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Augusto Inácio: “Conheci Bruno de Carvalho na Mealhada. Comemos uma sandes de leitão e falámos durante três ou quatro horas"

O caso Mihajlovic, com os milhões de indemnização, Bruno de Carvalho, Sousa Cintra, Frederico Varandas… Não faltam assuntos e Inácio fala de tudo

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OCTÁVIO PASSOS/LUSA

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Augusto Inácio tornou-se conhecido enquanto jogador. Mas resumir a sua carreira no futebol ao tempo que passou de chuteiras nos pés é dizer pouco, muito pouco. Foi o treinador que devolveu os títulos há muito fugidos ao Sporting, foi diretor desportivo de Bruno de Carvalho. Nessa categoria viu-se envolvido na contratação “temporária” de Mihajlovic, o treinador que nunca chegou a sê-lo em Alvalade, e que agora vai receber uma indemnização de três milhões de euros do Sporting. Em entrevista ao jornal “A Bola”, Inácio fala de tudo e mais ainda.

Mihajlovic e as diferentes versões do depoimento de Inácio

“Já com Sousa Cintra na liderança, o Sporting despediu Mihajlovic. Na sequência disso, os advogados do Sporting queriam um depoimento meu sobre as acusações que o clube fazia a Mihajlovic e que justificavam o despedimento: o Sporting alegava que Sinisa tinha imposto a mudança do estágio e do número de jogos de quatro para dois. Nada disso é verdade! O treinador sugeriu a possibilidade de fazer isso. (…) Ele não impôs, sugeriu.”

“Jantei com ele no dia 19 (…) para tratar do início da pré-época. (…) E, enquanto falávamos disso, o Sinisa é despedido. Já nada interessava. Voltando aos documentos, só assinei o que dizia que ele sugeriu e não o que dizia que impôs. (…) Nunca fui ao TAS! O Sporting nunca me arrolou como testemunha, senão teria ido.”

“O advogado de Sinisa é que, perante o meu depoimento, decidiu fazer-me, passados alguns meses, umas perguntas por escrito. E eu respondi. Em inglês, é verdade. E assinei. Não há dois depoimentos. Há um depoimento e há as perguntas do advogado de Sinisa, a que respondi. Dizer que sou o culpado por o Sporting ter de pagar indemnização é… sacudir a água do capote.”

Os documentos divulgados pelo jornal “Record”

“Acho que há outras coisas por trás desta notícia. Como é que o “Record” tem conhecimento daqueles documentos? Só três partes é que os têm: o TAS, o advogado do Sinisa e o Sporting. Os dois primeiros não os deram, portanto…”

“E foi o ‘Record’ a ter acesso aos documentos ou os documentos é que acederam ao ‘Record’? Parece-me haver segundas intenções nisto tudo. Como é que um jornal tem o privilégio de receber informações internas do Sporting e mais ninguém tem? (…) (O Sporting) só pode estar refém dos sócios. Eles é que mandam no clube. Não entendo. É medo? Eu sei que o CM (Correio da Manhã) e a CMTV entram em esquemas de especulação, tudo é suspeição, nada no futebol é sério. (…) Parece que fui eu a despedir o Sinisa. Não fui eu, foi Sousa Cintra!”

A contratação de Mihajlovic uma semana antes da assembleia que destituiu Bruno de Carvalho

“Estou convencido de que Bruno de Carvalho nunca pensou que seria destituído. Por isso, fez um contrato longo com um treinador ao qual dei também o meu aval. (…) Depois, veio Sousa Cintra com a sua tese: ‘quem é este treinador, que nunca ganhou nada?’. E despediu-o. E contratou José Peseiro. E depois vem outro presidente e contrata Keiser. E Keiser o que é que ganhou para vir treinar o Sporting?

O regresso ao clube após os incidentes de Alcochete

“A ideia principal para o meu regresso era tentar resgatar os jogadores que queriam rescindir com o Sporting. É nessas condições que vou. Entretanto o Bruno sai e eu ainda fico com Sousa Cintra. Mas o papel de resgate já não o tinha com o Sousa Cintra. Ele tinha outras pessoas.”

