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Andrés Perales foi porteiro, motorista e delegado do Málaga. Está em isolamento social numa casa dentro do estádio. Com o filho

Um antigo funcionário do Málaga vive no La Rosaleda com Andy, o seu filho, e assim cumpre o distanciamento em tempos de covid-19

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Muito se tem falado acerca da sorte daqueles que, nesta fase, podem esticar as pernas num jardim privado, pequeno ou grande. Do outro lado, grande parte da população está engaiolada em apartamentos, muitos deles sem varanda. E depois há o caso de Andrés Perales e do filho, Andy. De manhã, quando abrem a porta de casa, dão de caras com um relvado imenso e 30.000 lugares – vazios por estes dias – na bancada. Vivem no La Rosaleda, o estádio do Málaga.

De há um mês para cá, quase ninguém põe os pés no recinto, para além do cuidador do relvado, do vigilante e, claro está, dos dois inquilinos. Ao estádio, falta-lhe o ruído, como lamenta Andrés Perales, de 85 anos, que faz dele casa há três décadas e a quem falta apenas ser jogador, dirigente e treinador no balneário do clube.

“Estou habituado aos treinos, aos jogos, e agora estamos muito sozinhos. Andy, o cão e eu. Dá-me pena ver isto tão vazio,” comenta por telefone ao jornal “El País”, a partir de casa, junto à porta 19, que tem o seu nome. A habitação tem três quartos, uma casa de banho, duas salas, uma cozinha, um pátio e uma horta. Não lhes falta espaço, nem dentro nem fora: “Quando está bom tempo, dou uns passeios pelo campo”.

O filho, de 43 anos, encara melhor o confinamento: “Não me posso queixar,” diz. “Depois de comer, ando pelo campo de treinos, que está mesmo junto à casa. E, se me apetecer, faço exercício no ginásio da equipa principal. Não vou tanto ao estádio, já o vi muitas vezes.” Começou a viver no La Rosaleda com 10 anos. Saiu aos 22, quando se casou, e regressou há pouco, depois de se ter separado. “Não ver as minhas duas filhas é o pior nesta situação,” afirma.

A família Perales instalou-se no estádio em 1989. O Málaga tinha uns calabouços construídos para o Mundial de 1982 e propôs a Andrés, na altura porteiro no clube, transformá-los em vivenda para ele e para os familiares. Mudou-se com a mulher Antónia e alguns dos sete filhos. Entretanto, em 2002, com a grande remodelação do estádio, o clube construiu outra vivenda, onde vivem atualmente, sem pagar renda.

Andrés Perales começou a trabalhar no clube andaluz em 1966. Trabalhava numa empresa de autocarros e o Málaga contratou-o como motorista oficial da equipa. A partir daí, só lhe faltou marcar golos e contratar jogadores. Foi jardineiro, moço de recados, massagista, porteiro e delegado do campo. Reformou-se há dez anos e o estádio passou a local de recreio.

Passaram lá por casa muitos nomes importantes do clube, como o antigo presidente, Fernando Sanz, ou o atual proprietário, o xeque Al Thani, que “esteve um bocado no pátio”.