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Há racismo no comentário televisivo? “Existe preconceito na forma como descrevemos os atributos de futebolistas baseados na cor da pele”

Um estudo sobre comentário futebolístico na televisão europeia mostra que os jogadores com tons de pele mais escuros recebem 63% das críticas sobre inteligência, qualidade e versatilidade

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Sergio Perez

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De acordo com o jornal inglês “Daily Mail”, a PFA, associação de futebolistas profissionais de Inglaterra e País de Gales, pediu aos comentadores que revejam a forma como se referem a jogadores com diferentes tons de pele, depois de um estudo ter revelado que esse fator influencia a maneira como os comentários são feitos.

O primeiro estudo do género no futebol indicou que existem “estereótipos raciais enraizados”, promovidos em comentários como: os jogadores de pele mais clara são mais elogiados pela inteligência, qualidade, empenho e versatilidade; jogadores com tons de pele mais escuros recebem pelo menos 63% das críticas em comentários sobre inteligência, qualidade e versatilidade; jogadores com tons de pele mais escuros têm mais probabilidade de ser reduzidos aos seus atributos físicos, recebendo quando sete vezes mais comentários sobre a sua força ou três vezes mais sobre a sua velocidade.

Jason Lee, responsável da PFA pela igualdade, disse: “Para combater o impacto real do racismo estrutural, temos de reconhecer e tratar o preconceito racial. O estudo mostra um preconceito evidente na forma como descrevemos os atributos de futebolistas baseados na cor da sua pele. Os comentadores ajudam a formar a perceção que temos de cada jogador, aprofundando qualquer preconceito que o espetador já tenha”.

Também o presidente da ONG Kick It Out, Sanjay Bhandari, comentou a notícia. Bhandari disse que o estudo apenas confirmou o que muitos já suspeitavam. O ativista antirracismo destacou o impacto que as perceções negativas podem ter sobre os jogadores ao longo das suas carreiras. “Os jogadores negros sofrem por causa de um estereótipo sobre ritmo e força e falta de inteligência.”

Bhandari comentou também o facto de poucos jogadores negros chegarem a treinadores de topo. “Carregando esses estereótipos culturais de preguiça, não surpreende que tão poucos jogadores negros de topo consigam ter uma carreira de alto nível como técnicos,” acrescentou.

Pegando na situação que se vive atualmente a nível global, com protestos generalizados contra o racismo, Bhandari diz: “O movimento Black Lives Matter mostrou que precisamos de fazer o jogo evoluir. Para os comentadores, isso significa serem mais cautelosos na linguagem e terem mais consciência do seu preconceito inconsciente”.

A empresa dinamarquesa RunRepeat conduziu o estudo em associação com a PFA. Foram revistos comentários de 80 jogos desta época em quatro das mais importantes ligas europeias: Premier League, La Liga, Série A e Ligue 1. A liga portuguesa não foi portanto contabilizada para este estudo.