Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

“Tenho colegas mais velhos que passaram por cancros e estão aqui”. Do UFC à primeira linha da covid-19: a nova vida do enfermeiro Nover

Habituou-se a combater os outros no ringue. Agora ajuda a salvar vidas numa cidade devastada pela Covid-19

Tribuna Expresso

Anthony Geathers

Partilhar

Phillipe Nover está habituado ao combate, embora a luta contra o atual oponente seja pouco justa. O ringue fica a arejar, à espera de melhores dias. O lutador UFC é, por estes dias, enfermeiro na devastada cidade de Nova Iorque.

No hospital onde trabalha, Nover tem testemunhado muitas alterações desde que foi anunciado, a meio de março, que a Covid-19 tinha chegado aos EUA. Durante duas semanas, Nover e os colegas têm estado a preparar aquilo a que chamam “o apex”, ou seja, o pico máximo do número de infeções e de mortes. O jornal inglês “The Guardian” falou com ele.

“Dizem que dentro de uma ou duas semanas poderemos ter um descalabro do sistema de saúde,” diz Nover, de 36 anos. “O momento decisivo será quando tivermos de decidir quem fica com os ventiladores que houver. Estamos a preparar-nos para ser outra Itália ou Espanha.”

A exposição ao vírus é um dos principais temas de conversa entre o pessoal de saúde. A Covid-19 é altamente contagiosa e, tal como outros hospitais pelo país fora, o material de proteção está a ser racionado e provavelmente esgotará, mais cedo ou mais tarde. Segundo Nover, os enfermeiros são aconselhados a escrever o nome nas suas coisas com um marcador.

“Eu tenho o meu próprio equipamento de proteção,” diz Nover. “Não ando a brincar com essas coisas. É como se eu estivesse num fato-sauna, a perder peso para um grande combate.”

Há apenas dois anos, Nover estava no ringue a combater os adversários, não a tratá-los. Em 2008, Nover foi finalista na temporada oito de The Ultimate Fighter, o reality show da UFC que lançou a carreira de muitos lutadores. Não conseguiu o contrato chorado, mas as suas atuações asseguraram-lhe um lugar na divisão peso-pluma da UFC. Durante os 14 da sua carreira nas artes marciais, Nover teve 23 combates profissionais, 10 deles na UFC.

Como ex-atleta profissional, Nover pode não achar que está automaticamente protegido, mas sabe que a sua saúde é melhor do que a de muitos. Foi por isso que, depois de ter interrompido a carreira de enfermeiro para lutar, se voluntariou para ajudar no combate ao vírus. Mas, como todos, também ele receia contrair a Covid-19.

"Sou muito saudável. Como bem. Faço exercício. Porque não ir para a linha da frente? Há muitos enfermeiros com quem trabalho que são mais velhos do que eu, com família e filhos. Alguns ultrapassaram cancro ou têm outros problemas. Grande parte do pessoal mais novo sente o mesmo: esta é a nossa chamada. Nunca pensei que chegássemos a isto, mas foi por isto que me inscrevi no curso,” afirma um Nover pronto para o combate.