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Carlos Carvalhal: "Só volto a um grande se me vierem buscar pela mão. Só se me sentir desejado"

O treinador do Rio Ave recordou, em entrevista ao jornal "Record", vários momentos importantes da carreira, como a passagem pelo Sporting, o regresso a Portugal e o trabalho com Bruno Lage

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MANUEL FERNANDO ARAÚJO

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O coronavírus e os jogos à porta fechada

"Preocupam-me muito. O futebol não se cumprirá na sua totalidade. A representatividade das comunidades está na génese deste jogo. É o sentimento de pertença que faz isto mexer. Se não entendermos isto, não entendemos nada de futebol. Não podemos confundir o jogo com o negócio. Infelizmente, acabamos por ser escravos do dinheiro da televisão."

Os treinos individuais

"Não é por começares a treinar mais cedo, de forma individualizada, que vais estar melhor. Se meteres o atleta melhor preparado da NBA no futebol de alto nível, ao fim de dez minutos encosta-se ao lado. Se fizeres o inverso, ao fim de cinco minutos o jogador de futebol desmaia. A especificidade é que comanda tudo. E a especificidade não se cumpre a treinar de forma individual."

A Premier League e o regresso ao Rio Ave

"Depois de sair do Swansea, estive um ano parado porque tinha a expectativa de regressar a Inglaterra. Em determinada altura de 2018/19, cometo um erro: tive a hipótese de ir para o Nottingham Forest, mas não se proporcionou. Errei. Devia ter ido. Chegado ao final de 2018/19, penso: "Agora sim. Vai aparecer o que eu quero". Fui três vezes a Inglaterra falar com três bons clubes, mas... na 3.ª vez voltei desapontadíssimo! E quando aterro no Porto, recebo uma chamada do presidente António Campos. Admito: não estava a contar regressar. Na sequência disto, liguei ao Marco Aurélio Carvalho [diretor-geral do Rio Ave], pessoa que é da minha confiança. Ele e toda a estrutura do Rio Ave nitidamente agarram-me pelo braço. Que é como eu gosto. "Você é o nosso treinador!" E enquanto isto acontecia, eu pensava: "O meu último clube foi na Premier. Por muito respeito que tenho pelo Rio Ave, o que é que eu tenho a ganhar? O que posso fazer aqui?". Então, começaram a surgir coisas na minha cabeça e a consciência começou a falar. "Neste clube podes colocar em prática coisas que nunca tiveste hipótese de testar. O Rio Ave seria um excelente campo de experimentação para algo de inovador, tanto do ponto de vista tático como da tua metodologia. Se funcionar – como acabou por funcionar – fará com que a equipa salte para um nível muito superior".

A passagem pelo Sporting fez de Carvalhal "um patinho feio"

"Essa foi das razões que me levaram a regressar ao futebol português, com um estatuto diferente... sinto claramente a diferença. O respeito de toda a gente. É tudo diferente. Deveria ter ido para o Sporting quando terminei o meu trabalho no V. Setúbal [após a conquista da Taça da Liga, 2007/08]. Esse era o timing certo e não depois das coisas não terem corrido bem no Marítimo. Apanho o clube em 9.º lugar, num período muito conturbado. Além do mais, a imagem da minha entrada no clube não foi forte. Até podemos considerá-la frágil. Nem sequer fui apresentado na sala de imprensa, foi por vídeo..."

Problemas com o presidente José Eduardo Bettencourt, no Sporting

"Tracei o meu destino no Sporting numa palestra do presidente aos jogadores, em que tive de intervir de uma forma muito dura, de proteção ao grupo. Senti nesse dia – e estamos a falar de 3 meses antes do final da época – que não iria continuar. Mas não posso admitir que o presidente esteja a dizer que ‘nós aqui temos um capitão assim, mas deveríamos ter um capitão como aquele, aquele ou aquele’ – a referir-se a jogadores de outras equipas.

Tenho um grande orgulho em ter estado no Sporting e cumpri o contrato até ao fim. Mas também sei que, poucas semanas após o confronto com o presidente, a minha sucessão foi discutida na imprensa, logo antes do jogo com o Everton, na Liga Europa [3-0], altura em que foi apresentado o Costinha à minha revelia.

Não estava presente na sala quando ele foi apresentado aos jogadores como o novo diretor para futebol. Isto foi tudo ‘sui generis’: havia jogadores no balneário, outros a levar massagens, outros na casa de banho e o Costinha a ser apresentado a 15/16 jogadores, sem a presença do treinador. Uma coisa fantasmagórica. De repente, entro no balneário, vejo aquele cenário – os jogadores a equiparem-se para o jogo com o Everton! – e o presidente diz-me: "Entre, entre." "Eu? Nada disso. Não fui convidado. Peço desculpa." Fechei a porta e fui embora. Isso deu-nos força para dar três ao Everton e depois ganhar ao FC Porto. Nessa altura, senti os jogadores comigo. Daí, até ao fim."

Voltar a um "grande" do futebol português

"Tive uma sondagem por parte de uma pessoa de responsabilidade no Sporting. Mas, nessa altura, disse que não estava disponível. Não queria estar a aprofundar o tema, até porque essa pessoa terá falado comigo e com outros treinadores. Foi numa altura em que pensava que podia regressar a Inglaterra. E esse foi o motivo. Voltar a um grande? Não vivo obcecado. Só volto a um grande se me vierem buscar pela mão. Só se me sentir desejado. Empurrado, não treino em lado nenhum."

Bruno Lage e o Benfica

"O Bruno é um treinador de enorme capacidade. Quando falo no lado político dele, é pela positiva. Resolve questões complicadas com facilidade. Quem me dera ter esse lado mais aflorado! Não podia prever o sucesso dele, mas o que posso dizer é que, quando o Bruno veio trabalhar connosco estava num determinado nível e, quando saiu, saltou de nível. E não apenas pela nossa intervenção, mas também pelas vivências e pelo facto de ser uma pessoa atenta. Escrevia tudo! [risos] Trouxe coisas e levou coisas. Mau era se, depois do trabalho de ‘ranger’ que tivemos no Sheffield, ele não estivesse pronto! Mas a vida está cheia de pessoas bem preparadas... Estes fenómenos aparecem quando existe um cruzamento entre competência e oportunidade. E o irmão dele, que trabalha agora connosco [Luís Nascimento], também vai dar um bom treinador."