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Na noite em que Romário descobriu que o Barcelona tinha posto um detetive a vigiá-lo, pagou-lhe uma bebida

Esta e outras histórias da lenda do futebol mundial nos dois clubes por onde passou em Espanha, Barcelona e Valência, e que davam para um filme com tantas gargalhadas como jogadas de génio

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Mark Kolbe

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Romário de Souza Faria nasceu rodeado de miséria, na favela do Jacarézinho. Eduardo Galeano, em “O Futebol, o Sol e a Sombra” disse dele que “ensaiava desde criança a assinatura para os muitos autógrafos que viria a dar na vida”. Romário encantou o mundo com o seu futebol e divertiu as pessoas com quem conviveu, como conta o jornal espanhol “Marca”.

Romário e Pelé são os dois jogadores brasileiros com mil golos na história do futebol. Em Espanha, marcou por dois clubes: Barcelona e Valência. No primeiro, conviveu com Miguel Ángel Nadal, que se refere ao antigo companheiro como alguém que “mostrou ser um jogador de desenhos animados”. Romário “fez golos de todas cores, coisas que só ele poderia fazer”. Angoy, guarda-redes que, nos treinos, sofreu na baliza os efeitos do brasileiro, diz que este “tinha tanta qualidade que desfrutava mais ao fazer-nos sofrer do que ao marcar golos”.

Para alguém que se divertia tanto em campo, Romário “chamava a atenção porque era sério e reservado”. “Mas mal se juntava a Salinas ou a Koeman começava a fazer partidas o tempo todo,” lembra o antigo guardião do Barcelona.

Julio Salinas foi outro colega de Romário que não lhe poupa os elogios: “É o melhor futebolista que vi, não há outro igual”. Salinas recorda um momento particular que opôs o brasileiro ao treinador Johan Cruyff. O holandês terá reclamado de alguma coisa e Romário contestou de imediato: “Tu não és meu pai, eu treino, jogo…”. Cruyff disse que esperava por Romário no balneário. O brasileiro mandou dizer por um funcionário do clube que tinha ido ao Godó, a um torneio de ténis. Cruyff perdoava-lhe quase tudo porque, segundo Salinas, “o respeitava mais do que a qualquer outra pessoa no futebol porque via coisas que os outros não conseguiam”. Julio Salinas conta que a “melhor forma de picá-lo era dizer que Bebeto era melhor do que ele”.

Uma das histórias que contam os antigos colegas do Barcelona tem a ver com a escapadela de Romário para ir ao Carnaval de 94. “Queria ir o mais depressa possível para o Brasil e o Cruyff disse-lhe que, se marcasse dois golos, o deixaria ir. E ele marcou. Tinha tanta confiança que já tinha comprado os bilhetes,” conta Salinas.

Outro dos relatos cómicos a envolver Romário e o Barcelona prende-se com um detetive privado que o clube catalão contratou para seguir o brasileiro. Romário gostava de sair à noite, disso todos sabiam. “Se não saio à noite, não marco golos,” disse. Uma noite, apercebendo-se da presença de alguém na sua sombra, Romário ter-se-á virado para o detetive, dizendo: “Esta ronda pago eu, senão vais gastar uma fortuna hoje”.

Sempre teve a fama de não se esforçar ao máximo nos treinos. No Valência, Romário teve muitos conflitos com o treinador Luis Aragonés, que lhe dizia: “olha-me nos olhos”. O brasileiro não gostava de correr. “Não corria mas dizia: ‘Que o façam os jovens, Mendieta e companhia. Eu já não estou para correr,’” conta Sietes, antigo colega.

Vicente Engonga, que também partilhou com ele o balneário em Valência, recorda que Romário treinava sempre de colete, mesmo que estivessem 40 graus, o que não era invulgar em agosto.

A vida no Valência não lhe correu tão bem como em Barcelona porque, segundo os seus antigos companheiros, nunca ninguém tinha exigido tanto dele. O melhor rendimento de Romário seria com a camisola do Brasil, com o qual ganhou o Mundial, sendo o melhor marcador do torneio. Foi com a “canarinha” que o jogador de futebol apaixonado por futvólei e Coca-Cola melhor mostrou o futebol de ficção científica de que era capaz.