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O pesadelo de ser treinada por Alberto Salazar: “Não tive o período durante três anos”

Mary Cain foi atleta do Oregon Project patrocinado pela Nike. Chegou a pensar no suicídio

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Jonathan Ferrey

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Era uma menina norte-americana de 17 anos, com o sonho de ser a atleta mais rápida do mundo, mas tudo acabou em pesadelo. Integrou o Oregon Project, de Alberto Salazar, um centro de treinos patrocinado pela Nike que foi entretanto desmantelado depois de o treinador ter sido suspenso pela agência antidopagem dos Estados Unidos, acusado de traficar testosterona e de ter administrado substâncias proibidas a atletas.

Mary Cain era considerada a menina prodígio do atletismo americano. Com apenas 17 anos tornou-se a mais jovem do seu país a participar num campeonato do mundo. Ficou em 9º lugar nos 1.500 metros em Moscovo, em 2013. Tudo corria bem.

A integração no famoso Oregon Project, ao lado de nomes como Mo Farah e Galen Rupp, parecia-lhe o melhor caminho a seguir. Desistiu da universidade para se dedicar apenas ao atletismo.

"Juntei-me à Nike porque queria ser a melhor atleta de sempre. Em vez disso fui física e mentalmente abusada por um sistema desenhado por Alberto Salazar, com o patrocínio da Nike", conta num vídeo que o "The New York Times" partilhou.

"Quando cheguei todos me convenceram que, para melhorar, tinha de ficar mais magra, mais magra e mais magra. Era o programa de topo do país. Não havia psicólogo ou nutricionista, o centro era constituído por um conjunto de pessoas, fãs do Alberto. Quando pedia ajuda a alguém diziam-me sempre para ouvir o Alberto. E ele dizia-me sempre para perder peso, envergonhava-me publicamente se eu ganhasse algum peso. Queria dar-me anticoncecionais e diuréticos para perder peso, o que é proibido. Sentia-me muito mal. Cheguei a um ponto em que perdia uma corrida antes mesmo de começar a correr porque na minha cabeça não estava o tempo mas o número que tinha visto na balança nesse dia", contou a atleta.

"O peso é importante no desporto, claro. Mas aprendi a lição da pior maneira: quando as jovens são forçadas a esforçar-se além do normal, surgem problemas. Perde-se o período durante uns meses e esses meses transformam-se em anos. No meu caso foram três anos. Sem o período não se tem os níveis de estrogénio que mantêm os ossos fortes. Parti cinco ossos diferentes", afirmou Mary Cain.

"Sentia-me só, comecei a ter pensamentos suicidas, comecei a cortar-me. Algumas pessoas viram, mas ninguém fez nada em relação a isso. Em 2015, participei numa corrida, não correu bem, estava chuva, e o Alberto gritou à frente de toda a gente que eu tinha ganho 5 kg antes da prova. Eu disse-lhe nesse mesmo dia o que estava a acontecer comigo, que me cortava, e ele mandou-me para a cama", prosseguiu.

Quando Mary finalmente falou com os pais, “eles ficaram horrorizados, mandaram-me deixar aquele local imediatamente e ir para casa. Eu já não tentava ir aos Jogos Olímpicos, tentava sobreviver. Desisti da equipa."

Mary tem atualmente 23 anos e está a tentar reconstruir a carreira, seguindo um caminho saudável. "Fui apanhada num sistema desenhado por homens que destrói o corpo de mulheres jovens."

Alberto Salazar está a cumprir uma suspensão de quatro anos, imposta pela agência antidopagem dos Estados Unidos, depois de ter sido declarado culpado de violação das regras antidoping. Sempre negou as acusações de Mary Cain, mas outras atletas já partilharam histórias semelhantes.