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Antiga campeã de Muay Thai enfrentou casamentos combinados e bullying no caminho para a glória. “A minha vida é maior do que o boxe”

Ruqsana Begum publicou agora em livro a sua história. A inglesa com raízes no Bangladesh conta como ultrapassou vários problemas graves para conquistar o mundo. Depois do Muay Thai, Begum procura o sucesso no boxe

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Marc Atkins

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Enquanto crescia na zona leste de Londres e endurecia para se tornar campeã, Ruqsana Begum, foi obrigada a enfrentar um casamento por combinação, ataques de pânico, depressão, bullying no ginásio e ataques da síndroma de fadiga crónica.

Durante a entrevista ao jornal inglês “The Guardian”, Ruqsana não consegue evitar chorar. “Esses momentos trouxeram-me até este momento,” diz. “Já não preciso de procurar aprovação do lado de fora. Pelo contrário, vou ‘para dentro’ e encontro lá a força.”

Begum reitera a sua paixão pela luta e a certeza de que ainda pode ser bem-sucedida na modalidade que abraçou mais recentemente, o boxe. “ Adoro. Entrar no ringue permite-te crescer porque estás a colocar-te numa zona de medo profundo. E quando ultrapassas isso, é uma sensação de realização.”

A atleta de 36 anos abraçou a violência do Muay Thai e do boxe porque ambos lhe trouxeram a serenidade que não tinha na vida pessoal. “Penso que qualquer forma de criatividade, seja a música, a dança, o Muay Thai ou o boxe, permite-te canalizar emoções e expressares-te. (…) É como tudo na vida, o talento não é nada sem sacrifício.”

“Quando tive os meus problemas, não culpei os outros. Assumi a responsabilidade e disse: ‘OK, é aqui que estou. Como vou para a frente?’.” O livro de Begum, para já apenas disponível em inglês, chama-se Born Fighter, e dá uma ideia dos obstáculos que a inglesa enfrentou. A certa altura, Ruqsana viu-se entre ser uma prendada filha muçulmana e um desejo mais negro de se descobrir no ringue. Aos 18 anos, escolheu a segunda opção.

Cinco anos mais tarde, foi obrigada a abandonar o Muay Thai. A família tinha-lhe arranjado um casamento. “Pensei: ‘Tenho de respirar porque eu nem sequer o conheço’. Senti tanta pressão que tentei falar com a minha mãe, que não quis conversar. Eles não deixaram dúvidas de que isto ia acontecer.”

Begum sublinha que o marido, um banqueiro londrino, não era um monstro. No livro, lê-se como se sentiu presa a viver com a família do marido, que esperava dela tantas tarefas em seu nome. “Eu não podia dizer: ‘Estou cansada e não posso lavar a roupa’. Tentava constantemente agradar-lhes mas nada do que eu fizesse era suficiente. Ao mesmo tempo iniciei um trabalho como arquiteta estagiária.”

Foi nessa altura que começaram os ataques de pânico. O médico aconselhou-a a ir viver com os pais. Se estes a enviassem de volta para o casamento infeliz, Ruqsana recusaria. “Mas teria sido uma batalha para encontrar a coragem e a força.” Enquanto os pais se debatiam com dúvidas, o marido pediu o divórcio.

“Tomei antidepressivos durante quatro meses e passei o tempo todo na cama. Mas eu não queria e a única coisa em que pensava era o Muay Thai. Disse a mim própria: ‘Regressa ao ginásio.’ Um dia voltei e levei os meus pais comigo.” Foi desta forma que a atleta regressou aos treinos, mas nem tudo correu bem. Um grupo de mulheres que treinava no mesmo espaço fazia-lhe a vida negra e o próprio treinador mostrou-se pouco compreensivo.

Em 2011, Begum chocou o mundo ao tornar-se campeã da Europa, na Letónia, sem treinador. Um técnico dinamarquês saltou do público para a ajudar quando percebeu que Begum estava sozinha entre os assaltos. Trabalharam juntos durante os anos seguintes, o que culminou na glória de Begum, ao tornar-se campeã do mundo em 2016.

Em 2018, mudou-se para o boxe profissional. Não tem sido fácil para Begum. Em 2019, magoou-se com alguma gravidade e perdeu contra Ivanka Ivanova, a sua adversária búlgara. “Não ajudou o facto de ela me ter dado uma cotovelada aos 30 segundos e o meu olho ter fechado completamente.”

A Covid-19 não tornou as coisas mais fáceis mas Begum está convencida de que vai ser campeã do mundo de boxe. Atualmente, está em conversações com promotores da modalidade nos EUA e diz: “Tenho esperança. Sinto que a minha história é maior do que o boxe e estes desafios vão fazer de mim uma melhor lutadora e uma pessoa melhor.”