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Ingleses rendidos às ondas portuguesas: “Se, algum dia, alguém surfar uma onda de 30 metros será quase certamente na Nazaré”

O jornal inglês “The Observer” enviou à Praia do Norte um repórter para conhecer o fenómeno das ondas gigantes que já foram notícia tanto pelos recordes de McNamara e companhia como pelos acidentes

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Gareth McNamara, o senhor Nazaré

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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“Todos os que encontras na Nazaré te dizem que as ondas aqui são diferentes: mais pesadas, mais poderosas, menos previsíveis, de certa forma ameaçadores,” diz Tim Lewis, jornalista do jornal inglês “The Observer”. Lewis esteve em fevereiro na pequena localidade portuguesa transformada em atração turística especializada. O surf já se impôs como ex-libris da região, à frente das meninas das sete saias.

Fala-se da Nazaré mas é especialmente a Praia do Norte a casa das maiores ondas surfáveis no planeta. O jornalista lembra que “há dez anos, era território desconhecido, mesmo nos circuitos das ondas gigantes”. Foi um havaiano de 52 anos que mudou para sempre o postal da Nazaré. Garrett McNamara veio pela primeira vez a Portugal em 2010. No ano seguinte, cavalgou uma onda de mais de 23 metros e entrou para o Guinness. Em 2017, o recorde foi quebrado por um brasileiro, Rodrigo Koxa. “Se, algum dia, alguém surfar uma onda de 30 metros – o cálice sagrado do surf – será quase certamente na Nazaré,” diz Tim Lewis.

Histórias de perigo e de insucesso tem havido muitas, também, como a da brasileira Maya Gabeira, que quase se afogou em 2013, embora cinco anos depois tenha voltado para bater o recorde feminino, numa onda de 20,8 metros. Ross Clarke-Jones, um surfista australiano, foi outro dos casos, tal como Andrew Cotton, um inglês que, depois de ser catapultado por uma onda magoando as costas, resolveu ficar a viver no local do crime e hoje conduz motos de água na Nazaré.

McNamara explica a Tim Lewis a magia da imagem que se tornou famosa nos últimos anos. “O farol dá perspetiva às ondas, fazendo delas magníficas e belas e inacreditáveis.” Ali, tão perto do oceano, a pacata vila de 15.000 habitantes descansa indiferente aos gigantes que crescem nas suas costas. “Desde sempre que sobrevive de duas indústrias: a pesca e o turismo no verão. Até agora, a sua maior fama era que Stanley Kubrick e Henri Cartier-Bresson fizeram fotografias aqui,” diz o jornalista inglês.

“Em 2020, a Nazaré não mudou quase nada desde os dramáticos eventos da última década. Não há cadeias de lojas e quase nenhum espaço a vender material de surf,” regista o repórter. Não que a modalidade seja uma novidade no nosso país. “Há 30 anos que Portugal é um destino de surf – principalmente Peniche e a Ericeira,” diz Lewis. Mas foi com o recorde de McNamara que a perspetiva mudou, particularmente no que diz respeito à Nazaré. O acontecimento chegou às primeiras páginas dos jornais de todo o mundo e mesmo o programa “60 Minutos” da CBS fez uma reportagem sobre a localidade portuguesa.

Gareth McNamara fixou-se pela Nazaré, casou na Praia do Norte e teve dois filhos no nosso país, um deles uma menina que foi buscar o nome à terra que viu o pai na crista da onda. Sobre o perigo inegável, o havaiano diz que “tudo o que há a fazer é preparar a eventualidade e ter consciência dos riscos”. Como Lewis lembra, “a maioria dos surfistas tem o patrocínio de marcas ligadas à modalidade; McNamara é patrocinado pela Mercedes-Benz,” o que talvez simbolize bem a força necessária para enfrentar ondas gigantes.