Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

“Ninguém compra bilhete para ver mulheres a jogar ténis”. Há 50 anos, uma revolta deu origem à WTA

Em 1970, as Original 9 decidiram que era altura de acabar com as diferenças abismais de tratamento entre tenistas masculinos e femininos. Boicotaram um torneio, criaram um evento alternativo e deram um passo de gigante para fazer do ténis feminino o que ele é hoje

Tribuna Expresso

Bettmann

Partilhar

Se o pai de Kristy Pigeon tivesse conseguido o que queria, ela nunca teria sido tenista. “É uma indicação de como os homens viam as mulheres há 50 anos,” Pigeon disse numa entrevista ao jornal “The Guardian”. “Eu era gozada quando corria ou treinava ténis. Na escola, as pessoas achavam que não era muito atraente para as mulheres praticarem desporto.”

Em vez disso, Pigeon tornou-se uma das Original 9, o grupo de tenistas femininas que boicotou e se afastou das estruturas dominadas por homens do ténis internacional, a 23 de setembro de 1970. Esta semana marca 50 anos desde que Pigeon, Judy Tegart Dalton, Julie Heldman, Peaches Bartkowicz, Rosie Casals, Kerry Melville, Nancy Richey, Valerie Ziegenfuss e Billie Jean King puseram o ténis no caminho certo para que se tornasse a maior modalidade desportiva feminina. Até então, “não havia torneios femininos suficientes e, com os homens, havia realmente sexismo institucional: ‘Ninguém compra bilhetes para ver as mulheres a jogar’,” conta Julie Heldman.

Com o descontentamento a crescer, em agosto de 1970, Jack Kramer, antigo número um do mundo e promotor do torneio Pacific Southwest, anunciou que o vencedor masculino ganharia 12.500 dólares, enquanto a campeã feminina receberia apenas 1.500 dólares. Em choque, as tenistas juntaram-se no Open dos EUA e saíram de lá sob a liderança de Gladys Heldman, editora da “World Tennis Magazine”.

Heldman decidiu organizar um torneio para oito mulheres, por convite, para coincidir com o Pacific Southwest, ao mesmo tempo oferecendo um prémio maior e boicotando o outro evento. “Cada uma de nós estava comprometida com a rebelião,” diz Julie Heldman, a filha de Gladys. “Desde o início havia este grupo de mulheres loucas, todas boas jogadoras de ténis, que acreditavam na luta por alguma coisa.”

Pouco antes do torneio, todas elas receberam um telefonema de Stan Malless, presidente do comité de sanções da United States Lawn Tennis Association, a ameaçar com a suspensão qualquer jogadora que competisse naquele evento “clandestino”. “Eu achei que, se eu fosse suspensa, podia voltar atrás e focar-me nos meus estudos por uns tempos e dizer: ‘Isto não está bem, temos de mudar isto’,” diz Pigeon.

As consequências chegaram ainda mais depressa para as duas australianas, Dalton e Melville. A associação do seu país recusou reconhecê-las coma atletas e considerou-as inelegíveis para representar a Austrália. “Não podíamos fazer nada,” diz Dalton. “Eles não nos deixavam jogar em lado nenhum. A Nova Zelândia disse que podíamos jogar em Auckland, mas depois a ILTF disse que iria banir a Nova Zelândia…”

Dalton chegou à final desse torneio e perdeu para Rosie Casals. O evento foi um sucesso, o que convenceu a Philip Morris, patrocinadora do torneio, a apoiar um circuito completo. As jogadoras votaram em Gladys Heldman para continuar a liderá-las.

O Virginia Slims Circuit providenciou a plataforma para a formação da WTA, que cresceu até ser a estrutura atual. O ano passado, 49 anos depois de as tenistas terem posado com contratos de um dólar para que o mundo visse, Ashleigh Barty recebeu a quantia recorde de 4.42 milhões de dólares como prémio nas finais WTA, em Shenzhen.