Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

Francisco Salgado Zenha: “É óbvio que o futebol vai ter de ser tratado da mesma forma que outras indústrias importantes”

Em entrevista telefónica ao “Record”, o vice-presidente do Sporting mantém-se otimista em tempo de pandemia e acredita que, um dia que saia, vai deixar um clube melhor do que encontrou

Tribuna Expresso

Partilhar

Tem um nome politicamente sonante, em grande parte por ser sobrinho-neto e homónimo de um resistente à ditadura. Francisco Salgado Zenha, 36 anos, vice-presidente do Sporting, é um homem que oscila entre o pensamento positivo e a constatação de que “vão ser tempos difíceis para o futebol”. Eis os destaques da entrevista que deu ao jornal “Record”.

A época vai ser reatada

“A nossa perspetiva é a de que ainda vamos conseguir terminar a época 2019/20. (…) Lentamente. Eventualmente com estádios à porta fechada, de uma forma gradual que garanta que os intervenientes estejam seguros e que não correm o risco de contágio.”

O futebol mundial

“Tenho poucas dúvidas de que vai ser afetado. Aliás, as entidades responsáveis pela organização e regulação do futebol vão ter de intervir. Seja por via de criar estruturas de competição que sejam mais atrativas, do ponto de vista de receitas (…) mas, sobretudo, pela via de alterar algumas regras do jogo. (…) Não é possível nem praticável que o mercado de transferências feche na mesma altura dos anos anteriores. (…) Não restem dúvidas: vão ser tempos difíceis para o futebol.”

As transmissões televisivas

“Se eu entro na época 2020/21, em que não jogos nem transmissões televisivas, com certeza que também não haverá financiamento dessas transmissões televisivas. O mercado vai estar fechado. (…) A dificuldade que existe é conseguir fazer-se o que quer que seja, designadamente financiamento. Isso é um problema para mim, para a economia global e também para o futebol. Até os grandes clubes europeus terão dificuldade em comprar jogadores, o que criará problemas aos clubes que são vendedores.”

Os apoios do Governo

“O futebol não pode ser deixado de parte. (…) É um setor de atividade que (…) tem uma importância significativa para a economia nacional, representando 0,3% do PIB (…) mas não é apenas isso. Estamos a falar de um setor de atividade que tem três jornais diários, que alimentam esta indústria e as pessoas em casa com notícias. (…) Falamos de uma indústria que tem uma importância social brutal e que é fundamental para a felicidade das pessoas. (…) É óbvio que o futebol vai ter de ser tratado da mesma forma que outras indústrias importantes.

Fazer face à crise

“Estamos em contenção, a fazer os possíveis para gerar o máximo de liquidez e vivermos o melhor possível uma situação que não sabemos quando será ultrapassada. (…) Temos feito um esforço e estamos mais preparados, mas vai ser muito difícil.”

A segunda fase do plano de reestruturação financeira do Sporting (começaria agora)

“Sim, atrasa tudo. (…) Não sabemos como é que o mercado vai reagir depois desta crise, como o mercado vai interpretar o risco do futebol depois desta crise, quanto tempo, sequer, vai durar esta crise, que impactos é que vai ter. (…) Continuo a trabalhar diariamente e a avançar com tudo aquilo que tenho em mãos.”

Os contornos do negócio

“A grande maioria das empresas (…) vive de crédito. Nós não somo diferentes. O que temos de fazer é trabalhar com os parceiros financeiros que temos há muito tempo e com os quais temos uma boa relação. (…) Continuamos a trabalhar em alternativas, porque não podemos estar parados.”

Acompanhar Varandas em eventual recandidatura

“O meu objetivo foi sempre estar focado neste mandato. (…) Quero chegar ao fim do mandato concluindo estas operações e deixar o Sporting numa situação financeira ainda melhor do que está agora. (…) Quem vier a seguir deve prosseguir este processo.”

A preparação da próxima época com Rúben Amorim

“Se forem retomados os treinos e houver uma espécie de pré-época, pode permitir ao treinador ter mais tempo com os jogadores. Por outro lado, também vai ser uma transição de uma época para a outra diferente do habitual e isso pode prejudicar as equipas com treinadores novos. (…) Temos um treinador que entrou com muita força, muita vontade de trabalhar, muita vontade de ganhar, muita fome de jogar. Por isso, a paragem não é boa para nós, mas também não o é para nenhum clube.”

As críticas ao valor pago por Amorim

“As decisões de investimento são sempre discutidas, debatidas e sujeitas a avaliação dos sócios, assim como aos comentários da opinião pública. Naturalmente, um investimento avultado está mais sujeito a essas opiniões. (…) Rúben Amorim tem o perfil certo. (…) Em detrimento daquilo que muitas pessoas queriam e que era gastar esse mesmo valor em salários de um treinador internacional, reconhecido, mas na fase descendente da sua carreira.”

“Tem referências excelentes em todo o lado e na sua curta carreira teve sempre muito sucesso. Além disso, tem o perfil do treinador que foi campeão nas últimas 15 temporadas – treinadores portugueses, formados localmente, que conhecem muito bem o futebol português, têm o discurso certo, não têm medo de apostar na formação.”

A garantia de Varandas de que Amorim não aumenta o orçamento da próxima época

“É simples. Retira-se à aquisição de jogadores.”

O orçamento de 70 milhões para 2020/21

“Não confirmo o valor, até porque no futebol é subjetivo. (…) Há uma coisa que garanto: face àquilo que é o coronavírus não será superior. Garantidamente. Tenho muitas dúvidas de que sairemos desta situação com igual ou maior capacidade do que tínhamos antes.”

Aposta em empréstimo de jogadores como Jesé

“Os empréstimos são sempre uma possibilidade. São uma prioridade? Não. Nem o foram no ano passado. (…) O Fernando não correu bem. O Bolasie tem tido mais rendimento do que o Jesé, mas também é injusto dizer-se que o menor rendimento de Jesé foi exclusivamente por culpa dele. A performance da equipa, ao longo do ano, também não ajudou.”