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“O Peixoto disse-me que não era feliz a jogar a defesa. ‘Não estou a ouvir bem, queres ir para o Gil?’ Há quem dê pontapés nos baldes”

Jorge Jesus acaba de ser condecorado pelo Presidente da República. Ganhou (quase) tudo em meio ano de sonho. Eis Jesus vencedor, rei do Rio de Janeiro, em entrevista ao "Record"

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A vida corre bem a Jorge Jesus, como se percebe nesta entrevista

Horacio Villalobos

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2019 pode bem ter sido o ano de Jesus. Não fosse a derrota na final do Mundial de Clubes e podíamos mesmo acreditar que a perfeição existe. O segundo descobridor do Brasil deu uma longa entrevista ao “Record”, da qual selecionámos os momentos mais relevantes.

As críticas

“Não gostei. Mas só podia responder a estas pessoas dentro de campo; e dentro de campo é ganhar. Eu hoje percebo melhor porque é que pensavam assim. Para eles, o campeonato português não existe, é zero. Não tinham muita noção do que era o campeonato português, hoje já têm. Como nós não temos noção nenhuma do que é o campeonato brasileiro. (…) Eles têm um historial: são cinco vezes campeões do mundo. Para eles, são o país do mundo com melhor futebol.

O amor

“Aprendi que no Brasil se diz com facilidade ‘amar’. Os jogadores do Flamengo amam-me. Como eu os amo a eles. Em Portugal era incapaz de dizer isto… Mas eles dizem-me. Como a grande maioria são brasileiros, fazem um grupo muito mais forte do que na Europa. Aqui tu tens um uruguaio, um argentino, um português, um chinês… Tem muita importância num grupo. O jogador europeu é muito mais individualista, pensa mais nele que na equipa. E o português muito.

Este Flamengo e o primeiro Benfica de Jesus

“O Aimar era um jogador muito mais poderoso do que o Gerson, nas laterais tínhamos dois jogadores muito criativos e rápidos, Di María e Ramires, tínhamos um médio-defensivo, Javi García, um pouco como o Arão… Depois tínhamos uma linha de quatro muito forte atrás, como o Flamengo tem. Tive mais tempo no Benfica, porque tive um ano para a elaborar, ali tive menos tempo mas já está. Uma das vantagens se continuar no Flamengo é que a equipa vai evoluir cada vez mais defensivamente”.

As decisões mais difíceis na carreira

“Já tomei algumas no final da época em que tive de dizer não a alguns jogadores porque desportivamente não interessavam à equipa em questão. Jogadores que, como pessoas, eram sensacionais. Posso falar de um: Yannick Djaló. Um miúdo sensacional e querido. Mas eu queria jogadores com caraterísticas diferentes e tive de lhe dizer que não íamos trabalhar mais em conjunto. Custou-me imenso. E tive outro ao contrário: César Peixoto. Disse-me que não era feliz a jogar a defesa-esquerdo e que queria sair do Benfica. ‘Vais para onde?’, perguntei-lhe. ‘Para o Gil Vicente’, respondeu-me. ‘Não estou a ouvir bem. Queres ir para o Gil Vicente?!’ Acho que foi um grande erro que ele cometeu, mas às vezes os jogadores dão grandes pontapés nos baldes.