“Goste-se ou não, os jogadores que vieram, tirando o Bruno Fernandes (há ali outra história com empresários e tal), todos os outros só voltaram porque vinham ganhar muito mais dinheiro. (…) Bas Dost, que tanto se queixara do medo, da insegurança, do receio pelos filhos e pela família (…) passou de 1,8 milhões/ano para 3,2. E aí já não havia insegurança.”

“O que quero dizer é que se a história fosse: ganhas 2.000 e voltas continuando a ganhar 2.000, eles não vinham.”

Como conheceu Bruno de Carvalho

“Eu não conhecia Bruno de Carvalho. Recebi uma chamada dele a informar-me que queria candidatar-se e a mostrar vontade de falar comigo. (…) Foi na Mealhada que nos encontrámos. Comemos uma sandes de leitão e falámos durante três ou quatro horas. Mostrou-me o organigrama e o programa. Tinha 120 ponto e eu estava de acordo com 118.”

“Perguntei-lhe: ‘É mesmo isto que vai fazer?’. E ele respondeu-me: ‘Se não for isto, podes ir para as televisões rasgar-me todo; vou cumprir isto!’. E eu: ‘Se é isto, então estou consigo’.”

“Fiquei a admirar a raça e o espírito de união que ele tinha. Não ganhámos em 2011, ganhámos nas seguintes. E, quer queiram quer não, ele revolucionou o Sporting. Trouxe as pessoas para as bancadas, pôs as modalidades num nível competitivo raramente visto. Houve um ano em que as modalidades ganharam tudo!”

Bruno de Carvalho versão 2018

“Quando volto, encontro um Bruno no meio das confusões de Alcochete, da derrota da Taça, dos jogadores a saírem. Vejo um homem preocupado, o que é normal, com tudo o que está a acontecer. Agora, sobre o que antecedeu tudo isso, não sei, não estava lá…”

“Nunca tive problemas em apontar-lhe o que estava mal. As pessoas não podem ter medo disso.”

O Sporting todo partido

“O futebol é a mola que faz mexer os clubes. Acredito que as pessoas nos cargos tentem fazer o melhor. Ninguém vai para um cargo sem tentar fazer o melhor. Pode correr bem ou mal, mas depois estão sujeitas às críticas. E há que olhar para os factos. A 3 de dezembro, sem fechar a primeira volta, o Sporting está a 13 pontos do Benfica, já está fora da Taça de Portugal e na Taça da Liga vamos ver. Só na Liga Europa há uma campanha muito boa. Mas tenho a certeza que os sportinguistas mandam fora todas as taças e a Europa. Querem é o campeonato.”

“Não vou enganar os sportinguistas. O Sporting tem um plantel muito inferior, mas mesmo muito inferior aos de Benfica e FC Porto. O Hugo Viana não pode dizer numa entrevista que o Sporting tem um plantel fantástico. (…) O Sporting perdeu Raphinha e Bas Dost, por questões financeiras, acredito que sim. Mas os que vieram para preencher as lacunas nada acrescentaram em termos de qualidade.”

“O Sporting tem um grande jogador de classe mundial, o Bruno Fernandes, e tem três bons futebolistas que dão apoio, Acuña, Mathieu e Coates. O Wendel, com cabeça, poderia ser. Todos os outros não podem ser considerados grandes jogadores. São… jogadores. (…) Se com este dinheiro podia ter melhores jogadores? Podia. Veja-se o Jesé… O Sporting gasta dois milhões num empréstimo, depois ele volta para o PSG e qual o retorno desportivo e financeiro? É zero.

O conflito da direção com as claques

“A maior de todas as forças que o Sporting tem é a sua massa associativa, são os sócios, os adeptos e as claques. Penso que houve alguma falta de diplomacia na resolução da questão. Há um protocolo ao qual as claques não podem fugir. (…) Agora, não sei o que se passou para haver este choque definitivo.”

O futuro de Inácio

“Eu vivo o dia-a-dia. Não faço projetos a longo prazo. A rescisão com o Aves foi amigável, vamos ver.”

“Entre a saída do Aves e a assinatura da rescisão tive um contacto da Tunísia, mas ainda não tinha rescindido e a resposta tinha de ser rápida. (…) Há aí uma possibilidade, um convite da MLS. (…) Desejo o melhor para o Aves e para o Sporting. E só quero continuar na vida de cara levantada.”