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A comovente carta de Ines: “Era a melhor do país, no topo do ranking, mas não tinha um cêntimo no bolso. Irónico, não achas, Dominic?”

A argelina Ines Ibbou gravou um vídeo emocionante, dirigido ao austríaco Dominic Thiem, que se recusou a aderir à iniciativa de Novak Djokovic, para ajudar os tenistas dos lugares mais baixos dos rankings

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Ines com o treinador, aos 14 anos

AFP

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Está na posição 620 do WTA, mas nem por isso a tenista argelina Ines Ibbou deixa de elevar a voz para criticar Dominic Thiem. O jogador austríaco recusou fazer parte da iniciativa proposta por Novak Djokovic enquanto presidente do Conselho de Jogadores do ATP, para criar um fundo solidário para com os tenistas pior classificados nos rankings, mais concretamente do 250 ao 700.

“Há pessoas que precisam mais do que os profissionais do ténis, não vejo porque deveria dar o meu dinheiro a outros tenistas, nenhum deles luta para sobreviver. Vejo muitos deles a não dar tudo pelo ténis, muitos não são assim tão profissionais,” afirmou Thiem, no fim do mês passado, gerando controvérsia.

Ibbou escreveu uma carta aberta e fez um vídeo dedicado ao tenista austríaco, em que recua até à infância, com a intenção de fazer com que Thiem reflita. O jornal espanhol “Marca” reproduziu o texto na íntegra.

A jogadora começou por dizer que as declarações de Thiem a fizeram refletir sobre como teria sido a sua carreira se tivesse estado no lugar do austríaco. “Imaginei como teria sido se os meus pais fossem professores de ténis quando usei a raquete pela primeira vez, aos seis anos, e imediatamente me apaixonei por ela. Como cresci nos arredores de Argel, numa família humilde e com pais que não tinham nada a ver com o ténis, não consigo evitar pensar que poderia ter tido uma grande ajuda, mas não te culpo,” diz Ines.

“Já se sabe, num país como o meu não é fácil para uma mulher ser atleta de elite. Não posso agradecer o suficiente aos meus pais todo o apoio e anos de sacrifício para que eu pudesse perseguir o meu sonho,” conta a tenista, descrevendo as condições difíceis na Argélia.

“Muitas vezes não sabemos em que superfície vamos jogar. Relva? Terra batida? Mas não me interpretes mal. Isso não me impediu de construir o meu próprio caminho e ser uma das melhores jogadoras do mundo com 14 anos. (…) Cheguei ao 23º lugar do ranking mundial de juniores. Nada mal para uma mulher africana, certo?”

Apesar do sucesso, Ines Ibbou lamenta não ter conseguido atrair patrocinadores na altura. “Adidas? Nike? Wilson? Prince? Head? Nem sequer existem na Argélia! Com a ajuda de algumas equipas e o apoio de pequenas empresas locais, recebi apenas o mínimo para cobrir a minha participar nos Junior Grand Slams.”

Ines continua a questionar como poderia ter sido se estivesse mais próxima do mundo de Thiem. “Se eu partilhasse o mesmo ambiente, as mesmas regras. Como poder decidir qual o melhor momento para entrar no circuito profissional. Ninguém sabe nada sobre a Argélia. A minha vida podia ter mudado tanto! Sonho com o dia em que possa dar uma prenda aos meus pais.”

“Eu era a melhor jogadora do país, no topo do ranking júnior, mas não tinha um cêntimo no bolso. Irónico, não achas? (…) Mas isso não me parou. Quando tudo se desmoronava, (…) tive a sorte de encontrar uma mão amiga. Pessoas que cuidaram de mim, que me proporcionaram as necessidades básicas: comida e um lugar para dormir. Alguns ajudaram-me com equipamento gratuito, outros com trabalho físico,” conta Ines, que admite que a sua situação era “desesperada”.

Depois de uma lesão grave que coincidiu com uma mudança de regras da Federação Internacional de Ténis (ITF), voltou ao ranking da WTA. E Ines tem “ainda” 21 anos. Está atualmente abaixo do lugar 600 do mundo. “No entanto, espero tornar realidade o sonho pelo qual sacrifiquei a minha infância, os meus estudos, a minha adolescência, a minha vida familiar, os amigos, o dinheiro, os aniversários, as férias, toda a minha vida,” desabafa.

“Dominic, como é ter um treinador que te ajude no circuito? Um preparador físico? Um fisioterapeuta? (…) Vivo sozinha a maior parte do tempo. Sou uma mulher solitária que viaja pelo mundo, (…) procurando sempre o mais barato,” prossegue a atleta, referindo que precisa “de um visto em quase todo o lado”.

Ines lembra a Dominic que, “ao contrário dele”, muitos partilham aquela realidade. “Não foi graças ao teu dinheiro que sobrevivemos até agora e ninguém te pediu nada. A iniciativa partiu de jogadores generosos que mostraram imediatamente compaixão, com classe. (…) Campeões em todas as circunstâncias,” considera a jovem argelina, acrescentando: “Ajudar os jogadores é ajudar o ténis a sobreviver. Este jogo é nobre”.

No fim, Ines pergunta a Dominic Thiem: “A menos que queiras jogar sozinho?” e explica: “Dominic, não te pedimos nada. Exceto um pouco de respeito pelos nossos sacrifícios. Jogadores como tu fazem-me agarrar ao meu sonho. Por favor não o estragues.”