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Ryan Gauld: “Não fui bem tratado no Sporting. Houve uma mudança de treinador e o Jorge Jesus não gostava de mim”

O “Mini Messi”, como lhe chamavam na adolescência, deu uma entrevista ao “The Guardian” e fala do Sporting, do peso das expetativas e do Farense, que ajudou a trazer de novo para a Primeira Liga

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Ryan Gauld, no ano em que chegou ao Sporting

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Em adolescente, na Escócia, chamavam-lhe o “Mini Messi”. Ryan Gauld habituou-se a ser promessa e foi nessa condição que veio para Portugal, para o clube que formara Figo e Ronaldo. A vontade de jogar mais e responder em campo às expetativas nele depositadas levaram-no para o Sul, para o Algarve, mas não para se juntar aos britânicos que avermelham nos bares mais do que nas praias. O menino de ouro foi para o Farense, “um clube de que poucos gostam”, segundo o “The Guardian”.

É o facto de, juntamente com os companheiros de equipa e uma conjuntura anormal, ter ajudado a trazer o histórico clube algarvio de volta à Primeira Liga que faz com que Ryan Gauld mereça o destaque de um artigo extenso num dos principais jornais ingleses. Um texto em que se questiona por que razão Gauld não saiu de Portugal em vez de ingressar num clube de segunda liga. “Senti que ainda não tinha conseguido tudo o que queria aqui,” responde o escocês a partir da sua casa, em Vilamoura. “Iria embora sem mostrar a todos o que posso fazer. Queria ficar por cá e prová-lo.”

Ryan Gauld é, aos 24 anos, uma pessoa mais madura do que quando chegou ao Sporting, em 2014. “Acho que sou visto como um jogador com talento mas que ainda não o mostrou. As pessoas têm razão em pensar assim porque havia grandes expetativas quando eu fui para o Sporting; eu estava destinado para grandes coisas. (…) Ainda sou novo para me resignar, ainda há tempo.”

Acima de tudo, o escocês sente-se confortável consigo próprio. As comparações com Messi começaram cedo, quando ele despontou no Dundee United, aos 16 anos, e nunca o incomodaram. Dois anos mais tarde, o Sporting pagou três milhões por ele e deu-lhe um contrato de seis anos com uma cláusula de 60 milhões. O início foi promissor mas rapidamente as coisas azedaram. Gauld tem a noção dos dois lados da moeda futebolística.

“Há um lado bom e um lado mau que as pessoas não veem verdadeiramente,” afirma em relação aos Leões de Alvalade. “Uma das coisas de que eu não gostei no Sporting foi a forma como fui tratado. O lado positivo é o facto de ser um clube enorme, conhecido em toda a Europa, e fazer parte disso durante alguns anos foi uma honra.”

Ao despertar a atenção de um clube da dimensão do Sporting, Gauld levantou as orelhas aos escoceses, sedentos de figuras grandes numa seleção que pouco ou nada tem mostrado nos últimos anos. “Havia muita esperança porque não acontece muitas vezes o Sporting pagar muito dinheiro por um jogador jovem. Por isso, as pessoas esperavam grandes feitos. Logo me apercebi de que a equipa B e os juniores estavam cheios de jogadores brilhantes de 17 e 18 anos. Eles já tinham esse nível de talento caseiro.”

“O mais difícil foi o facto de as pessoas na Escócia e em Inglaterra esperarem que as coisas acontecessem de imediato, que eu entrasse diretamente para a equipa. Os três jogadores do meio campo de então ganharam o Euro 2016 com Portugal: Adrien Silva, William Carvalho, João Mário,” lembra Gauld.

“A minha primeira época foi a melhor. Aos 18 anos, fazia os jogos da Taça da Liga, marcava alguns golos, saído do banco. Na altura pensei que era um grande início mas houve uma mudança de treinador nesse verão e o novo não gostava de mim,” refere o escocês, lembrando a saída de Marco Silva e a entrada de Jorge Jesus.

“Foi gradual. Passei dois anos na equipa B, depois fui emprestado e chamado de volta porque o Sporting se zangou com o clube onde eu estava. Depois fui mandado de novo para a equipa B e comecei a pensar: ‘Talvez não vá resultar por aqui’. Na pré-época seguinte, fui rapidamente posto no grupo dos que não eram pretendidos pelo treinador.”

O jornal inglês lembra que, se Gauld era comparado a Messi, em Lisboa quem reina é Ronaldo, formado no Sporting. “Sempre que um jovem chega à primeira equipa, eles não admitem mas têm esperança de que aconteça novamente,” explica o escocês. “Não se pode pôr essa pressão sobre um miúdo, tentar encontrar um novo Ronaldo não te faz muito bem.”

O Farense, prestes a regressar ao principal escalão do futebol português, beneficiou da maturidade e da ambição do jovem Ryan Gauld, que terminou a Liga Pro como melhor marcador da equipa. “Pessoal e coletivamente, esta paragem veio num mau momento. Não que seja um bom momento para quem quer que seja, mas foi frustrante,” diz, deixando no ar a ideia de que a temporada 2020/21 é a prenda mais desejada.