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Música no coração, nomes trocados, problemas digestivos e Gascoigne: A seleção inglesa no Mundial de 1990

Com o inigualável Bobby Robson aos comandos, Inglaterra chegou às meias-finais do Mundial de Itália, uma prova de obstáculos múltiplos e variados, muitos deles enviados de casa, por uma imprensa esfomeada e por um governo em guerra com o futebol

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Poucos saberão que uma canção cantada por Julie Andrews em Música no Coração acompanhou a seleção inglesa no Mundial de 1990, em Itália. Era uma versão adulterada, com um pouco de picante aqui e ali, mas o “som da liberdade” estava lá.

Em tantos milhares de palavras sobre o torneio, esse “Dé Ré Mi” nunca foi mencionado. A ideia que fica é que era isso mesmo que os jogadores desejavam. Gary Lineker diz que “a imprensa e o país andavam atrás de Bobby Robson na altura”. “Isso gerou uma união entre nós e o Bobby. Éramos nós contra o mundo,” acrescenta o antigo internacional inglês.

A verdade é que a presença da seleção inglesa em Campeonatos do Mundo está cheia de controvérsias que muitas vezes não atravessam a Mancha e permanecem desconhecidas para nós, europeus continentais. Uma das maiores terá sido a que envolveu Bobby Robson nessa altura. Informado pela federação de que o seu contrato não iria ser prolongado para lá de 1991, o técnico tinha aceite ir para o PSV Eindhoven. Mas o negócio foi conhecido antes do Mundial e Robson enfrentou uma revolta.

O jornal “Today” disse na altura que, em séculos passados, alguém que cometesse tal traição teria sido enviado para a Torre de Londres. Desconhecemos o destino dos selecionadores nacionais ingleses no tempo de Henrique VIII mas Robson não teve problemas em classificar as notícias como “lixo”. “Víamos as manchetes nos jornais e ninguém compreendia. Era assim e ainda é. Se a seleção inglesa não estiver bem, isso é visto como um crime,” diz Lineker.

Recorde-se que o Mundial de 1990 se seguiu a um dos mais negros episódios da história do futebol inglês: a tragédia de Hillsborough, em abril de 1989. “Eu estava no meu quarto de hotel em Barcelona,” diz Lineker. “Na televisão espanhola havia imagens com um repórter no estádio, mas era claro que algo terrível tinha acabado de acontecer.”

O desastre veio acentuar a narrativa negativa sobre o futebol promovida por Margaret Thatcher e pelo seu Governo de então. O hooliganismo, presente nos jogos de qualificação de Inglaterra para o Mundial, fizeram com que o próprio ministro do Desporto se mostrasse disponível para retirar a seleção do torneio.

“Havia muito hooliganismo então. O Governo era completamente anti-futebol. Algumas coisas não mudaram. (…) Foi bom sairmos do país naquele verão,” diz Lineker.

Na altura, houve também relatos da presença de uma cantora de 27 anos, recrutada como “hospedeira” do Mundial e mais tarde expulsa da base da seleção inglesa na Sardenha. A relação entre os jogadores e a imprensa estava muito próxima de uma guerra.

O médio Steve McMahon rasgou jornais ingleses à frente das câmaras, enquanto o famoso Paul Gascoigne atirou um copo de água ao companheiro Paul Parker por ter a ousadia de falar a um repórter.

Apesar de tudo, o ambiente na equipa era bom. O estilo aberto de Robson fazia toda a diferença e as suas excentricidades, como o facto de confundir os nomes dos jogadores, ajudavam. Gary Lineker lembra o episódio em que, durante um jogo, Robson se virou para o banco e disse: “Garth, vai aquecer”. “Perguntámo-nos a quem é que o Bobby podia estar a referir-se. Então percebi que era eu, o ‘Garth’ Lineker.” Num momento hilariante que poderia fazer parte de uma sitcom britânica, Bobby Robson chegou a chamar “Bobby” ao capitão da equipa, Bryan Robson, com este a ter de responder: “Não, o senhor é Bobby, eu sou Bryan”.

No primeiro jogo, um insípido empate 1-1 frente à República da Irlanda, Gary Lineker sentiu aquilo que foi descrito como “problemas digestivos”. A refeição da véspera, sobre a qual Gary não quis falar aos médicos da seleção, não lhe tinha caído bem.

Quem ia fazendo das suas sempre que podia era o incansável Gascoigne, sempre pronto para aligeirar o ambiente. No segundo jogo do grupo, frente à Holanda, Paul assinalou a sua chegada aos palcos mundiais com toda a confiança, puxando as tranças a Ruud Gullit. “Ele não dormia muito,” diz Lineker. “Mas ele é inteligente.”

Foi com um dedo magoado que Gary Lineker marcou os dois penaltis que eliminaram o Egito e qualificaram a seleção inglesa para a fase seguinte do Mundial.

Na histórica semifinal com a República Federal Alemã, Bobby Robson operou algumas alterações na forma de jogar da equipa, com um meio campo sem qualquer médio defensivo. Platt, Waddle e Gascoigne formavam um trio criativo, enquanto Des Walker, defesa central e “o melhor marcador homem-a-homem do mundo,” segundo Lineker, tinha a função de “secar” Jurgen Klinsmann.

As equipas chegaram aos penaltis, com Lineker a admitir ter sido o único a praticá-los durante os treinos. Foi uma equipa conformada com a derrota que viu Pearce e Waddle falhar as suas grandes penalidades. “Bobby andou por ali a pôr os braços à volta das pessoas. Era um balneário muito mais calmo do que após a derrota com a Argentina em 1986,” diz o antigo avançado.

De acordo com Lineker, o Mundial de 1990 mudou a forma como a nação via o futebol. “Já não parecia ser um jogo puramente das classes trabalhadoras,” diz. “As mulheres também se tinham apaixonado pelo jogo. Tudo era diferente. Até o hooliganismo se tinha desvanecido.”