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João Paulo Batalha: “Dança alegre entre política e futebol permanece, está instituída e é algo de que ninguém quer falar”

O presidente da Associação Transparência e Integridade, prestes a deixar o cargo, debruçou-se sobre o tema do futebol, “associado, em Portugal e em todo o lado, a mecanismos de crime organizado”

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O presidente da Associação Transparência e Integridade, prestes a deixar o cargo, debruçou-se sobre o tema do futebol, “associado, em Portugal e em todo o lado, a mecanismos de crime organizado”

Catarina Guerreiro

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Não sendo adepto de futebol, João Paulo Batalha admite que dá atenção ao fenómeno desportivo. O presidente da Associação Transparência e Integridade está a uma semana de deixar o cargo mas não o faz sem primeiro analisar, em entrevista ao “Jornal Económico”, esse complexo mundo do futebol em Portugal.

O caso “comissão de honra” de Luís Filipe Vieira

“Este episódio revela que esses dois contextos representam os mesmos meandros. A verdade é que política e futebol confundem-se e promiscuam-se porque jogam com as mesmas lógicas, de trocas de clientelas eleitorais, quer nas eleições para os clubes, quer nos escrutínios para as câmaras e governos. (…) Os políticos convivem bem com isso. (…) Esta dança alegre entre política e futebol permanece, está instituída e é algo de que tanto os responsáveis políticos como os dirigentes dos clubes acham que nem vale a pena falar.”

A transparência e a integridade no futebol

“Apesar de tudo, o futebol vai falhando seguramente no campo da integridade e vai-se arrastando no campo da transparência. (…) A indústria do futebol tem um maior escrutínio por parte da imprensa, pelos reguladores, (…) pelo que os reguladores da própria bolsa e outros vão-se interessando pela atividade. No entanto, esta é uma indústria que está associada, em Portugal e em todo o lado, a mecanismos problemáticos de crime organizado de lavagem de dinheiro. (…) É por isso que vemos jogadores que mal saem do banco a serem transacionados por milhões, com a intervenção de todo o tipo de fundos, (…) de investidores de origens duvidosas.

Redes criminosas organizadas

“É seguramente uma área de atividade que está exposta a um risco enorme de influência ou captura por redes criminosas organizadas. E essas redes estão muitas vezes relacionadas com redes de falsificação de resultados associadas aos mercados de apostas internacionais. (…) As organizações federativas nacionais e internacionais não têm feito um bom trabalho, já que a FIFA e a UEFA têm que ser arrastadas, quase a gritar e a chorar, para cumprir as boas práticas de integridade.

O escrutínio dos adeptos

“Essa adesão de milhões de adeptos por todo o mundo nem sempre se traduz num reforço do escrutínio, mas por vezes numa disponibilidade dos próprios adeptos para encobrirem as más práticas dos seus clubes e fecharem os olhos a muitas coisas que deviam fazer soar alarmes.”

A separação higiénica

“Por muito que gostes de futebol e dos clubes (…) as pessoas querem uma separação higiénica mínima entre esta indústria do futebol e a política, entre as ‘paixões’ e as ‘razões’. (…) É visível esta tendência ou tentação de capturar os presidentes de câmara, os deputados amigos e, no limite, até o primeiro-ministro. É algo que vemos que cada clube tenta fazer. Acredito que os adeptos estão cada vez mais fartos disso.”