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Em Portugal as bancadas dos estádios estão vazias. No Japão, há público desde julho, mas sem fazer muito barulho para não acordar o vírus

António Costa desiludiu os que achavam que iriam poder voltar já aos estádios. Futebol sim, mas sem público. Do outro lado do mundo, no Japão, o som das bancadas é uma canção com regras apertadas, muita contenção, mas já se ouvem aplausos não-enlatados quando um golo é marcado

Carlos Luís Ramalhão

Koji Watanabe

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O som de um jogo profissional de futebol em Portugal, no tempo do coronavírus, é o resultado natural de milhares de cadeiras vazias, nalguns casos cobertas por cachecóis que não falam, que são a representação possível dos adeptos que lá não podem estar. Nalgumas situações, a reprodução sonora do ambiente de outros jogos, antes disto tudo, permite esquecer momentaneamente o silêncio pouco próprio de um recinto desportivo vivo.

Assim vai continuar, segundo o primeiro-ministro António Costa, que afirma não haver condições para que o público regresse aos recintos desportivos, mesmo que se trate de estádios com capacidade para milhares de pessoas e houvesse espaço suficiente para um distanciamento maior do que em qualquer restaurante. A DGS diz que o regresso dos adeptos às bancadas não é prioridade.

Do outro lado do mundo, no Japão, a paixão pelo futebol não é menos intensa do que na Europa. Covid-19 é, lá como cá, ameaça, mas o som do futebol profissional ao vivo é ligeiramente diferente. Ao contrário do que acontece no velho continente, o público japonês pode assistir aos jogos no estádio desde o início de julho.

O “New York Times” descreve o ambiente do futebol profissional japonês na era do novo coronavírus: “À medida que os jogadores levam a bola pelo campo, oiço de repente o distinto amarrotar de um saco de plástico quatro filas à minha frente, com um homem a puxar de uma perna de frango para comer”.

Em tempos normais, os adeptos japoneses não são apenas barulhentos mas também, como seria de esperar do rigor nipónico, extremamente orquestrados e disciplinados. Ao longo de um jogo, cantam, vibram, tocam tambores e agitam enormes bandeiras, num espetáculo que rivaliza com o que se passa em campo. A maioria dessas ações de apoio está, por agora, proibida, por medo de ajuntamentos mais acalorados.

Quando a jornalista do “New York Times” assistiu a um jogo do FC Tóquio ao vivo, teve ao seu lado 4.600 adeptos do clube da capital, todos eles muito silenciosos, exceto pelo ocasional ruído de um pacote de comida ou a rara e contida explosão de aplauso. Lá como cá, com ou sem fãs nas bancadas, era possível ouvir os comentários dos jogadores e treinadores e mesmo alguns pontapés na bola. “Quando os fãs aplaudiam um golo ou uma boa defesa, o som era o de um concerto sinfónico, com o público a aplaudir entre movimentos,” registou Motoko Rich.

O Japão nunca cedeu à ideia de confinamento, apesar de conviver com o vírus ininterruptamente desde janeiro. No estádio, todas e todos se submeteram à análise de um termómetro. Nas zonas de alimentação, marcas no solo lembravam da necessidade de manter o distanciamento. Nas bancadas, uma em cada duas filas permanece vazia, com dois lugares de intervalo entre cadeiras ocupadas. Durante o jogo, os espetadores têm de permanecer nos seus lugares. O consumo de álcool é proibido.

Aos portadores de bilhete foi pedido que deixassem o nome e a informação de contacto para que pudessem ser contactados no caso de haver um caso de Covid-19 no estádio. Contudo, de acordo com a liga de futebol, nenhum espetador foi infetado até agora desde que os estádios reabriram.

No jogo de domingo, Noriyuki Yamagami, adepto de corpo inteiro, tentou ultrapassar a falta de espetadores ao seu lado colocando recortes de cartão vestidos com a camisola do FC Tóquio. Yamagami confessou à jornalista do “New York Times” que, em casa, faz as suas refeições longe do resto da família, como precaução. Mas não conseguiu ficar longe do estádio.

“Quando eu via os jogos na televisão, só queria respirar este ar, os cheiros, ouvir os sons. Não é como antes mas eu tinha o desejo de estar aqui,” disse o adepto japonês.