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24: o número proibido no Brasil

Tradição homofóbica faz com que apenas uma equipa inscreva jogadores com esse número. Surgem finalmente pedidos para que esse hábito termine

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Gabriel Aponte

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Esta espécie de proibição, a que na época passada, por exemplo, apenas escapou o guarda-redes Brenno Fraga, do Grémio, tem uma origem inusitada. O jornal “Record” refere que se trata de uma tradição com raízes que remontam a 1892. Nessa altura, foi criada uma bolsa de apostas ilegal chamada “Jogo do Bicho”, que ainda hoje existe na sociedade brasileira.

Criado por João Baptista Viana Drummond para estimular as visitas ao Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, o jogo funciona mediante a escolha de um animal num quadrado. O número é depois sorteado e dá direito a um prémio. O número 24 é representado pelo veado, animal que no Brasil é um termo insultuoso para homossexual. Rapidamente, o ambiente machista do futebol começou a evitar o 24 a todo o custo.

Gustavo Andrada Bandeira, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e investigador do fenómeno futebolístico, assegura que a utilização do dorsal 24 é vista, de forma tremendamente errada, como uma afronta à heterossexualidade reinante no mundo do desporto-rei. E o medo da reação dos adeptos leva a que ninguém o queira utilizar.

"A ausência do número 24 reflete as representações hegemónicas de masculinidade do futebol. Uma representatividade heterossexual e sexista. Ter característica heterossexual, ser forte, viril e aparecer com mulheres nos meios de comunicação social são características procuradas pelos jogadores do futebol. E qualquer afastamento desta hegemonia causa ruído. Qualquer coisa que tente evitar essa hegemonia parece que será evitada pelos jogadores. Roça o ridículo alguém não querer usar o 24 e ver jogadores a usar o número 88, que é identificado com movimentos nazis e fascistas", realçou em entrevista ao “Super Esportes”.

Ironicamente, nas competições continentais sul-americanas, como é o caso da Taça Libertadores, a utilização do 24 é obrigatória, já que a numeração é obrigatória entre o 1 e o 30. Assim sendo, para contornar esta regra, as equipas colocaram o dorsal “maldito” nas costas do terceiro guarda-redes da equipa, que nunca joga.

O guarda-redes Brenno, de 20 anos, defendeu as cores do Grémio com o 24 nas costas. E nunca teve problemas: "Não foi uma escolha minha mas também não me obrigaram a usar o 24. Não vejo problema nenhum, não tenho sequer esse pensamento. O importante é ir para os jogos e ajudar a equipa", revelou ao site “IG Esporte”, destacando: "Foi o meu número de estreia e vai ficar marcado na minha vida como uma coisa boa. Por isso não vejo problema nenhum".

No passado dia 10, por exemplo, a polémica voltou a estalar por causa deste número. O colombiano Victor Cantillo foi apresentado como reforço do Corinthians e, apesar de sempre ter utilizado o 24 ao serviço do Junior Barranquilla, recebeu a camisola 8.

"Disseram-me que não podia utilizar o número 24", realçou de forma inocente, enquanto o diretor para o futebol Duílio Monteiro Alves comentava perante uma plateia de jornalistas em tom jocoso: "Camisa 24 aqui não."

Palavras que foram amplamente criticadas e que levaram mesmo a um retratamento por parte do dirigente, que fez um vídeo a pedir desculpa pelo momento infeliz e garantindo que não existe espaço para a homofobia no clube.