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Kareem Abdul-Jabbar: “O presidente Trump parece incapaz de unir o país. Por isso, escrevi um discurso por ele”

A lenda do basquetebol americano pegou na caneta e tentou ensinar a Trump o que dizer em tempo de Covid-19

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Sylvain Gaboury

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Aos 73 anos, o antigo jogador dos Lakers resolveu escrever ao presidente norte-americano e ajudá-lo a dirigir-se à nação de forma mais eficaz. Inspirou-se nos filmes sobre desporto em que, antes do jogo crucial, o treinador faz uma palestra poderosa, com expressões como “trabalho de equipa”, “coração”, “honra”. Depois dessas palavras, “a vitória parece inevitável”.

“Na vida real, quando alguém que admiras fala, as suas palavras podem ter um grande impacto.” Para Abdul-Jabbar, foi assim com John Wooden, treinador que o ajudou em pontos cruciais da carreira. “Inspirar as pessoas (…) é o que fazem os grandes treinadores e os grandes políticos. É uma das qualidades que fazem deles grandes,” afirmou Abdul Jabbar.

Olhando para o seu país, despedaçado por um vírus impiedoso, a antiga estrela da NBA reflete: “Em vez de nos unirmos nesta crise, lutamos uns contra os outros”. Segundo o ex-basquetebolista, “isso está a levar a ainda mais mortes”. “Um discurso apaixonado do presidente, que nos inspirasse” poderia ajudar, diz Abdul-Jabbar.

Antes de mais nada, Trump deveria fazer esse discurso “não por querer ser reeleito, mas para enfrentar as maiores preocupações do país” e fornecendo um “plano consciencioso” que levasse o país para a frente. Sendo assim, Kareem Abdul-Jabbar coloca-se no lugar do responsável pelos discursos de Donald Trump e oferece-lhe a sua prosa honesta.

“As pessoas são definidas por aquilo que fazem, não durante os tempos bons em que a gentileza e a compaixão são fáceis, mas durante os tempos difíceis, quando ajudar um vizinho pode ter um custo,” refere Abdul-Jabbar, acrescentando: “É a crise que revela se somos heróis ou vilões”.

O antigo atleta sugere ao presidente que diga coisas que não estamos habituados a ouvir da sua boca: “Cometemos erros. A minha administração não atuou suficientemente depressa para reconhecer a ameaça séria colocada pela Covid-19. (…) Mas nós aprendemos com os nossos erros e com os dos outros países”.

O discurso continuaria com ideias muito dificilmente associadas a Donald Trump. “O vírus agravou disparidades raciais e económicas inaceitáveis neste país. O índice de mortes entre as comunidades negras e latino-americanas é significativamente mais alto do que entre os brancos. Farei tudo para alterá-lo.”

Na mesma linha, Abdul-Jabbar sugere que o presidente assegure ao país que irá processar todos aqueles que “usem a crise nacional como desculpa para marginalizar outros (…) por causa da sua raça, orientação sexual ou identidade de género”. “Porque a lógica do poder de um presidente é usá-lo para proteger aqueles que mais precisam dele. E se isso vos ofender, não votem em mim,” sugere Abdul-Jabbar que Trump diga.

“Ninguém sabe como o vírus se originou” é outra sugestão do ex-basquetebolista que parece difícil ser aceite pelo atual presidente americano. O ex-atleta sustenta que “investigar a origem (do vírus) é crucial para perceber melhor como funciona” e que não devem ser tomadas atitudes “contra nenhum país”.

Abdul-Jabbar escreve também: “Para assegurar que o meu foco permanece nesta tarefa, não participarei em qualquer ação de campanha para as presidenciais de 2020. (…) Não farei discursos de campanha nem insultarei o meu opositor ou os seus camaradas.”

Por muito difícil que seja acreditar que Donald Trump possa dizer estas palavras, Kareem Abdul-Jabbar argumenta que “este é o discurso de um presidente determinado a liderar o país durante estes dias negros, de futuro incerto”. “Requere que abandonemos todas as noções de ‘rating’ e engrandecimento pessoal para nos focarmos no bem-estar do povo no seu momento de maior necessidade. Requere alguém que ame o país mais do que a carreira. Requere grandeza,” conclui Abdul-Jabbar, que talvez devesse começar a considerar outros voos.