrimas. Tinha acabado de o ver a gritar com uma colega, chamando-lhe ‘bebé’. No dia seguinte, coxeando e com dores nas virilhas, mandaram-me ir ter com Larry. Ele massajou-me e penetrou-me com as mãos sem luvas, dizendo que era um tratamento médico que relaxaria os meus músculos. Eu confiei nele porque era um médico respeitado e conhecia-o há anos. Por outro lado, no mundo da ginástica, estás extremamente isolada. Eu não sabia nada sobre abuso sexual. E não há tempo para namoros, eu não tinha qualquer experiência com rapazes ou sexo. Nenhuma de nós tinha.”

“Quando eu tinha 17 anos, tive uma lesão tão grave no tendão de Aquiles que quase não podia andar. Larry fez uma oferta generosa: ofereceu-se para me tratar em sua casa (…) durante uma semana. (…) Fiquei com ele, a mulher dele e os filhos durante cinco dias. Fizeram com que me sentisse em casa. (…) Ele tratava-me todos os dias, na cave (…) ou numa sala de treino na Michigan State University, onde ele também trabalhava. (…) Todas as sessões envolviam massagem. Começava no tendão de Aquiles e subia pela perna até me penetrar. Ele dizia que estava tudo ligado. Fazia este ‘tratamento’ abusivo três vezes por dia.”

“Olhando para trás, lembro-me de ouvir algumas das raparigas dizer, ‘O Larry não te assusta?’ Mas não dávamos importância. Os responsáveis pela ginástica dos EUA (…) disseram-nos para não questionar, para sorrirmos e fingirmos que era tudo maravilhoso. (…) É como um emprego e, se cometes um erro, tens noção de que és substituível, e eles lembravam-no constantemente. Quando fui escolhida para equipa olímpica em 2000, senti-me grata. Ganhei uma medalha e senti que devia o meu sucesso à USA Gymnastics.”

“Mais de uma década depois, quando as alegações de abuso chegaram às notícias, não tive um segundo para processar a informação. Tinha acabado o curso de direito (…) enquanto criava o meu primeiro filho. Mais tarde (…) comecei a olhar para as minhas memórias. Foi aterrador aperceber-me de ter sido tão manipulada. (…) Só pensava, eu devia ter sabido. Não conseguia perceber que a culpa era dele, não minha.”

“Para mim, Jordan, os abusos começaram quando eu estava na pré-adolescência e comecei a treinar em Karolyi Ranch, onde sofri lesões devido à violência dos treinos e ao stress repetido. (…) Como Larry era o médico dos Jogos Olímpicos, pensei que ele deveria conhecer as melhores técnicas médicas. Presumi que o seu procedimento invasivo era algo que ele usava para tratar as minhas lesões específicas e nunca imaginei que o fizesse a toda a gente. Não fazia ideia de que ele tinha feito o mesmo ‘tratamento’ à Tasha. Nunca falámos disso.”

“Agora sou treinadora de ginástica e tenho a oportunidade de ajudar a mudar a cultura do desporto que permitiu que este abuso durasse durante décadas. Recentemente falei com as raparigas que treino, e disse-lhes: ‘Se alguma vez se sentirem com dúvidas em relação a alguma coisa, falem”. Quero que saibam que podem vir ter comigo e falar sobre o que quiserem, que têm uma voz.”

“Os adultos em quem confiávamos na infância para nos fazerem sentir seguras falharam redondamente nessa proteção. Agora, erguemos a voz para ajudar a prevenir esta aberração no futuro.”