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Van der Sar: “Por vezes, até nós holandeses somos românticos. Quero que todos os adeptos vejam no Ajax um segundo amor”

O antigo guarda-redes do Ajax, da Juventus ou do Manchester United é o diretor executivo do clube de Amesterdão e coordena a saída de jogadores provenientes da histórica academia holandesa

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Edwin van der Sar ainda se lembra da admiração nos rostos de Ryan Giggs e Paul Scholes, então seus companheiros de equipa no Manchester United. O guarda-redes holandês, que chegara a Old Trafford em 2005, via Ajax, Juventus e Fulham, queria saber se os colegas gostariam de jogar no estrangeiro. Van der Sar sugeriu que poderiam aprender uma nova língua, experimentar culturas e climas diferentes, talvez ganhar mais dinheiro. A resposta dos dois foi “não”. Porque o fariam? Estavam num clube grande, na sua cidade, com a família e os amigos por perto, a ganhar bem e a vencer troféus.

Para o gigante holandês, as dinâmicas eram outras, uma vez que tinha começado no Ajax, um clube com uma forma muito própria de viver e trabalhar o futebol. Hoje, van der Sar é diretor do clube de Amesterdão e pouco mudou na forma de ver o desporto.

Em 1995, o Ajax venceu a Liga dos Campeões e, pouco depois, a equipa desfez-se com os jogadores a reformarem-se ou a partirem para outros voos, no estrangeiro. O guarda-redes foi dos últimos a sair, em 1999, para a Juventus. “Se quisesses progredir na carreira, tinhas de ir para fora,” diz van der Sar.

O holandês é agora uma figura central na decisão do momento certo para que os jogadores provenientes da academia do Ajax saiam do clube. Recentemente, Donny van de Beek deixou o Ajax e rumou ao Manchester United. O médio podia ter saído no verão do ano passado, possivelmente para o Real Madrid, mas foi precisamente van der Sar quem vetou a saída por considerar que era o timing errado. De Jong tinha saído para o Barcelona, de Ligt para a Juventus e Dolberg para o Nice, não podia haver mais desfalques no plantel.

Os adeptos do Ajax celebraram mais um ano de van de Beek com uma canção especial. Há uma compreensão geral da filosofia do clube e o próprio jogador percebeu a decisão. “Ele ficou bem. Estava connosco há 10 anos. Ele adora o Ajax. Acho que ele próprio precisava de um ano extra,” explicou van der Sar ao “The Guardian”.

“Eu quero que todos os adeptos de todos os clubes do mundo vejam no Ajax um segundo amor, que gostem do nosso jogo ofensivo e da forma como desenvolvemos novos jogadores. A nossa batalha é ser um nome grande com um orçamento muito mais pequeno e lutar contra os gigantes. E essa luta é fantástica. Por vezes até nós, holandeses, conseguimos ser românticos. Não temos um tipo grande e rico por trás de nós e isso torna-nos quase únicos,” conta um entusiasmado van der Sar.

Segundo a Deloitte, o lucro do Ajax em 2018/19 foi de 199 milhões de euros, o que os coloca no 23º lugar da lista de clubes europeus e esse número foi inflacionado pela inesperada presença nas meias-finais da Liga dos Campeões, que rendeu ao clube 79 milhões de euros. O West Ham, equipa de meio da tabela na Premier League, tem um lucro parecido.

Apesar disso, van der Sar e o Ajax não estão para brincadeiras nem para vender ao desbarato. “Não precisamos de vender. Podemos sempre vender jogadores mas não para tapar buracos no orçamento. Quero que os jogadores saiam porque são bons e não porque preciso de arranjar números,” diz van der Sar.