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Antigo guarda-redes do Everton atira-se a Boris Johnson, Donald Trump e “o gajo da Coreia do Norte” e luta contra o racismo e a homofobia

Neville Southall foi o guardião da equipa de Liverpool em 578 jogos, entre 1981 e 1998. Considerado um dos melhores da sua geração, o galês, agora com 61 anos, diz o que pensa do mundo. Sem rodeios

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David Davies - PA Images

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“Quero que o Boris Johnson, o Nigel Farage, o Donald Trump e aquele gajo da Coreia do Norte sejam postos num barco que ande à volta do mundo nos próximos 25 anos,” diz Neville Southall confortavelmente sentado no seu cadeirão. É a resposta à pergunta do jornalista do “The Guardian” sobre como gostaria de mudar o mundo. O antigo guarda-redes do Everton e do País de Gales tornou-se um dos maiores apoiantes das pessoas marginalizadas pela sociedade.

Se, nos anos 80 e 90, Southall parecia estar em todos os pontos da baliza, tal a facilidade com que defendia remates adversários, em 2020 o galês está em todas mas com uma diferença: está definitivamente no ataque. Sai de casa às 5:45 da manhã para trabalhar e, depois de um dia numa escola para crianças com necessidades especiais em Swansea, ainda se vai juntar a um painel online que debate problemas da comunidade LBGTI+.

“Precisamos de um governo para todos, não apenas os ricos, e eu gostaria de ver um debate a sério sobre racismo, imigração, género e trabalhadores do sexo. Somos demasiado imaturos neste país para pôr o dedo em algo sem que tenhamos uma enorme discussão. Um governo deveria ser capaz de discutir uma variedade de temas, como estamos a falar agora, e não deveria ser sobre marcar pontos. Deveria ser sobre o que é melhor para todos.”

Southall faz 62 anos amanhã mas não se conforma com o caminho que o mundo está a tomar. O que o motiva é ajudar outras pessoas. O antigo futebolista usa a sua forte presença no Twitter para dar às comunidades habitualmente ignoradas uma plataforma de comunicação. Promove esclarecimentos, ao permitir que a sua conta seja tomada por especialistas em saúde mental, adição, problemas de pessoas transgénero, trabalho sexual, deficiências, prevenção de suicídio, ao mesmo tempo que encoraja o debate para combater o racismo e a homofobia.

Tempos houve, durante a sua longa carreira no Everton, em que Southall foi considerado um dos melhores guarda-redes do mundo. Apesar da dedicação a outros temas, o galês ainda se interessa por futebol, em particular pelo “seu” Everton, mas está menos preocupado com o impacto da chegada de James Rodríguez do que com o estado do mundo. “Temo por este país,” diz. “Temos dois dos mais perigosos líderes mundiais. Johnson e Trump são canhões descontrolados. No passado achávamos que os descontrolados vinham da Coreia do Norte ou do Iraque, como Saddam Hussein. Nunca esperas que canhões descontrolados tomem conta do teu país.”

Em relação ao inevitável tema da Covid-19, Southall lamenta o que o vírus “fez à sociedade durante o confinamento”. “Os trabalhadores sexuais, por exemplo, não tiveram qualquer ajuda. É uma indústria que está cá há mais tempo do que qualquer outra. Pagam os impostos e têm famílias para alimentar mas ninguém no governo faz nada para os ajudar.”

Neville Southall fala destes temas com seriedade e não com sensacionalismo. Acaba de lançar um livro chamado “Mind Games”, que é mais sobre saúde mental do que futebol. Aborda temas como o medo, o insucesso, o racismo, a homofobia ou a motivação. Recorrendo à carreira notável, Southall tenta ajudar outros a envelhecer melhor.