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Varandas: "Até hoje, o Sporting nunca foi unido. Faz sentido que 0,5% dos sócios possam promover a destituição dos órgãos sociais?"

Em longa entrevista ao "Record", o presidente do Sporting falou de sócios minoritários, da eventual Assembleia Geral destitutiva, das claques, da crónica instabilidade que "só tende a piorar". Frederico Varandas disse, ainda, que as comunicações entre os árbitros e o VAR deviam ser audíveis no estádio e na transmissão televisiva, como o são no râguebi

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RODRIGO ANTUNES

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A eventual Assembleia Geral destitutiva

"Se me perguntar a minha opinião, saindo da posição de presidente: imaginem que o Sporting não vem do pior momento da sua história; imaginem uma época desportiva má. Se houver uma destituição de uma direção por isto, o Sporting não tem futuro. É a minha opinião enquanto sócio. Assim, vamos ter mandatos de quê, um ano? Independentemente do presidente, isto destrói o clube.

Faz sentido que 0,5% dos sócios possam promover a destituição dos órgãos sociais? Porque essas ações levam a resultados incertos, mas a agitação é certa. O Sporting, se entra neste ciclo ingovernável, dificilmente se endireita."

O estado de ânimo no Sporting

"Ninguém da direção é autista. Sei que muita gente está descontente e triste com os resultados do futebol, cá dentro inclusive. Como estiveram contentes há cinco ou seis meses, hoje estão tristes. O futebol é isto, é por isso que um clube nunca há de ser uma empresa, porque há muita emoção. Mas a emoção não pode colocar tudo em causa. Não tenho dúvidas que um dos problemas do Sporting é esta instabilidade, que só tende a piorar."

O balanço de 17 meses de mandato

"Se pudesse reduzir esses 17 meses a uma palavra: duro. Duro, mas não surpreendente. Duro, mas expectável. Duro, mas necessário. Duro, mas inevitável. Era a única maneira de inverter este ciclo. Obriga a sério desgaste, impopularidade, ruído, mexer em privilégios. Obriga a coragem, resiliência e muito sentido de missão.

As pessoas não percebem bem o chão onde estávamos a pisar no Sporting. Agora, quando se acorda do populismo, a realidade é muito dura. Há pessoas que querem tanto vir para aqui que nem lhes interessa o estado em que vão agarrar o clube mais tarde."

A desunião no clube

"Até hoje, o Sporting nunca foi unido. Eu não o conseguiria fazer em 17 meses, após uma autêntica guerra civil. Uma coisa é unir, outra é aceitar grupos que querem que as suas equipas percam para poderem voltar a ter os privilégios que tinham."

As claques e André Geraldes

"Eu distingo as claques das suas direções. Reuni-me pelo menos cinco vezes com eles e distingui a Juventude Leonina dos outros três. A visão das pessoas sobre as claques tem a ver com o ataque a Alcochete. E aí foi a Juventude Leonina que realizou esse dia negro, um dia que causou 80 milhões de prejuízo ao Sporting e danos reputacionais inacreditáveis.

Esta direção não quer acabar com as claques. Em setembro de 2018 era o mais fácil de fazer. Não o fizemos. Mas explicámos que havia regras que tinham de mudar para sempre. Não posso mais incentivar um negócio que mata a essência das claques. Expliquei que as ofertas iam acabar mas que podiam comprar 500 Gameboxes com preço de desconto na bilheteira do Sporting. Os grupos não quiseram.

Queriam que fossem vendidas a eles e depois eles é que faziam a gestão. Diziam-me: ‘Presidente, nós dávamos esse dinheiro em notas ao André Geraldes quando ele era OLA [Oficial de Ligação aos Adeptos], porque éramos obrigados.’ Com tantos comunicados, estranho não haver um a contar isto."

A Juventude Leonina

"Depois, com a Comissão de Gestão, acumulou-se uma dívida de 40 mil euros, que Directivo e Juventude Leonina não pagaram. Fez-se um plano de pagamentos. Logo em setembro deixaram de pagar. À 3ª jornada, já vinham insultos. Porquê? Porque perderam os privilégios. Hoje vejo comunicados da Juventude Leonina.

Mas quem é a Juventude Leonina? Apresentem-se aos sócios! Quem é o presidente? Os vice-presidentes? Os vogais? Vivem de quê? Que profissões têm? Que bens materiais? Digam quem são aos seus sócios e aos sócios do Sporting.

Mas eu não quero que deixe de existir! O que eu quero é uma Juventude Leonina que queira que o Sporting ganhe! Nos últimos 5 anos o Sporting pagou meio milhão de euros por mau comportamento das claques. Este ano já estamos em 100 mil euros. É este o amor que têm pelo clube? Com isto eu não negoceio."

A violência no futebol e o ataca a Alcochete

"Isto tem mais repercussões do que eu imaginava. Quando me reuni com o CEO do United, o Ed Woodward, a primeira coisa que ele me disse foi que sabia a luta que tenho tido. Que tinha impacto, que seguia o que se estava a passar. O caso de Alcochete pôs o epicentro aqui. Sento-me à mesa para negociar o Bruno Fernandes e a primeira coisa de que ele me fala é disto."

Arbitragem e tecnologia

"Defendo uma revisão a sério da arbitragem. A carreira tem de ser apetecível. Os árbitros devem ganhar mais. Mas depois têm de ser altamente escrutinados. Não consigo compreender por que é que no VAR, à imagem do que se faz no râguebi, não se ouvem as comunicações. Isto só protege a incompetência. Só alimenta o rumor e a teoria da cabala. Um árbitro bom não pode ter medo de que se ouçam as comunicações. A arbitragem tem de caminhar para um máximo de transparência.

Já falei em reunião com o Conselho de Arbitragem, com o José Fontelas Gomes. Quero os árbitros mais bem pagos, quero os melhores árbitros, quero transmissões do VAR audíveis para todos e quero que o Sporting seja respeitado como os nossos rivais. Os árbitros não respeitam o Sporting como respeitam os nossos rivais."

Sobre a investigação noticiada pela revista "Sábado"

"Só digo que corto a minha mão em como de setembro de 2018 para a frente não verá o Sporting a ser investigado."